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22 de setembro de 2018

I don't give a damn about my bad reputation: os 60 anos de Joan Jett!

"Eu venho de um lugar onde o Rock n' Roll significa algo. Significa mais do que música, mais do que moda, mais do que uma boa pose. É a língua de uma subcultura que tem sido feita por todos os jovens que a seguem. É uma subcultura de integridade, rebelião, frustração, alienação, e a cola que define várias gerações livres da sociedade antinatural e auto supressão. Rock n' Roll é político, é uma maneira significativa de expressar dissidência, perturbar o status quo, agitar revolução e lutar pelos direitos humanos. Você acha que estou fazendo isso soar mais importante e você está crítico e é isso, é somente o rock n' roll, certo? Rock n' Roll é uma ideia e um ideal. Às vezes, porque nós amamos a música e fazemos música, esquecemos do impacto político que há nas pessoas ao redor do mundo. Existem Pussy Riots, onde quer que haja agitação política, nos tornamos tão condicionados em medir nosso impacto musical apenas em sinais de dólares que nos esquecemos o que realmente é: a música! Emoção, expressão. Dando voz àqueles que não estão satisfeitos em se encaixar em qualquer caixa que lhes foi dado. A ética do rock n´roll está em toda minha vida e sou agradecida à todas as pessoas ao longo do caminho que me deixaram ser eu."
O trecho acima foi retirado do discurso de Joan Jett na sua indução ao Rock N' Roll Hall of Fame de 2015, e revela muito como foi a trajetória musical na vida da artista. O amor pela música construiu-se supercedo e logo saberia que os palcos era onde sempre queria estar.

Photo by Brad Elterman.

Joan Marie Larkin nasceu em 22 de Setembro de 1958, na Filadélfia, Pensilvânia. Vinda de uma família que acreditava na liberdade do ser humano, como a própria enfatizaria em entrevistas, aos 13 anos ganharia de Natal uma guitarra pedida aos pais. Influenciada por nomes  à la Black Sabbath, The Osmond Brothers, T.Rex, o instrumento seria sua porta de entrada no Rock. Morando em Los Angeles, aos 15 anos se reúne com a baterista Sandy West, pegava quatro ônibus para se reunir até sua casa e compor algumas músicas por telefone junto com o produtor Kim Fowley. Assim nasce The Runaways, no dia 05 de Agosto de 1975. A formação vai crescendo com a entrada de Lita Ford, Micki Steele e Cherie Currie. Elas lançam a música "Cherry Bomb" que estoura dando enorme visibilidade, principalmente pelo fato de ser uma banda só de mulheres, ou melhor, meninas, já que nem tinham 20 anos.


Micki Steele sai e entra Jackie Fox, dando origem à formação clássica da banda. O sucesso repentino causa um enorme impacto nas meninas, um turbilhão de emoções, principalmente com o abuso de drogas de Cherie Currie. Elas entram em turnê pelo mundo, inclusive com apresentações históricas no Japão. Sobre essa fase, Joan diz que queria performar em uma banda só de garotas porque não haviam outras na época. "Eu quero tocar numa banda que tenha outras garotas lá fora que como eu queira fazer a mesma coisa", conta em entrevistas. 


Logo cedo descobriria que ser mulher no Rock tinha duros percalços, só que não com a mesma justificativa de que certos homens usam ao dizer que somente as avaliam pelo talento musical. Joan revela sobre o abuso dos homens na música e que jamais imaginou que teria problemas, pois o Rock significava liberdade para ela. "Mas eu estava tremendamente enganada. As pessoas nos chamavam de nomes que utilizam para diminuir uma mulher, como 'vadia' e 'sapatão'. Eu realmente não entendia da onde vinha aquele ódio", indagação que se faz até hoje. "Não havia suporte para meninas tocarem Rock. A plateia era formada por homens e as poucas mulheres que frequentavam eram namoradas".

No auge da briga entre Punk e Metal, 
a diferença de estilos musicais e visuais entre Joan Jett e Lita Ford.

Entre os altos e baixos que The Runaways passou nos poucos anos de duração, passando por modificações de integrantes, polêmicas na imprensa, a banda termina e Joan parte para carreira solo. É apresentada a Kerry Laguna que topa administrá-la, mas decepções viriam adiante. Com repertório em mãos para gravar um álbum, Joan é rejeitada por 23 gravadoras, de pequenas a grandes. "Não tem material aqui, você não consegue cantar, esquece a guitarra", diziam. Então decidem juntos montar uma gravadora e é aí que vem a BlackHeart Records, da qual conseguem lançar o primeiro álbum "Bad Reputation" entre 1980 e 81. O disco faz enorme sucesso, com 4 hits, sendo a primeira 'I Love Rock N' Roll'. Além dele, 'Crimson and Clover', 'Bad Reputation' e 'Do You Wanna Touch' complementam a vitória comercial no mainstream.

