.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: Fevereiro 2017

25 de fevereiro de 2017

Punk e Fetichismo: Conheça a história da estilista Pam Hogg

Gosta de usar estética fetichista sem ser fetichista de verdade? Agradeça à Pam Hogg por ter aberto esse espaço ao mundo da moda. A estilista começou a carreira ao fazer para si mesma peças extravagantes para ser aceita nas festas dos clubes londrinos do final dos anos 1970, onde várias subculturas circulavam. Sempre ligada a música, arte e moda, hoje possui status "cult" tamanha a importância de seu trabalho.



Pam Hogg: rockstar e estilista rebelde
Nascida na Escócia, tudo começou quando Hogg ganhou uma bolsa de estudos numa renomada instituição de ensino em Londres para dar continuidade ao aprendizado em Belas Artes. Suas criações seriam influenciadas pelos movimentos punk e clubber que tomaram a capital inglesa em meados da década de 1970. Autodidata, começou a vender suas peças para amigos fazendo toda a produção sozinha.

"Eu não tinha intenção de ser designer de moda. Eu estava fazendo minhas próprias roupas desde tenra idade, então foi apenas algo que veio naturalmente para mim."


No início de 1980, Hogg lançou sua primeira coleção, que logo permitiu a criação de sua primeira butique com apoio de amigos próximos, e assim começou a produzir pequenas coleções vendendo-as para Harrolds, Bloomingdales e lojas independentes de Paris à Tóquio. Devido à seu posicionamento e método de trabalho independente, manteve-se afastada da indústria da moda mainstream e vem mantendo esse mesmo foco até os dias de hoje. A confecção das roupas é toda artesanal, sem seguir modismos, com reaproveitamento de tecidos e recebendo ajuda na costura de até três estudantes quando próximo à data da apresentação nas passarelas, sendo uma das poucas estilistas do mundo que produz ela mesma todas as roupas. Seu primeiro desfile solo só ocorre em 1985, "And God Created Woman", onde ganhou atenção da imprensa.

"Eu trabalho com minhas próprias regras. Não tento ser diferente, eu sou diferente, é apenas como eu sou. É muito difícil de explicar. Venho de uma base de arte e nunca estudei moda, então não tenho o lance de sentir que tenho que fazer isso ou aquilo. Não há "tem que". Sou mais livre porque só penso no que quero criar. Eu apenas mergulho em mim e obtenho a minha inspiração a partir daí."

O estilo punk/fetichista é parte ainda hoje da estética da designer.

Observe no vídeo da coleção Primavera/Verão de 1990: elementos punks como tela, tiras, amarrações e o uso de vinil/PVC e látex. São roupas que estão presentes na estética de subculturas como gótica e heavy metal. Ao desfilar, as modelos não seguem o comportamento padrão. A trilha sonora é "Buffalo Stance" de Neneh Cherry que foi baseada na música "Buffalo Gals" de Malcolm McLaren e segundo a cantora é sobre poder, força e atitudes feminina.



Hogg teve a sorte de ter começado nos anos 1980 pois havia mais liberdade na moda. Durante aquela década, a identidade de sua marca começou a ser formada, produzindo peças clubwear com referência punk, usando materiais como PVC/vinil, borracha, jersey com stretch, couro e lurex. A estilista desenvolveu seu próprio nicho consumidor e manteve sua loja no bairro Soho de 1987 a 1992. O destaque foi tanto que em 1989 sua coleção "Warrior Queen" ganhou a capa da I-D Magazine.

A coleção Warrior Queen trazia inspiração em armaduras do século 15 e spikes da cena punk. Lembrando a estética da subcultura Heavy Metal.

Em 2004, com patrocínio de amigos, retorna para criação de roupas sendo uma das primeiras estilistas a fazer um fashion film, "Accelerator", com Anita Pallenberg, Bobby Gillespie e Patti Palladin. Seus desfiles se tornam acontecimentos dos quais sempre são esperados peças extravagantes, com muitas transparências e provocações por parte dos modelos, onde vemos muito conceito e referências estéticas que vão desde sua essência punk rock, glam rock e fetichista. Sempre abusando de elementos como vinil, látex, plástico, transparência, lycra®, couro, tachas, spikes e muitas cores como dourado, prata e glitter. Fica claro o amor pelos macacões, peça que se tornou marca registrada em suas coleções.
 
