.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: Sandália Melissa: a Intolerância Estética como reflexo da falta de Cultura de Moda

6 de maio de 2015

Sandália Melissa: a Intolerância Estética como reflexo da falta de Cultura de Moda

O post anterior foi sobre a falta de cultura de moda e suas consequências. Neste artigo, vamos mostrar que uma dessas consequências é a intolerância estética. 
O  acessório que citamos naquele artigo são os modelos Animal Toe Vivienne Westood da Melissa, cuja ponta simula uma pata felina. Lá, falamos da diferença de um produto comercial, de um conceitual e da moda irreverente. A Melissa tem investido muito no lado conceitual, construindo Galerias de Arte aqui e no exterior. O conceito de irreverência tem caracterizado muitas coleções da grife. Porém, observamos que os calçados que saem fora do padrão, são verbalmente rejeitados pela clientela brasileira da empresa. 
Será que é falta de cultura de moda? Possivelmente. Existe a dificuldade de separar o gosto pessoal (achar algo feio ou bonito) da moda conceitual como expressão criativa de um designer. Moda esta que é uma especialidade do trabalho de Vivienne Westwood. A Rainha do Punk constantemente deixa de lado o senso comum em suas criações buscando novas formas e exotismo.

O animal toe tem a ponta imitando a pata de um felino

A cultura de moda nos capacita julgar uma peça irreverente sem levar em conta nosso gosto pessoal e considerando o design ou a história do criador. 

A única razão pela qual estou na moda é para destruir a palavra "conformismo".
Vivienne Westwood

Westwood é uma das pioneiras ao fazer o corset ser usado como peça de estilo. Então, toda vez que você ostentar na rua o modelo por cima da roupa (a peça é originalmente uma underwear), não esqueça de agradecer à Vivi.
Com suas ideias e criações à frente de seu tempo, ainda hoje suas roupas carregam aquele mesmo ar inovador de 40 anos atrás, quando criou o que conhecemos hoje como Moda Punk. Ela fez inclusive, camisetas adornadas com ossos de verdade! Atualmente luta pelo consumo consciente, por uma moda mais ética e recentemente empoderou mulheres na África através de um projeto de costura que dá controle à vida de mulheres marginalizadas que vivem na linha da pobreza.

 

Desde 2004, a estilista tem sua própria linha de sandálias na empresa Melissa. Algumas de suas criações para a marca são versões simplificadas ou modificadas em plástico de seus modelos em couro. Para muitas de nós, comprar uma Melissa desenhada pela Vivienne é a única forma de ter um sapato da estilista a preço acessível.


Versões em couro e em plástico (Melissa)


 

O mais intrigante de tudo isso é que as versões mais conceituais da Melissa não são peças baratas, indicando assim, que, supostamente, seus clientes possuem um nível mais elevado financeiramente, e não seria justamente pessoas desse nível que costumam ter mais cultura? Será que se essas pessoas tivessem a curiosidade de ir atrás da história da Vivienne, mudariam os olhares sobre suas criações mais conceituais?
Um dos países que mais usa e admira os calçados da inglesa é o Japão. Sim, o país do street style mais criativo do mundo. O país que inspira tendências tem pessoas que adoram usar moda irreverente. É de se refletir se nossa resistência ao irreverente vem da a falta de cultura de moda.

Calçados da Vivienne Westwood no street style


Melissa Ballet (e similares)
Esse é um outro caso que reflete a possível falta de cultura de moda em nosso país, pois é mais um exemplo do desrespeito à identidade visual individual. O âmbito novamente, não é discutir sobre gosto, pois cada um tem o seu, e sim, abrir um questionamento sobre saber julgar sem levar seu gosto pessoal em consideração.

A internet permite situações paradoxais. Ao mesmo tempo que forma amizades, debates, revela o lado preconceituoso e intolerante das pessoas quando se unem. O caso aqui é a forma que algumas meninas usam a Melissa Ballet (ou versões similares de outras marcas): amarrada por cima de meias 3/4 ou de calças jeans.
Disseram que era falta de "bom senso"...
"Bom senso" é algo socialmente construído. O que é bom senso na Moda hoje, não era há dois séculos atrás. E sem a quebra do bom senso, a moda alternativa não existiria.


O Brasil é famoso por ser um país conservador em termos de moda e de mulheres inseguras quanto à sua aparência. Mulheres que preferem vestir as tendências do que "ousar" criar um estilo próprio e talvez, diferente do habitual, tanto que o uso desse calçado de forma mais tradicional e "romântica" é muito mais aceito. 

Particularmente, o que impressionou no caso da Melissa Ballet foi a quantidade de pessoas alternativas (ao menos na aparência) criticando de forma bem agressiva, a forma que a mesma é usada pelas meninas.
 