Durante o clipe 'Bad Reputation', aparecem frases críticas que envolveram a sua carreira musical.


Dali por diante Joan segue com a banda e a gravadora marcando seu nome na história do rock, algo que sempre sonhou. "Eu quero um tipo de fama concreta, como quando escrevem um livro definitivo sobre a história do rock n' roll. Eu quero ter meu nome lá, defendendo uma causa, sendo umas das primeiras mulheres a tocar rock n' roll de verdade e ter esse espírito". É visível como a carreira musical sempre foi seu foco, em entrevistas deixa bem claro o quanto tenta se cuidar para poder ter disposição em fazer turnês e assim prolongar sua vida nos palcos, lugar onde mais gosta de estar. "Dinheiro não é o que me move. Eu quero estar no palco tocando e fazendo as pessoas felizes"

Musa de movimentos como Riot Grrrls e das Mulheres Grunge.

Apesar da fama Joan sempre foi muito reservada na sua vida privada. Revelou quando jovem escolher a música do que formar uma família. Deve ser por isso que Kenny a descreveu como sendo a mesma pessoa tanto na vida pública quanto privada. Além da música, Jett também se aventurou nos cinemas, entre eles o filme 'Light of Day', onde contracena com o superastro da década de 1980, Michael J. Fox. Mas só foi em 2014, que consegue realizar um projeto antigo: uma coleção de roupas.


Joan Jett e a Moda

A relação da artista com a moda começaria cedo pelo seu estilo andrógeno, causando reações de imediato aos padrões da sociedade. "As pessoas sempre olham para mim e perguntam: por que você não se veste como uma garota? Por que não coloca um vestido ou por que não tem o cabelo de uma forma diferente? Tem uma imagem mais clara? Se eu pensar em como era no tempo quando pequena e adolescente, eu não era o tipo de pessoa que iria numa formatura, eu não colocaria um vestido de formatura por dinheiro algum, não mesmo. Isso é como posar nua para mim."

Imagens raras: usando biquíni e vestido.

No filme The Runaways, lançado em 2010, há uma cena maravilhosa onde Kristen Stewart, que interpreta Jett no longa, chega numa loja querendo comprar roupa. Ela se dirige a sessão masculina e logo é corrigida pela vendedora, mas rebate dizendo que está à procura das mesmas peças que um rapaz presente na loja está vestindo. Esse look era uma jaqueta perfecto, blusa e calça jeans, um visual biker adotado pela musicista e que hoje é sua marca registrada. 

-Hey, querida, você está olhando a sessão errada.
A sessão das mulheres é do outro lado.
- Eu quero o que ele está vestindo.

Em 2014, a marca Hot Topic convida Joan para montar uma coleção especial de 25 anos da empresa. Ambas já tinham tido desavenças pois a marca teria usado a logo da banda numa coleção sem autorização de Jett, que entraria com processo, mas parece que resolveram a situação e fizeram a parceria da qual a gente noticiou na época.


Para a coleção, Joan se juntou aos amigos Daang e Ray Goodman, donos da marca Tripp NY, que também faz as roupas da artista. "Tenho ouvido falar da Hot Topic por anos porque na estrada há pouco locais em certas áreas do país onde você pode encontrar roupas ao estilo rock n' roll", disse ao WWD. "Eu conheço muitos garotos que usam roupas femininas, especialmente em bandas de rock. Os caras gostam de usar roupas de meninas porque às vezes elas são mais elegantes e mais bonitas do que as roupas de garotos", revela.

Na década de 1980 provando que rosa também é rock!
Usando o inseparável converse all star.

Na mesma entrevista, quando perguntam para descrever sua própria estética, fala: "É difícil colocar palavras em seu próprio eu. Parece meio clichê em dizer, mas minimalista, rock n' roll, nervoso e sombrio se aplicam ao meus estilo andrógeno porque não tenho um monte de curvas"


Camiseta dos Sex Pistols customizada por ela.
Photo by Bob Gruen.
Photo by Brad Elterman.
Joan e Gaye Advert, 1977.

É muito legal ver uma artista como Joan se envolvendo com um projeto de moda, mostra que ela reconhece a importância que o visual tem nas culturas juvenis junto com a música e todo o aspecto comportamental de uma subcultura. 