Os macacões justos de Pam Hogg são sua marca registrada e exibem precisão de corte.  
Coleção The Emperor´s New Clothes A/W 2013

Autumn Winter 2012
Observem a releitura dos bonnets (bonés) do século 19.

 Autumn Winter 2011

Spring/Summer 2012 (primeira imagem) - Spring/Summer 2003 (o resto)

Em sua coleção de 2014 intitulada "Courage", Hogg fez um desfile de protesto, liberdade e aceitação, em apoio a liberação das integrantes da banda de punk rock feminista Pussy Riot, que foram condenadas em 2012 por seus protestos em favor do estatuto das mulheres e contra a campanha do candidato à presidência da Rússia, Vladimir Putin. Hogg também levantou a bandeira contra a forte onda de homofobia presente na Rússia. Na passarela colocou modelos homossexuais, andróginos e alternativos. O convite partiu da Anistia Internacional, tendo apenas três semanas de preparação e as roupas apresentadas não eram vendáveis. Sem dúvida esse pode ser considerado um de seus melhores desfiles.


Como observamos acima, Hogg adora cores, sobre isso, ela diz:
"Para mim, a cor brilhante é uma celebração da comunidade gay e eu queria prestar meus respeitos e agradecer-lhes pela riqueza que deram a nossa cultura."

Seus maravilhosos macacões de modelagem e corte perfeitos no desfile A/W 2016

Um dos desfiles que amamos: 
borracha, vinil e spikes. S/S 2016

 Admirando frente e costas.

Alice Dellal e Sadie Pinn.

 Peças estilo "glam rock" cheias de studs!

 A anglo-brasileira Alice Dellal no backstage! 
Jaqueta com os dizeres "divine delinquent".

 “Army of Lovers”, seu desfile mais recente (A/W2017) teve inspiração retrô militar e contou com as recorrentes inspirações punk, glam rock em materiais como couro e PVC.


A Rockstar
No fim da década de 1970, Pam Hogg montou sua primeira banda de rock, "Rubbish", aproveitando as amizades na cena pós-punk daquela época. Em 1993, Hogg deu uma pausa em sua carreira de designer para dedicar-se mais a música, e formou a banda "Doll", cinco dias depois estava abrindo para o Blondie e para as punks do The Raincoats. Apesar dos shows e gravações de demos, o grupo não durou muito. Em 2003, forma sua terceira banda "Hoggdoll", onde é a letrista e vocalista e o som fica por conta do músico Jason Buckle. Som esse que é uma mistura de rockabilly e instrumental, influenciado pelos The Cramps. A banda continua em atividade com músicas disponíveis para audição no soundcloud.

Pam Hogg como cantora.

Os elementos fetichistas, punks, o brilho tão característico de sua moda pode ser visto no clipe da banda Hoggdoll, "Opel Eyes", com peças de sua coleção a/w 2005/06.



Aliás, sua relação com a música é intensa. Nas décadas de 1970 e 80 fez muitas amizades na cena pós-punk, como as rainhas do rock Siouxsie Sioux e Debbie Harry, para as quais começou a fazer roupas exclusivas e que mantém uma longa amizade até hoje. Desenhou o figurino de Siouxsie Sioux em suas turnês de 2004 e 2008 e a cantora já desfilou para ela diversas vezes. 

Com a BFF Siouxsie Sioux em vários momentos. Na foto abaixo, à direita, Siouxsie veste um corset-dress branco e é acompanhada de Brian Molko no desfile que foi o retorno de Pam às passarelas no ano 2000. A cantora também esteve presente quando a estilista foi condecorada no Scottish Fashion Awards de 2009.

Hogg e sua grande amiga Debbie Harry em Londres, em 2014; com Courtney Love.  
As cantoras Kylie Minogue e Jessie J. vestem seus macacões.

