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31 de dezembro de 2017

A História de Bettie Page: A Rainha das Pin-ups

Ícone para várias subculturas, a modelo Bettie Page teve uma carreira curta, de apenas sete anos. Neste período se tornou a mais importante modelo pin-up da década de 1950 posando em fotos sensuais e de fetiche. Até hoje é difícil separar quem ela era da personagem que interpretava nas fotos. Sua vida pessoal foi cheia de tragédias, chegando a ser presa por esfaquear uma mulher. Fique agora com nosso artigo - e também uma homenagem - a uma das  pioneiras da revolução sexual feminina.

Em sete anos de carreira o visual de Bettie Page nunca mudou, 
isso deixou sua imagem atemporal.
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Bettie Mae Page nasceu em 22 de abril de 1923 em Nashville, Tennessee (EUA) em uma família de baixa renda que se alimentava somente de feijão, macarrão e batatas fritas. O pai abusava sexualmente das irmãs de Bettie, ela, se negando a ceder, o deixava acariciar suas pernas em troca de 10 cents. A mãe, analfabeta, fugiu com os filhos mandando as garotas para um orfanato. Lá, Bettie e sua irmã eram maltratadas, passavam o tempo sonhando com Hollywood e imitando as poses das atrizes. Logo Bettie se casaria com o namorado Billy Neale e em 1944 começa a fazer testes para o cinema. O casamento duraria pouco, após retornar da segunda guerra, com ciúme, Neale a ameaça com uma faca; ela decide se divorciar.


A jovem Bettie Page.
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Bettie era apaixonada por dança e ia aos bailes sozinha, este hábito permanece até mesmo quando se muda para Nova Iorque em 1947, onde passa a trabalhar como secretária e conhece o homem que ela chama de "amor de sua vida",  o peruano Carlos Garcia Arrese, exímio dançarino que a ensinou mambo, tcha tcha tcha e até samba! O romance acaba quando Page descobre que ele já era casado. A partir daí ela decide correr atrás de ser modelo, mas não era magra o suficiente para a agência Ford Models. Ao passear por Coney Island em outubro de 1950, é abordada pelo policial e fotógrafo amador Jerry Tibbs que a convida para modelar como pin-up. É ele quem sugere que ela corte uma franja pois sua testa seria "muito grande". E assim, aos 27 anos começa a carreira de modelo de Bettie. Para conseguir trabalho, ela alterava sua idade para 22 anos.


Num de seus primeiros trabalhos como modelo.
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A franja curta historicamente sempre existiu, sendo inclusive moda na década de 1950 para adolescentes. Foi com Bettie que o penteado ganhou um status mais significativo culturalmente por ser uma franja "cheia" e curvada em direção à testa.
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Na década de 1950, existiam os Clubes de Fotografia, onde fotógrafos amadores e profissionais poderiam treinar técnicas em modelos que se ofereciam gratuitamente ou por um valor irrisório para posar. No Clube que Bettie posava, haviam 40 fotógrafos, além de outras quatro modelos.


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Mas Bettie se destaca pelo carisma e possuía pose, traje e expressão, fatores que definem ser uma pin-up. O que a tornou um destaque entre todas as outras modelos era a combinação de safadeza e boa moça. Bettie sempre sorri em todas as fotos e vídeos enquanto seu corpo sensualiza ou rebola incansavelmente.


Bettie sempre estava sorrindo, ela se tornou a rainha das Pin-ups.
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Embora no Brasil cabelos escuros sejam um padrão de beleza admirado pela cultura de massa, na América da década de 1950 era algo exótico.
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Inteligente, não fumava nem bebia e fazia suas próprias roupas de fotografia. Todas as lingeries e biquínis era ela mesma quem desenhava, adorava costurar! É por isso que vemos somente Bettie usando determinadas peças e não vemos outras mulheres da época, já que seus figurinos dizem respeito a si mesma e não à moda do período.

Bettie vestindo biquinis feitos por ela:
uma das primeiras mulheres a usar a peça.
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À direita Bettie num maiô, traje de praia padrão habitual para as mulheres da década de 1950; à direita, numa de suas lingeries. 

Sendo uma das poucas a usar biquíni, a marca Charmands a chama para tirar fotos com seus biquínis, mas a empresa copiou todas as suas peças e as vendeu em um catálogo. Page nunca recebeu um centavo pelo roubo de suas criações.

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Sua fama como pin-up a fez modelar para as principais revistas sensuais e de fetiche da época: Beauty Parade, Wink, Titter, Flirt e até fotonovelas de Robert Harrisson. Fez fotos com outras pin-ups e dançarinas burlescas da época, como Tempest Storm.

Bettie com Tempest Storm no filme Teaserama

No entanto, era década de 1950, e a moralidade imperava. A sociedade da época vivia um medo da pornografia e da delinquência. Sexo era tabu, nudez era algo obsceno.Todas as revistas de nudez e fetichismo circulavam em segredo. Bettie percebeu a oportunidade de ganhar mais dinheiro quando passou a posar nua por até 20 minutos em sessões de fotos. Numa das vezes chegou a ser denunciada, indo parar na delegacia acusada de obscenidade e desordem. 