Além de completar 60 anos em 2018, há mais um reconhecimento na carreira de Joan: o lançamento de um documentário contando sua trajetória! 'Bad Reputation' é um importante registro no legado de uma mulher na história do rock. Também é uma fonte de inspiração às futuras Rockstars que estão galgando sua carreira musical e uma esperança a todas nós que acreditamos na força do 'faça-você-mesma' e colocamos projetos independentes para funcionar.




Happy fucking birthday, Joan Jett!


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16 de junho de 2018

Minha experiência na oficina de bateria da Hi-Hat Girls Magazine

Uma das coisas que nos deixa muito felizes é ver projetos independentes dando certo no Brasil. A Hi-Hat Girls Magazine é uma revista online dedicada em informar sobre mulheres bateristas da América Latina. A publicação nasceu em 2012, e quatro anos depois foi criada a oficina com intuito de incentivar garotas a tocar bateria, um instrumento que ainda apresenta um grande déficit de musicistas no comando em todo mundo.

Imagens: Bre Helvetia

Nós fizemos a divulgação do projeto assim que se iniciou em 2016. Agora chegou minha vez de participar e dividir essa experiência com vocês. A primeira coisa a fazer é entrar nas mídias da Hi-Hat Girls e preencher o formulário de inscrição da oficina quando estiver em aberto. Após concluída, é torcer e esperar que seu nome seja sorteado para a data anunciada - sim, a procura é grande pois a aula é totalmente gratuita. Tendo o seu nome sorteado é só esperar pelo o dia!

Imagens: Bre Helvetia

Quando cheguei no local achei que não ia ter muita gente, mas para minha surpresa lotou. Deviam ter quase quinze participantes, eram meninas e mulheres de faixa etária que variavam entre 9 a 40 anos. Fiquei pensando como iria funcionar aquela diferença toda, mas funciona. Funciona demais! Cada uma possuía bagagens diferentes. Algumas com familiares músicos, outras já tinham até feito aula de música, mas a maioria nunca tinha pego em instrumento, muito menos a bateria.

Imagens: Bre Helvetia

A oficina dura por volta de três horas, a gente recebe informações básicas sobre o instrumento, exercício de aquecimento e por fim, a prática. No começo é normal dar um pouco de vergonha, mas é nessa hora que entra a grande habilidade das instrutoras - que no meu dia eram a Julie Sousa, Cris Ribeiro e Camila Viana - em acolher as participantes quebrando o gelo, incentivando com muita atenção e dedicação perante as facilidades e dificuldades de cada aluna. Só sei que quando fui ver, já estávamos vibrando e torcendo para todas as apresentações.

Imagens: Bre Helvetia

Não, não é um instrumento fácil. A bateria desafia sua coordenação motora que precisa ser aliada a memória da teoria e ao nervosismo que surge no primeiro encontro. E é aí que vem o mais incrível: quando perguntadas se gostaríamos de dar continuidade no aprendizado todas disseram que sim! A vontade de seguir em frente no estudo do instrumento permanece. Ficou claro que a dificuldade só fez florescer a persistência e não a desistência.

Imagens: Bre Helvetia

Portanto, se tiver oportunidade de participar da oficina da Hi-Hat não perca! O projeto é independente, está aos poucos saindo do eixo Rio-São Paulo e chegando em outras cidades, como ocorreu em Belém e agora em Salvador. Foi uma das melhores experiências que tive, valeu demais a pena! Vi o quanto é importante incentivar mulheres na música pois ainda somos minoria, como bem lembrou a musicista Cris Ribeiro. Mas há como transformar esse cenário. Tanto que a iniciativa acabou de ser contemplada pelo programa Active Citizens, do Conselho Britânico. Que máximo! Isso mostra que diante das adversidades, há aqueles que acreditam em mudanças reais.


Como dizia Kathleen Hanna: 
'Girls to the front!'



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25 de março de 2018

Roller Derby: conheça o esporte que atrai garotas alternativas!

O Roller Derby ficou conhecido por ser um esporte onde não há limitação estética e corporal para sua prática, chamando a atenção pela quantidade de jogadoras alternativas que participam da modalidade. Haveria algum motivo específico para essa forte ligação entre o esporte e a cultura alternativa? É isso que vamos mostrar nesta matéria.