Lady Gaga usado peças da estilista.

Suas raízes punks: Ari Up, Nina Hagen e Pam Hogg.

Acompanhada de Boy George, seu amigo dos tempos oitentistas.


Aliás, notamos uma semelhança entre Pam e Shirley, o que acham? 

Apesar da origem underground, Pam possui proximidade com a realeza, tendo como modelo Lady Mary Chartaris, da qual criou até o vestido de casamento.

Um de seus mais recentes fashion films é "To Kingdom Come"
Para Hogg não há separação entre moda, música e arte.

 

E pra finalizar, não esquecemos das fotos com outra grande estilista que começou
sua carreira com a moda das subculturas: Vivienne Westwood.

Atualmente Hogg continua cantando e até se arriscando no cinema e expondo suas peças em museus, e claro, desfilando coleções na Semana de Moda de Londres e mantendo a loja online. Pam Hogg sempre será reconhecida por seus projetos inovadores e audaciosos. Um de seus trabalhos mais recentes foi a criação do design das estatuetas para Brit Awards no início de 2016. Também celebrou mais uma conquista que foi seu Doutoramento Honoris Causa dado a ela pela Universidade de Glasgow, em julho de 2016 em Londres. Título esse de prestigio e honra por todo o seu trabalho nas artes.

Pam Hogg e as estatuetas que criou para o Brit Awards 2016. 

Causando com amiga Sadie Pinn na premiação.

Pam Hogg é um exemplo de espírito jovem que não sucumbiu
às burocracias do mercado da moda. Ela diz:
"Tudo o que estou fazendo é ser eu mesma. Eu não tenho nenhum desejo de ser, se vestir ou agir como alguém que não seja eu mesma. Todos nós temos um dom e essa é nossa individualidade, mas parece que todos querem ser outra pessoa. Ao longo do tempo, queremos nos vestir como nossos ídolos, e isso pode unir as pessoas através da identificação, mas esta situação perde o pensamento de si mesmo. Você pode criar um olhar individual com os elementos que você sente atraído, sem comprar uma cópia direta e ainda manter a sua própria identidade."


Artigo colaborativo de autoria de: Fernanda Damasceno, Lauren Sheffel e e Sana Skull.
Fernanda "Fiona" (também atende por Fernanda Damasceno) é estudante de Design de Moda com um grande interesse na área de pesquisa em subculturas e artes. Não passa um dia sequer sem ouvir música, e assim como os felinos, não consegue viver sem garras afiadas e boemia. E-mail: fernanda.cavalcanti@hotmail.com / Instagram

Pedimos que leiam e fiquem cientes dos direitos autorais abaixo:
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18 de fevereiro de 2017

Em Curitiba: Psycho Carnival e Zombie Walk + Tutorial da Fantasia "Enfermeira Zumbi"

O carnaval de Curitiba tem uma extensa e única programação que atrai visitantes de todo o mundo há mais de 15 anos. O evento promete diversão de uma maneira diferente, alternativa, um carnaval fora do comum que conta com o Psycho Carnival, Curitiba Rock Carnival e a Zombie Walk. Como esses eventos são localizados no centro da cidade, quem se organizar bem terá uma vantagem: poderá comparecer em todos no mesmo dia. Abaixo, veremos mais detalhadamente o que dois desses eventos oferecem para este ano. 

O Psycho Carnival, maior evento de música psychobilly da América do Sul, acontecerá de 24 a 27 de fevereiro no Jokers Pub. Com a tradição de contar com bandas de diversas partes do mundo, este ano terá Tall Texans (Reino Unido) e Phantom Rockers (USA) e trará uma das maiores bandas do estilo, The Meteors, também conhecidos como precursores do gênero.

O festival conta com uma média de 6 bandas por noite e na página do Facebook é possível encontrar detalhes de todas as atrações. A venda dos ingressos pode ser individual ou pacotes dos dias escolhidos, mas não deixe para comprar de última hora porque são limitados! O cartaz oficial do evento já está disponível.