As medidas corporais de Bettie eram: 91 cm de busto, 60 de cintura e 94 de quadril. Ia a academia 3x por semana.
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Em janeiro de 1955 esteve nas páginas da revista Playboy em uma de suas mais conhecidas fotos: ao lado de uma árvore de natal. O acontecimento levou Bettie aos olhos de um público maior e Hugh Hefner a intitulou a "The Miss Pin-Up Girl of the World". 


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Foi através do editor Robert Harrisson que ela conheceu o fotógrafo Irving Klaw e se tornaria sua modelo mais famosa. Klaw tirou pelo menos 1500 fotos de Page e as vendia para soldados. Criava também filmes 16 mm sob temática fetichista onde Bettie ganhava cerca de $150 por filme. A irmã de Klaw, Paula, se torna amiga e admiradora de Bettie e dá à modelo um par de calçados altíssimos para ser usado exclusivamente por ela nas sessões de fotos. Através da dupla, Bettie se torna a rainha do Bondage, suas fotos e vídeos eram enviadas pelo correio aos interessados.


Com Irving e Paula Klaw.

Segundo Bettie, todas as fotos bondage que fez eram atuação, seguia as instruções de Irving e Paula para interpretar uma personagem. Nas fotos abaixo ela usa o sapato de saltos altíssimos que Paula dava à ela nas sessões fotográficas. As fotos S&M eram as mais vendidas de Klaw.



Em 1955, o FBI bate à porta e Klaw vai a julgamento por pornografia onde é sentenciado a destruir todas as suas fotografias, mas sua irmã esconde os negativos com as fotos de Bettie, ela já sabia que aquelas fotos seriam históricas. Assim salvou-se as fotos de não serem destruídas, no entanto, o acontecimento destrói a carreira de Klaw que opta por não mais trabalhar no segmento.

Uma pin-up foi muito importante na carreira de Bettie, a também fotógrafa Bunny Yeager, que fez fotos de Page em 1954 quando a modelo estava com 32 anos (e dizia ter 24). É dela boa parte dos ensaios externos mais famosos da carreira da modelo: em praias, parques e com animais. Yeager foi autora da foto com temática natalina que foi parar na Playboy de janeiro de 1955.

Com Bunny as fotos de fetichismo visando o público masculino ficam em segundo plano. Yeager faz as fotos de Bettie ganharem um ar mais sofisticado, exótico e numa variedade de temas.

Bettie Page com Bunny Yeager na famosa sessão de fotos.

A variedade e o exotismo entram em cena.
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Yeager faz fotos sofisticadas de Bettie.


O começo do fim
Sem Irving Klaw, Bettie continua a trabalhar com os clubes de fotografia. Numa ocasião é embebedada e durante uma sessão de fotos nuas, é fotografada de pernas abertas. As fotos são vendidas. Arrasada, Bettie decide sair de Nova Iorque. Aos 34 anos passa a se achar velha para ser modelo. Desaparece e deixa tudo para trás.

O desaparecimento
Bettie optou por se esconder, não queria ser encontrada. A modelo sempre foi religiosa, mas não via a nudez como pecado. Em 1958 chora em frente à uma igreja acreditando que Deus a estava castigando, se compromete com a religião recebendo Jesus como seu salvador. Joga fora todas as suas meias, lingeries, biquínis e vai para a Faculdade Bíblica com o intuito de se tornar missionária. Em 1966 viaja para Miami e conhece Harry Lear, com quem viria se casar em 1967, é nesta época que o fanatismo religioso toma seu auge, já que passa a alegar ouvir vozes o tempo todo. Enlouquece ameaçando Lear e os filhos dele com uma faca caso parassem de olhar a imagem de Jesus pendurada na parede. Lear consegue escapar, chama a polícia e Bettie é internada na ala psiquiátrica do hospital Jackson Memorial onde fez tratamento de choque. Ao sair da instituição em 1978, num surto psicótico dá de 20 a 30 facadas na proprietária do apartamento que alugava. Alega insanidade, recebe pena de 10 anos na cadeia Estadual além de ter que ir três vezes por semana ao psiquiatra sob o diagnóstico de esquizofrênica paranoide.

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Foto do fichamento de Bettie Page em 1972.

Após esse período, Page retorna à Los Angeles e passa a viver na pobreza com ajuda do seguro social do governo, pois nunca recebeu dinheiro pelos direitos de suas fotos.

Enquanto o mundo vivia a revolução sexual da década de 1960 com Hippies, minissaia, moda unissex, pílula anticoncepcional, Bettie Page, pioneira da liberdade sexual feminina estava escondida. É aí que começam os primeiros indícios que ela se tornaria um ícone cult. Como ninguém sabia de seu paradeiro, começou-se a espalhar a ideia de que a ex-modelo havia se suicidado.

Na década de 1970, a década da nudez, a pornografia deixa de ser crime, as leis são revisitadas, a década de 1950 passa a ser romantizada, filmes como "Grease" são lançados, surge uma nova onda Rockabilly e a geração jovem da época redescobre Bettie. A imagem de Page começa a surgir em diversos produtos de consumo.

