.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: Boho Goth: o que a Arte tem a ver com isso?

3 de julho de 2015

Boho Goth: o que a Arte tem a ver com isso?

Deem as boas vindas à mais nova colaboradora do blog, a Helena! :D
Ela é dona do blog Aliena Gratia, que desde que entramos pra blogsfera sempre fomos grandes fãs do conteúdo.
A Helena é formada em Artes Plásticas pela UFJF e tem pós-graduação em Moda, Cultura de Moda e Arte, então ela vai trazer um pouco dessa associação da arte e moda aqui pro blog. Mas não apenas isso, ela tem uma bagagem de conhecimento sobre subculturas, assim como suas próprias visões do tema, o que vai agregar ainda mais conteúdo!
Antes de começar o post de sua autoria, indicamos a leitura de outros no Aliena Gratia e curtir a fanpage do Face.

Boho Goth: o que a Arte tem a ver com isso?


Para começar eu acredito que o Boho Goth nunca foi uma tendência, acho que sempre esteve impregnado de uma maneira ou outra no inconsciente coletivo gótico, podemos perceber uma influência oriental muito grande já no Romantismo, alguns escritores faziam uso disso em seu estilo exótico, pois a orientalidade emanava mistério e aos olhos dos europeus era sombrio e um tanto marginal (estar a margem da cultura dominante). Lembrando que isso emanou também na arte e até mesmo no Brasil, onde figuras orientais e cavaleiros medievais foram substituídos pelos índios, mais próximos do nosso folclore e próximos do Romantismo pela representação da pureza nunca afetada pelo homem moderno que faz parte da sociedade comum e suas obrigações, tanto financeiras quanto filosóficas.

Nesse retrato feito pelo artista Thomas Phillips, Lord Byron aparece com traje tradicional albanês, ele usa um estilo oriental.

(c) Government Art Collection; Supplied by The Public Catalogue Foundation

A minha cena preferida de “A Rainha dos Condenados”, filme tão odiado por todos porque o Lestat de “Entrevista com o Vampiro” era bem mais semelhante ao Lestat dos livros de Anne Rice, tanto psicologicamente quanto fisicamente. Lestat se aproxima interessado de uma cigana que também se sente atraída por ele (e esse acesso ocorre através da música, pelo qual ambos são atraídos). Os exóticos sempre se aproximam e há um fetiche da cultura diferente da européia dentro do Gótico/gótico e do Romantismo. Eu ainda acho que um dos grandes méritos do filme “A Rainha dos Condenados” é trazer uma cantora negra para o papel de Akasha, coisa que parecia impensável em filmes anteriores. Mas a própria Anne Rice não chegou a especificar qual seria a etnia de Akasha.




É impossível não lembrar das dançarinas de tribal fusion, a minha favorita é Zoe Jakes pela ousadia em misturar ritmos que nada tem a ver com belly dance e movimentos que misturam os clássicos orientais, indianos e até hip-hop e jazz. Pode parecer estranho, mas isso tudo dá certo. Eu sou encantada com tribal fusion, justamente por permitir essa liberdade em belly dance. Os figurinos de Zoe também são um show à parte, eu vejo muita orientalidade e uma influência folk muito nítida.

Nessa apresentação, Zoe incorpora todo o conceito dos anos de 1920, desde à art nouveau no estilo de Mucha, cabaret até o jazz.




Já aqui, Jakes em uma performance solo tem influências de dança indiana e em certo momento faz a mesma careta da deusa Kali, a deusa da destruição e da morte (mas também da transformação, já que para criar tem que haver a destruição posterior das estruturas firmadas), a força feminina símbolo da vida e fertilidade.

Kali

Zoe Jakes



É impossível não lembrar também de uma banda alemã que aprecio muito, chamada Faun. Eu estou de olho na banda há vários anos desde que passei por uma fase de viking metal/folk metal em 2008. E até hoje adoro isso, porque adoro mitologia grega/romana, eslava, finlandesa, egípcia, celta, nórdica, medievalismo… Eu não posso dizer que é uma fase porque sempre estou em busca de algum livro ou filme sobre, não sei até que ponto isso afeta meu estilo na hora de me vestir (as pessoas devem olhar e não entender nada, mas para mim meu estilo é coerente). Enfim, olhem essa pintura que eu amo, do Goya, “O Sabá das Bruxas”, da série de pinturas negras que ele fez para criticar a Santa Inquisição:


Nesse quadro é representada uma reunião de bruxas no qual o ser chifrudo parecido com o bode representa o mal, elas oferecem crianças em sacrifício à ele. Obviamente a lua é representada também na composição, pois todo ciclo de colheita, calendários e comemorações eram guiados pela sua posição. É obviamente uma alegoria, com chifres ornados com ramos, nos faz perceber a influência folk notável em pintores de períodos anteriores, ao representar as ninfas e sátiros por exemplo. 
O bode é sempre representado como mal (Satanás), isso antecede Baphomet, divindade pagã popularizada no século XIV. O bode sempre foi um símbolo de fertilidade, os sátiros/faunos que eram metade bode e metade humano dentro da mitologia eram tidos como seres incontroláveis sexualmente que se refugiavam com as ninfas para manter relações sexuais na floresta. Mas também gostavam de vinho e da música.  Eles representavam um arquétipo do descontrole pela busca do prazer, os excessos sexuais, pela bebida e pela música. 
No hedonismo como termo grego, o prazer era o supremo bem da vida humana. Posteriormente no Iluminismo, passou a significar o prazer egoísta, imediatista, a busca de prazeres momentâneos. O Cristianismo condena os excessos de prazer assim como as crenças pagãs dos diversos povos, portanto a figura do bode foi perseguida como pagã e demonizada na forma de Satanás, assim como os comportamentos fundamentados nos excessos, seja com a bebida ou com o sexo. Ambos, ninfas e sátiros estão ligados com as festas da colheita e à fertilidade.