As meninas da As Diabatz estarão no Psycho Carnival deste ano.

Paralela à programação do Psycho Carnival, temos a Zombie Walk, que é resultado de uma parceria com outros produtores da cidade. Esse evento atrai pessoas de todo o país que pretendem fugir do carnaval tradicional. Neste ano, a 10ª edição ocorrerá dia 26 de fevereiro e começará com uma concentração na Boca Maldita ao meio dia, porém a caminhada só começará às 13 horas, indo até o MON. A festa terá muitas pessoas criativas e de todas as idades, desde bebês maquiados e idosos cobertos de sangue a grávidas que improvisam artes incríveis em suas barrigas. 

Copyright Beatriz Braun (Zombie Walk 2016)

Para aqueles que não se produzem para ir ao evento, há a possibilidade de se produzir lá mesmo, pois o festival conta com estandes de maquiagens no local de saída da Zombie Walk, com preços que variam entre dez e trinta reais, sendo a única forma de renda do evento. Além disso, os participantes contam com uma grande atração: a reprodução da dança do Michael Jackson no videoclipe Thriller. O próprio evento monta uma turma e cria um curso para treiná-la e apresentar a coreografia na parada.

Alunos da Disco Dance Company na Zombie Walk de Curitiba

Em minha opinião, a melhor parte da Zombie Walk é elaborar sua própria fantasia e depois admirar a de todos os que estão por lá. Na caminhada, podemos encontrar de tudo, como já citei, colegiais ensanguentadas, noivas, freiras, donas de casa, açougueiros, caçadores de zumbis etc. Se você ainda não tem ideia do que fazer ou precisa de mais inspiração ofereço um tutorial de maquiagem de uma "Weird Nurse", uma espécie de enfermeira-zumbi esquisitona.
 
Beatriz Braun fantasiada de Enfermeira Morta-Viva e de "Zombie Girl"

 Tutorial de maquiagem de enfermeira zumbi




Não deixem de comentar se já foram em algum evento alternativo no Carnaval ou se pretendem ir neste ano!
 
Fantasiada de Chapéuzinho Vermelho [aqui]




Autora: Beatriz Braun, 18 anos, Curitiba. Estudante de Publicidade e Propaganda, modelo, performer, pole dancer. Produz fotografias, vídeos e produções no site Filthy Pop onde também fala sobre seus trabalhos, tutoriais e viagens. ♀ corporate punk rock whore ♀ Instagram // Youtube


Revisão: Valéria O´Fern [biografia aqui]



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17 de fevereiro de 2017

Loja Reversa: Saiba como conseguir desconto em suas compras na loja!

Muitos já perceberam que a loja Reversa vem se destacando por suas coleções de roupas femininas e masculinas com estampas que todo mundo sentia falta! Além dos acessórios, um destaque no ano passado foi a inclusão de calçados no catálogo, desde botinhas até sandálias tratoradas pro verão (ou pro ano todo). 


E sabe o mais legal? Antes de tomar uma decisão sobre a compra dos calçados da marca, contatei a loja e eles me disseram que os calçados são feitos aqui mesmo, no Brasil!! Fiquei super feliz. Pra quem não gosta de comprar em sites chineses baratos devido aos óbvios sistemas análogos à escravidão ou exploração [aqui] e não topa tudo só pra ter "uma peça diferente" (o estilo fica em segundo plano quando se trata de conscientização), existe essa opção de consumir produtos feitos no Brasil e ainda mantém-se os empregos, o dinheiro fica aqui mesmo circulando no nosso país.



E como conseguir desconto na loja?
Basta usar nosso cupom, que é:
MODASUB



ATENÇÃO: Esse cupom vai ter um determinado período de atividade, então se vocês estão de olho em algo da loja, não demorem muito pra usar. Quanto mais peças comprarem, mais aumenta o desconto ;)

Quem acompanha nosso Instagram deve ter visto no stories que eu já compartilhei essa novidade e aos poucos vou postar as peças e looks da marca (hoje mesmo vou postar uma blusa linda, aguardem!)