Mas o que seria da  Moda Alternativa se não houvesse a desconstrução do que é correto, belo e ideal??

Não foram subculturas como a punk e a metal (nascidas em classes operárias)  que desconstruíram conceitos do bom senso na moda? O que seria dos nossos acessórios de spikes se um dia os punks não tivessem pego uma coleira de cachorro e colocado no pescoço?


Por muitos séculos a moda foi usada como divisão de classes. Tem sido dito que a sandália é um "item de funkeira e favelada". Nós que estudamos a Moda das Subculturas, já notamos como as subculturas das periferias brasileiras têm desconstruído e reconstruído estéticas do mainstream de forma muito peculiar. São jovens que quebram o uso comum de artigos de moda.  E às vezes essas modas de periferia estão tendo uma expressão estética de forma mais ousada que os auto intitulados alternativos... que estão cada vez mais "mainstreanizados".

Então, questionamos: qual o problema dessas meninas de classe popular usarem a sandália de forma "fora do padrão"? 

Por que não tenho visto alternativos brasileiros desconstruindo conceitos estéticos com a mesma ousadia e ferocidade? 
Por que nós estamos incomodados demais com as pessoas que têm usado a moda de forma irreverente?
Por que os "alternativos" julgam essas garotas se elas estão usando a sandália exatamente de uma forma "alternativa"?

Melissa e Zaxy (marca também da Grendene)

A gente quer ser respeitado pela individualidade e liberdade estética, mas rimos e fazemos piada de quem quebrou as regras do vestir. A gente quer o direito de usar uma plataforma de verniz ao meio dia junto com um corset e quer "proibir" uma sandália amarrada por cima da calça por ser falta de "bom senso"...

Ninguém é obrigado a gostar do estilo dos outros, com certeza! Mas fica difícil reclamar que o Brasil não respeita nosso individualismo estético quando vemos alternativos reproduzindo desrespeito, intolerância e também o preconceito de classe. Cultura de Moda... algo mais do que necessário...


E mais um questionamento: e se esse estilo tivesse vindo de algum artista ou sendo usado no street style japonês,
o julgamento seria diferente? 


E você, tem alguma opinião sobre?
C
onta pra gente! O espaço é livre também pra opiniões opostas às nossas, mas com respeito, ok?!




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11 Comments

  1. Saninha, achei seu post sensacional. Eu realmente pensava em algo assim, porque em algumas épocas da minha vida, entrei naqueles grupos de Melisseiras pra vender as que eu tinha. Atualmente, entrei novamente, por causa do destralhe que fiz. E enfim, o que mais vejo por lá é isso, uma total repugnância com relação à estes modelos mais "ousados". Tem uma sandália Garret Pugh, se não me engano, que eu achei a coisa mais futurista e louca possível e queria comprar por isso (acabei desistindo porque não ia usar com frequência e o preço era alto), mas nestes grupos, quando alguém colocava à venda era a maior "treta". SE-NIO-RRR! E fiquei feliz por ter citado a Vivienne, ela é a inspiração de eu ter seguido a área que segui hoje! Sou hiper fã dessa mulher! ... E os questionamentos que você levantou a respeito dos "alternativos" julgadores só mostra que cada vez mais, algumas pessoas aderem ao "mundo alternativo" pensando naquele esteriótipo estético e não no lado "cabeça" da coisa... Lamentável. Enfim, sensacional seu post!

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    1. Ah Jaque, obrigada sua lymda! <3
      Pôxa que saco que é isso né? Eu acho a Ascencion do Gareth um modelo incrível! Ela é futurista, minimalista, com design, nossa aquela sandália deixa até um look básico um escândalo, mas as pessoas infelizmente não conseguem enxergar além do próprio "quadrado" né? Isso é triste porque a marca tem investido tanto em arte e cultura...
      E a Vivienne... sem palavras, muito legal você, como eu, ter ela como inspiração!! :DD
      Eu fico muito triste de ver alternativos que reproduzem pensamentos dos outros sem terem seus próprios, sem questionarem. A moda alternativa é linda mas ela não é vazia, então quem usa também não pode ter cabeça vazia, porque fica incoerente.

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  2. Gente, q coisa linda esse post!!! Muito amor!!!

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  3. Infelizmente vivemos numa cultura de intervir na vida e no modo de se vestir das outras pessoas. Vivemos numa padrão de moda e comportamento e se alguém ousa quebrar isso essa pessoa é malvista, criticada... O que é lamentável, pois extingue a individualidade do ser. A moda tem de ser algo além do que é considerado bonito pela maioria, mas sim o que nos representa individualmente. Gostei muito do seu artigo!