Devemos nos lembrar que o teatro grego nasceu do culto à Dionísio, nos festivais de caráter dramático (alegre ou sombrio) de ditirambo, em que as pessoas se vestiam como sátiros e acompanhavam o canto coral com flautas, liras e tambores. Alguns dizem que as peles de sátiros também incorporavam um falo.

A obra de Peter Paul Rubens, “Dois Sátiros” – 1618-19: 
A uva é matéria para o vinho

O Pã ou Lupercius é o deus dos bosques, dos rebanhos e dos pastores, é representado com pernas e chifres de bode. Amante da música traz com ele uma flauta, frequentemente visto na companhia das ninfas. Pã era uma entidade maior que os sátiros. Mas todos estão ligados com o conceito da natureza, a lua chamada de Selene foi o grande amor de Pã.

Representação de Pan e Representação de Selene

Representações dos dois juntos

As ninfas, deusas espíritos da natureza geralmente são representadas com coroas de flores ou ramos na cabeça.

Um detalhe da pintura de Botticelli, a primavera com representação de uma das ninfas

Eu gosto muito desse vídeo da banda alemã Faun, há um ritual que nos faz lembrar as festas da primavera ou vinho em honra à Dionísio. Várias ninfas dançantes e o encontro entre Pã (vestido em sua pele de cordeiro para não assustar a amada com sua aparência grotesca) e Selene (a deusa da Lua).



Atentos à toda História, Arte e mitologia por trás do Boho Goth, fica bem mais interessante usar alguns símbolos como a lua, as fases da lua, os chifres, os colares (adornos)…quem sempre gostou fique atento para essa influência cultural acerca do estilo.


Acessórios tribais com diversas influências culturais, as fases da lua onipresentes em camisetas, saias e acessórios, earcuffs com influência celta e medieval, os adornos com chifres/cornos, adornos indianos na cabeça e mãos, mãos pintadas com henna e unhas pretas,  a coroa com flores ou ramos… As diversas influências do Boho Goth perpassam os anos de 1970 e o gótico em suas temáticas medievais, exóticas, tribais e mitológicas.


Eu gosto tanto desses temas que tenho três painéis no Pinterest para quem acompanha: Viking force, celtic dreams and medieval things, Boho Goth, Zoe Jakes and tribal fusion.
Algumas aquisições minhas no estilo boho goth: pulseiras, anel e colares, além de lenços (não está tudo aqui, apenas o que eu mais gosto). Ao fundo o Yggdrasil que ganhei de presente e ainda não pintei. E leituras sobre o tema, livro sobre a História das Bruxas e Inquisição e livro sobre mitologia mundial na página da mitologia eslava e a Baba Yaga.


* Na moda alternativa atual, o "boho" tem referências que absorvem de ciganos, hippies e à moda pré-rafaelita do século XIX. Bordados, saias longas fluídas, coletes de pelo, cintos largos com fivelas, botas, casacos soltos de malha, adornos de correntes e de flores na cabeça e referência medieval são elementos comuns na estética. 

 
 

Um estilo não precisa nascer dentro de uma cena, mas pode ser incorporado quando há o interesse por seus elementos visuais e estéticos dos adeptos da subcultura. Numa análise profunda, percebe-se o quanto a moda das subculturas são complexas, poderíamos passar horas destrinchando cada uma de suas referências. Espero que tenham gostado da estreia da Helena no blog, esse é só o início! 


P.S: Todos os posts de autoria da Helena, ou feitos em parceria dela com a gente, estarão na tag com o nome dela, assim como existe a tag da Lauren.
* Trecho adicionado por Sana e seleção de imagens de roupas, por Lauren.


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6 Comments

  1. Já vi que vou aguardar ansiosamente por mais conteúdos da Helena, duas paixões juntas como a Arte e Moda *-*

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    1. Arte e Moda é puro amor ♥
      Os conteúdos da Helena sempre são ótimos, entendemos sua ansiedade hehe!
      Bjss

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  2. Lindo esse post ♥
    concordo que essa pegada boho sempre esteve presente,talvez em doses menores que foram aumentando com o tempo r agora ele se tornou mais popular,nem sei se esse termo boho goth já existia,mas ele define bem esses detalhes incorporados ao goth.
    Eu acho tudo lindo,mas gosto mais do lado celta e a mistura com o goth,é simplesmente perfeita pra mim. ♥
    Arrasou!

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  3. Não conhecia a Helena, mas ela já ganhou meu coração com esse post! <3
    Eu adoro mitologia celta, vampirismo, cigano, cultura nordica, wicca, bruxaria , ocultismo e natureza, e eu adoro misturar tudo isso no meus estilo, sempre tem alguma referência incorporado ao estilo gótico.. Até a minha filha eu nomeei de Luna.

    Eu achei esse post lindo!

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  4. Eu já tinha lido este post no blog dela. A Helena tem textos maravilhosos! Fico contente que ela venha contribuir para o MdS!

    Como eu já disse lá no A.G. eu incorporo muito das mitologias em minhas vestimentas e estilo de vida (sou wiccana) e acredito que muito da subcultura gótica é diretamente influenciada por essa fusão de culturas tribais. É lindo demais!

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  5. Seja bem vinda Helena!
    Amei esse texto.
    Como a Giovana (do This is My World) disse, são influências que sempre pareceram estar no estilo e que foram aumentando com o tempo.
    Eu sempre achei lindo essas influências tribais em qualquer estilo, principalmente no gótico, mas foi quando passei a fazer Tribal Fusion que passei a incorporar mais fortemente os elementos ao meu estilo, que não pode ser muito bem definido.
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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