Aproveito pra dizer que os modelos de blusinha, tanto a do morcego quanto a "morcegato", são de uma malha super fininha e fresca, ótima pra estes dias super quentes! Achei isso maravilhoso porque a gente que usa muito preto sabe que no verão, quanto mais leve e respirável a malha, melhor! Então, essas duas blusinhas são minha recomendação se você quer algo fresquinho.



Fiquem agora com algumas dicas de looks divulgadas no Instagram da marca ♥ 


Estamos sempre trazendo as melhores parcerias e descontos pros nossos leitores! ♥
Obrigada à loja Reversa e a todos os que sempre indicam o blog!



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12 de fevereiro de 2017

Street Style: O fim da revista japonesa FRUiTS


"Não existem mais jovens estilosos para fotografar"
- Shoichi Aoki editor da revista FRUiTS


Fundada em 1997, a revista FRUiTS foi a mais influente publicação sobre Street Style japonês. Com foco no bairro de Harajuku, ajudou a levar fama mundial às subculturas que frequentavam o local, como as Gothic Lolitas, Gyarus, Decoras, Cyberpunks, o kawaii... e refletia um registro histórico confiável de toda uma geração que não seguia regras e nem rótulos ao vestir, comportamento tipico da geração X e dos primeiros millennials. O grande lance da FRUiTS era fotografar pessoas reais e autênticas, não modelos que estavam vendendo moda em páginas de revista.

ultima edição da revista FRUiTS
A última edição da FRUiTS

Shoichi Aoki começou a fotografar quando notou que os jovens japoneses estavam se vestindo de forma diferente ao invés de estarem seguindo tendências americanas e europeias. Estes jovens estavam customizando elementos da vestimenta tradicional japonesa (kimono, obi e sandálias geta) e combinando-os com  peças artesanais, de brechó e de moda alternativa, assim ele lança a publicação mensal FRUiTS, que se torna um fanzine cult com seguidores internacionais. Com o sucesso da publicação, jovens estilosos se direcionavam ao bairro para serem fotografados em referências estéticas que seriam imitadas no mundo todo. 



É impossível falar da moda dos últimos 20 anos sem citar a importância do Street Style. Até meados da década de 1990 quem ditava o que vestir eram as grandes grifes aliadas às modelos (Top Models) e revistas de moda. Quando a fotografia de Street Style aparece, todos os olhos da moda se viram às subculturas e aos jovens que não seguem tendências. A partir disso, os grandes estilistas passam a cooptar a moda de rua que vira um "boom" no mundo inteiro. Aoki relata que observou uma queda de "cool kids" que se encaixariam no padrão da revista e que isso se intensificou nos últimos anos. Mas quais os motivos disso acontecer?


O alternativo foi substituído pela gentrificação
De Gwen Stefani à embaixadora Kyary Pamyu Pamyu, o bairro de Harajuku se tornou um dos mais conhecidos do mundo nas últimas décadas, virando um local turístico saturado. Uma das características do consumidor japonês é a preferência por qualidade e não quantidade, a partir do momento em que ocorre a gentrificação de Harajuku devido ao investimento estrangeiro na região, os preços subiram e jovens designers alternativos não puderam mais manter suas lojas lá. Visando os turistas e seu poder de compra, houve no bairro uma inclusão de redes fast fashion como Uniqlo, H&M e Forever 21 (peças de baixa qualidade para o padrão japonês), assim os turistas preferem o status de comprar nelas (marcas conhecidas) do que nas lojas menores que tinham o espirito autêntico de Harajuku. Jovens também alegam que esse processo de estrangeirismo acabou com os espaços onde eles costumavam sentar e relaxar (e serem vistos e fotografados).