Bettie era chamada de Dark Angel pelos fãs que julgavam ela ter se suicidado.
Na década de 1960 se tornou símbolo da liberdade sexual feminina.


Na década de 1980, a imagem de Page domina a cultura pop, ela influencia fortemente as garotas de diversas subculturas que redescobrem suas fotos e passam a imitar seu visual. Aumenta a presença de sua imagem em souvenirs e objetos de consumo.  


Olivia de Berardinis pinta quadros de Bettie para meninas que admiravam a modelo.


Após 30 anos sem ter sua imagem impressa, Dave Stevens publica a The Rocketeer Magazine. 

Nos anos 1980 e 90 a imagem de Bettie Page abre caminho para fotógrafos e estilistas de Moda influenciando nomes como Jean Paul Gaultier, Thierry Mugler e artistas como Madonna, inspirada por Page no clipe da música "Human Nature".

Tudo começa a mudar em 1992 quando Steve Brewster cria um fã clube dela, o Bettie Scouts Club e decide por si mesmo encontrar Bettie viva ou morta. Passa a viajar pela América procurando-a e coloca anúncios em diversas publicações até descobrir o seu irmão, que faz a intermediação de uma carta que Brewster escreve para ela em abril de 1992. A resposta vem em dezembro do mesmo ano. Bettie estava viva!


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Finalmente encontrada, estava lisonjeada por ter um fã clube, mas prefere se manter fora dos holofotes. Dave Stevens é quem passa a ajudá-la neste momento, quando leva-a a uma loja onde haviam diversos produtos sobre ela. Espantada, se impressiona pelas pessoas admirarem seus trabalhos tanto tempo depois. Stevens a coloca em contato com Hugh Refner que faz uma festa privada em sua homenagem na mansão Playboy, o que rendeu uma das raras fotos da ex-modelo já idosa.


Bettie Page, à direita, em festa em sua homenagem na mansão Playboy.

Com Anna Nicole Smith e Pamela Anderson na festa de 50 anos da Playboy em 2003.

Hugh Hefner, que fez seus milhões em cima da objetificação do corpo feminino*, oferece a ela um agente para cuidar dos direitos autorais**, para que a partir de então Page receba dinheiro do uso de sua imagem. A partir daí, cada produto com a imagem de Page precisa ser autorizado por ela mesma. Em 1996, é lançada sua única biografia autorizada. Finalmente a ex-modelo passa a ganhar dinheiro devidamente.

Desde que foi encontrada Bettie se negou a ser fotografada e filmada, ela morava na periferia de Los Angeles. Nas palavras dela: "preferia estar escondida."
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Bettie falece em 11 de dezembro de 2008 aos 85 anos após um ataque cardíaco que havia a deixado em coma. Um fato curioso é ela ter falecido no mesmo ano em que Maila Nurmi e no mesmo dia do aniversário da intérprete de Vampira. Fica aquela questão: elas foram contemporâneas, será que conheceram o trabalho uma da outra? A curiosa ligação de vida e morte não é só o que as une já que ambas tiveram um vida difícil e foram resgatadas por subculturas.


Na cultura pop: Madonna, Beyonce, Christina Aguilera e Katy Perry foram algumas das que se inspiraram no visual da pin-up.


Dita von Teese revelou: Eu a admiro e a estudei muito de perto. Quando comecei em 1990 queria ser sósia de Bettie Page. Queria ser uma fetish star famosa como ela. Não era o cabelo preto e a franja que a faziam memorável, pra mim era o senso de humor brincalhão, era o jeito aventureiro.



Bernie Dexter é uma pioneira modelo pin-up da contemporaneidade. Se tornou conhecida na década de 2000 por sua semelhança com Page.
À direita, caminha ao lado de Tempest Storm no funeral de Bettie.




Bettie é amada e serve de inspiração para muitas de nós brasileiras, especialmente no estilo de cabelo e também por ser a primeira referência visual para ensaios fetichistas.  

Rosana (Bettie From Hell) tem fisionomia que lembra a Bettie Page, Sarah Amethyst e Larissa (Murder Queen) em ensaios fetichistas.


Desde os anos 1990 até hoje, Bettie Page cresceu sua influência na cultura pop, com inúmeros exemplos de artistas e modelos se inspirando em sua imagem. Sem contar sua importância em diversas subculturas como a gótica, punk, rockabilly e pin-up. Sua figura ganhou novo fôlego na última década com a popularização da internet. Mas a relação de Bettie e as subculturas é um assunto tão vasto que prefiro abordar em detalhes num futuro post. A imagem de mulher livre em plena década de 1950, revolucionária a seu modo, se tornou e permanece icônica para várias gerações.


"Quero que as pessoas se lembrem de mim como eu era nas fotos".
Com certeza é assim que Bettie Page repousa em nossa memória. 


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Texto escrito por Sana Skull, proibida a utilização de trechos sem autorização prévia da autora, cite o link em caso de referência.

*Há controvérsias se Hugh Hefner a ajudou ou a explorou.
** Direitos de Imagem


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