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  4. Você e seus posts sensacionais... ^^
    Poxa.. eu acho o máximo os sapatos mais extravagantes e conceituais da Melissa... uma pena a aceitação deles aqui ser tão baixa né!?
    Mas voltando ao assunto, você tocou num ponto que eu já tinha pensado há um tempo atrás. Um bom tempo na verdade, pois nem tinha o blog ainda. Vi uma imagem no face (eu acho) de pessoas usando essa Melissa ballet sendo ridicularizadas e achei um absurdo. Primeiro porque eu acho esse modelinho bem bonitinho e teria um fácil. Segundo porque vi pessoas ditas alternativas também fazendo esses julgamentos. E pensei a mesma coisa que você escreveu aí: porque raios pessoas que usam a moda de uma maneira alternativa, estão zuando pessoas que também estão usando algumas peças de forma alternativa ao que o Mainstream julga certo? Só porque essas pessoas fazem parte do mainstream, mas ainda assim ousam arriscar uma coisa diferente? Como você mesma disse, bom senso varia de pessoa pra pessoa. Acham ruim quando são julgados na rua, mas vão lá e fazem o mesmo.. esses alternativos atuais tem me dado muita preguiça... rs
    E sério, eu não vi nada de mais na Melissa sendo usada por cima da calça jeans. Eu provavelmente não usaria, mas em momento algum saí ridicularizando quem usa dessa forma ou achei "errado" como estavam falando por aí.
    Mas enfim, ótimo post, como sempre!
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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  5. É isso aí: respeito a diversidade sempre, inclusive na moda!

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  6. Sou apaixonada pela Westwood, e conheci ela por meio da linha Melissa, em 2005.. Viajei ao Japão ano passado e parecia que era tudo dominado por ela, as estilosas japonesas a endeusam de uma forma absurda, todo mundo usa e abusa de suas criaçoes mais "bizarras"!
    Aqui no Brasil é complicada essa história toda, mas fazer o que né :/
    Adorei o post. Bjo!
    www.inexplicited.blogspot.com

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  7. É engraçado, pois uns dias desses estava pesando que eu tinha tomar uma decisão em minha, tinha que mudar meus conceitos! Afinal era muito hipocrisia da minha parte não querer ser julgado de uma forma preconceituosa e acabar fazendo isso com os outros. Simplesmente achei triste da minha parte.
    Mas depois de ler seu texto, me fez abrir ainda mas minha cabeça, revendo meus conceito desde já.

    É impressionante, você escreve maravilhosamente bem. Parabéns. ( U w U )

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  8. Não sabia que ela era a responsável pelo uso do corset por cima de outra peça :OOOO

    Talvez pelo Brasil ser um país tropical e fruto da cultura do "samba" (a moda do povão mesmo), o público geral não aceita essas mudanças radicais kkkkkkk

    Melissa tem vários modelos lindíssimos, mesmo não sendo puramente moda alternativa é uma ótima opção *_*

    Amo seu blog, tudo é sempre completinho e bem feito <3

    Beijos =*

    www.faroestemanolo.com.br

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  9. Esta polêmica das Melissas também se estende às outras linhas da empresa, como a Zaxy e a Grendha, que adotam os modelos mais populares a preços mais baixos. Não raro, vimos os modelos mais clean a venda depois por estas linhas, onde se popularizam. É pena que a Melissa seja tratada desta maneira pela própria empresa! Devia manter a exclusividade ou vender logo a preço menor!
    E fazer os sapatos mais ousados em tamanhos maiores! Não sei porque eles associam a meninas mais novas, que usam tamanhos menores. Eu nunca acho dos meus tamanhos. E acima de 42 nunca vi. Uma amiga trans queria comprar, mas reclamou que os tamanhos acima de 40 você nunca acha - se é que existem!
    Excelente post!

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  10. Pode se apaixonar por um blog (e uma blogueira) em apenas três posts? Foram três posts que me fizeram abrir o olho já - e olha que eu sou tipo "alternativa", mas nunca busquei pessoas de referência, ou seguir subculturas específicas, tanto é que vivem me perguntando se sou roqueira, punk ou gótica haha sou nenhum gente, eu só vejo coisas bonitas com as quais me identifico e uso, ponto. Igual as meninas que usam a Melissa por cima da calça, que, honestamente, até agora eu chamava de feio mesmo, agora eu só posso responder "é o estilo delas né".
    Obrigada pelo seu trabalho de sanar essas dúvidas e explicar as coisas de uma maneira melhor e mais construtiva [desconstruir para construir, faz sentido, não faz?].

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