O Futuro do Street Style Japonês
Após 233 edições documentando subculturas e tribos de estilo em Harajuku, o fechamento da FRUiTS é mais um reflexo do que há anos venho falando no blog: o esvaziamento de um conceito quando o capitalismo o abraça. A cooptação estética das subculturas pode parecer democrática, mas lá no fundo destrói as culturas alternativas independentes.
Esse caso também levanta o questionamento sobre o retorno do domínio europeu e americano na estética alternativa. Dos estilos Lolita ao Decora, passando pelas nail arts, a popularização dos cílios postiços e até a bolsa carregada no antebraço, tudo isso passou pelo universo alternativo de Harajuku, e hoje, quando pensamos em moda alternativa nos vem à mente que as maiores influências não são pessoas e sim marcas como Killstar, Dolls Kill e Iron Fist. Ao redor do mundo alternativos estão usando as mesmas marcas e as mesmas roupas que se massificaram, tornando as estéticas menos autênticas e individuais como no passado. Roupas massificadas contribuem para que estilos individuais entrem em decadência. Os jovens fotografados na FRUiTS não seguiam tendências, consumiam peças que tinham a ver com sua personalidade e praticavam DIY. Se analisarmos, mesmo no ocidente está se tornando mais difícil encontrar alternativos com estilos únicos.


Jovens coloridos como as cores das frutas. O fotógrafo Shoichi Aoki  pensa em doar seus arquivos fotográficos a institutos de moda ao redor do mundo.
 

Referências da pesquisa:
Spoon Tamago //  Tokyo Fashion Diaries // NYMag  // UNRTD // ID Vice



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9 de fevereiro de 2017

Tribal Style: a versão alternativa da Dança do Ventre

Tatuagens com motivos florais, piercings, cabelos coloridos, headpieces, bodychains, toda sorte de arranjos com pedrarias, moedas, pingentes, medalhões e flores sintéticas, maquiagem artística bem carregada nos olhos, trajes que levam tecidos pesados, da renda ao veludo, do negro ao translúcido, do opulento ao minimalista... de qualquer modo, é impossível não olhar para uma dançarina de tribal duas vezes e tentar decifrar o que ela tenta nos transmitir através de sua postura imperiosa, da sua dança carregada de uma energia quase palpável. Em movimento, ela transborda sensações e sentimentos; a música, quase sempre instrumental, parece pulsar do seu corpo, em sintonia com a alma.
Rachel Brice
A precursora mundial do estilo tribal de dança do ventre

Profundo, não? Foi assim que me senti ao assistir uma performance de dança tribal pela primeira vez. Foi como prestigiar um monólogo, mas na dança, o verbo é dispensável, sendo a ausência de vozes - tanto na letra da música quanto na boca da artista - carregada de significados. Seus olhos expressivos já nos dizem tudo o que precisamos saber. E nossos olhos, famintos de curiosidade, percorrem a performance com atenção, sentindo aquela estranheza inicial e em seguida despertando nossa emoção. No palco, deixamos de ser quem somos no dia a dia para incorporarmos nossa persona criativa.

Ligada aos nossos valores antigos e sagrados, o estilo tribal traz elementos contemporâneos em sua forma de pensar a dança ao mesmo tempo em que a resgata como uma prática ritualística das nossas raízes antropológicas - nas palavras de Joline Andrade, bailarina e especialista em Estudos Contemporâneos sobre Dança pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), "uma dança que representa a atualização estética da fusão contemporânea entre o moderno e o ancestral"; ou, no dito popular: mais do que uma dança, um estilo de vida!

Joline Andrade (BA) é professora, bailarina, produtora e pesquisadora em dança tribal.

 

Mas afinal, o que é a dança tribal?

É difícil definir a dança tribal assim, em uma frase, sem dar margem à interpretações errôneas. Se a dança do ventre já recebe uma visão um tanto ofuscada pelos brasileiros, que dirá o tribal! Mas tem um artigo da Mariana Quadros (aqui) sobre os mitos do tribal que tenta esclarecer algumas confusões criadas entre os leigos no assunto. Reforço aqui os pontos do nosso interesse: dançar tribal não é fazer carão, colocar uma música dramática e se aventurar em peripécias abdominais utilizando um figurino preto, assim como também não podemos chamar de tribal qualquer fusão com dança do ventre.


Para compreender esta dança é preciso ir a fundo em seu histórico, matrizes e referências. Para este estudo, apresento um recorte adaptado do trabalho Processos de Hibridação na Dança Tribal: Estratégias de Transgressões em Tempo de Globalização Contra Hegemônica de Joline Andrade:
Numa tentativa de acompanhar a liquidez das informações no mundo contemporâneo, a dança tribal é uma linguagem que, tendo como referência a dança do ventre, surge como uma proposta de agregar diferentes manifestações de danças étnicas das mais variadas regiões do mundo, mesclando conceitos e movimentos de estilos como o flamenco, a dança indiana, danças do Hip Hop e até mesmo posições do(a) yoga, para transpô-las numa estética contemporânea atualizada.¹

O grupo The Indigo Belly Dance Company (2003 - 2013) ficou conhecido no mundo todo após sua turnê Le Serpent Rouge (2007 - 2009), que tinha como principal característica a pegada vaudeville. Fundado por Rachel Brice (a do meio), o grupo era composto também por Mardi Love (à esquerda) e Zoe Jakes (à direita). Mardi Love foi a principal responsável pela estética dos figurinos clássicos de Tribal Fusion; Rachel Brice fundou a escola física e online Datura e Zoe Jakes integra a banda Beats Antique, sendo uma das principais referências em world music.

vaudeville Rachel Brice

Em resumo, ainda segundo a Joline, a dança tribal "é relativamente recente no mundo da dança, mas bebe na fonte de diversas culturas antigas e mistura tudo numa alquimia contemporânea." O estilo surgiu como uma forma de expressão inovadora no final da década de 1960, na Califórnia (EUA), durante os movimentos contraculturais do Woodstock, em meio a episódios sociais, culturais, políticos e econômicos, chegando ao Brasil em meados da década de 1990. Tatuagens e estilos ancestrais de adornos corporais estavam em voga e, desta forma, outros jovens que viviam estilos de vida alternativos se interessaram pela dança, dando forma à linguagem exótica que conhecemos hoje.

Carolena Nericcio é a mãe do American Tribal Style® Belly Dance, estilo que tem como principal característica
a improvisação coordenada em grupo.

 

Somos uma só Tribo!

Em 2008, Luciana Carlos Celestino trouxe uma importante contribuição para o meio acadêmico sobre a dança tribal: o artigo Sementes, espelhos, moedas, fibras: a bricolagem da dança tribal e uma nova expressão do sagrado feminino, utilizado como uma das principais referências em trabalhos posteriores, onde aponta que "se compreendermos a dança além de uma manifestação estética e/ou artística, poderemos ver a conexão entre a criação poética e o envolvimento que vivenciam as dançarinas"; afirmando ainda que "ao entrarem em contato com a dança, as dançarinas têm uma intenção clara de resgatar valores ligados ao feminino".²


Em síntese, o tribal traz muito da singularidade de cada dançarina. Nossas experiências pessoais bem como nossas vivências artísticas tornam-se estudos complementares de corpo e arte que contribuem para a construção de um vocabulário artístico. Na dança, imprimimos nossa personalidade, encontramos nosso estilo e, por fim, desenvolvemos uma identidade artística. Esta liberdade de criação ocasionou no desenvolvimento de inúmeras vertentes e nomenclaturas diferentes, mas cabe aqui ressaltar que, antes de tentar rotular uma performance, fazemos todas parte da mesma tribo. Confira a seguir alguns estilos de fusão que se destacaram ao longo dos anos, seus precursores e, também, alguns dançarinos de destaque em nosso país:


ATS® e ITS
ATS® é a sigla para American Tribal Style®, estilo criado por Carolena Nericcio; enquanto que ITS é a sigla para Improvisational Tribal Style, cujo conceito é o mesmo - de improvisação coordenada em grupo - mas o estilo varia conforme o grupo. Na foto: à direita temos o grupo Widlcard Bellydance e, à esquerda, o grupo Unmata, ambos de ITS.

 

Improvisation Tribal Style


Cia Exotika - ITS



Dark Fusion
Ariellah Aflalo (à esquerda) é a principal responsável por trazer a influência dark e gótica na dança do ventre e tribal, sendo uma das integrantes da formação original do The Indigo Belly Dance Company e idealizadora do festival Gothla de fusões dark e teatrais. Nas palavras de Gabriela Miranda (RS), à direita, o estilo Dark traz a expressão teatral, lírica e passional para a dança. A brasileira Mariana Maia (SP), no centro também é adepta do estilo.

 



Ariellah Aflalo e The Lady Fred



Indian Fusion
As fusões com dança indiana são também uma das principais vertentes da dança tribal. À esquerda, Naga Sita, conhecida pelas fusões ritualísticas com Art Nouveu através do seu grupo Apsara; no centro, Moria Chappell, a criadora do Odissi Fusion; e à direita, Collena Shakti, uma das principais referências em Indian Fusion Belly Dance.



Naga Sita


Urban Fusion
A Orchidaceae Urban Tribal é a principal referência em urban fusion. Dirigido por
Piny, o grupo mescla movimentos do popping, waacking, vogue e dança contemporânea com dança do ventre.




Orchidaceae Urban Tribal



Tribal Brasil
Kilma Farias (PB) foi a primeira dançarina a realizar experimentações, desenvolver e sistematizar o estilo Tribal Brasil junto com a Cia Lunay, que fusiona a dança tribal com danças afro-brasileiras. Em seguida, surgiram outros pesquisadores na área, como Cibelle Souza (RN) - diretora da Shaman Tribal Co., e Nadja El Balady (RJ).


Shaman Tribal Co.



 

A cena também é deles

Uma das principais distinções entra o estilo tribal e a dança do ventre como a conhecemos popularmente é que, apesar de ressaltar a feminilidade, a dança tribal se destaca pela criatividade artística e técnica da bailarina, sem necessariamente torná-la sensual, desta forma, os homens também ganharam espaço na área, conquistando o público com o carisma masculino.
 
Illan Riviere Marcelo Justino Lukas Oliver
À esquerda, Illan Rivière; no centro temos Marcelo Justino (SP), também pesquisador em Tribal Brasil; e à direita, Lukas Oliver (SP). Além destes, no Brasil também temos o Luy Romero como uma grande referência masculina.

Illan Riviére




A Autora

Melissa Souza
(Várzea Paulista/SP) é bailarina, professora e coreógrafa de Dança Tribal, diretora do grupo de performance Mohini Tribe, idealizadora do encontro de dançarinas Tribal no Parque e criadora do blog Tribal Archive.


Graduanda em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, atua também com assessoria de comunicação para empreendedores em dança.
Dentre seus trabalhos recentes está a produção independente do Projeto Vídeo & Dança.

Blog: tribalarchive.blogspot.com



Referências

¹ ANDRADE, Joline Teixeira Araújo. Processos de Hibridação na Dança Tribal: estratégias de transgressões em tempos de globalização contra hegemônica. Monografia (Curso de Pós Graduação em Estudos Contemporâneos sobre Dança) - Universidade Federal da Bahia, 2011.
² CELESTINO, Luciana Carlos. Sementes, espelhos, moedas, fibras: a bricolagem da dança tribal e uma nova expressão do sagrado feminino. In. XVI Semana de Humanidades da Universidade Federal do Rio grande do Norte, 2008.


Sites consultados:
http://fcbd.com
http://www.jolineandrade.com
http://hibridaressonante.blogspot.com
http://www.marianaquadrostribal.com
http://www.tribalarchive.blogspot.com
http://cialunay.blogspot.com.br



Artigo de Melissa Souza em colaboração com o blog Moda de Subculturas. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui presente sem autorização prévia do autor. É permitido citar o texto e linkar a postagem. É proibido a cópia da ideia, contexto e formato de artigo. Plágios serão notificados a serem retirados do ar (lei nº 9.610). As fotos pertencem à seus respectivos donos, porém, a seleção e as montagens das mesmas foram feitas por nós baseadas na ideia e contexto dos textos. 


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