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ReAnimate-Her

Um pouco da história

Roller Derby é um esporte de contato completo oficializado em 14 de Julho de 1935, na cidade de Chicago. Após ler uma matéria na revista Literary Digest informando que 97% dos americanos já haviam patinado, o empresário Leo Seltzer começa a desenvolver uma nova forma de entretenimento. Oriundo do ramo do cinema, Seltzer produzia eventos de walkathons (maratonas de dança) que faziam muito sucesso no início do século 20, crescendo principalmente depois da Grande Depressão. Tentando unir sua experiência a uma nova atração para o público, no dia 13 de Agosto de 1935 é inaugurado o The Transcontinental Roller Derby, a primeira maratona de roller skating, a qual atraiu cerca de vinte mil espectadores para o Chicago Coliseum.


Desde o início, as equipes eram compostas por ambos os sexos. "Naqueles dias as mulheres não podiam fazer nada", diria Ann Calvello. Estranhamente, o meio esportivo sempre deslegitimou a prática como esporte. Mesmo assim, Seltzer persistiu criando e desenvolvendo a Associação Transcontinental de Roller Derby com cerca de três mil membros. O banked track, que é a famosa pista inclinada oferecendo maior velocidade aos atletas, seria ideia sua. O contato era ilegal até 1937, quando propôs aos árbitros a pararem de penalizar os empurrões e batidas para ver o que ocorria. Os nomes diferentes e apelidos das Ligas e atletas também já vinham dessa época. Seltzer ia adaptando o esporte com intenção de torná-lo grande no país e aos poucos ia conseguindo.

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Jogue Junto, Esteja Junto.
Um dado interessante é que durante a tensão racial da década de 1960, 
os times eram formados por brancos e negros, tanto homens quanto mulheres. Todos juntos.


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Alguns nomes do Roller Derby Hall of Fame.


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Houve altos e baixos, como o desastre que quase matou todos os atletas em 1937, e depois com a Segunda Guerra onde muitos homens se alistaram. No retorno em 1948, seria dado um grande passo com a estreia na televisão em Nova Iorque. Seltzer ia ampliando cada vez mais e cria o National Roller Derby League. Em 1953, muda-se para Los Angeles onde cria a primeira equipe internacional que chega ir à Europa, o LA Braves.

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Filme The Fireball de 1950.

Em 1958, Jerry Seltzer, filho de Leo, passa a gerir o negócio levando a organização para o Sul da Califórnia. Ajuda a mudar regras, como obrigar os patinadores a usarem capacetes. A década de 1960 é um período onde o esporte ganha bastante popularidade de público e imprensa mainstream. É criado em 1961, o Roller Games, uma versão teatral que rivalizava com o Derby dos Seltzer, mas nada que tirasse o brilho dos Bay Bombers, a equipe mais lendária da história do esporte, atingindo seu ápice entre 1969 e 1971. Em 1973, Jerry fecha o negócio da família por problemas de despesas e a falta de gás com a crise do petróleo, ocasionando uma queda no Roller Derby original. Nos anos seguintes houve diversas tentativas para ressurgir o esporte, porém nenhuma bem sucedida.

San Francisco Bay Bombers foi uma equipe histórica e que possuiu as mais lendárias estrelas: Charlie O'Connell, Joanie Weston e Ann Calvello.
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Roller Queens: Ann Calvello e Joan Weston em pleno combate!

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Weston em ação.

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Barbara Mateer.

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Os cabelos coloridos de Ann Calvello.

O filme Kansas City Bomber de 1972. A personagem de Raquel Welch
 seria baseada na história de Joanie Weston, a Golden Girl.


O Roller Derby Moderno

Em 2001, o músico Daniel Eduardo Policarpo (aka Devil Dan) se muda para Austin, Texas, com a vontade de remontar o Roller Derby. Dessa vez, queria nas equipes só mulheres e que estivessem dentro do perfil "tatuagens, coragem e cortes de cabelos a la Bettie Page". Como era novo na cidade e não conhecia ninguém, a estratégia foi caminhar pelas ruas de bares de rock abordando as frequentadoras com seus flyers e a ideia de iniciar o esporte. A primeira reunião ocorre no Casino El Camino, com Heather Burdick, April Hermann, Anya Jack e Nancy Haggerty, as futuras líderes de equipes. O encontro rende e acabam conseguindo vinte garotas e assim criando quatro times: Hell Cats, Rhinestone Cowgirls, Putas Del Fuego e Holy Rollers.

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Hell on Wheels.

Logo os problemas começam a surgir. Cansadas da falta de comprometimento de Daniel e já que estavam cuidando de todo o processo enquanto ele levava uma vida de junkie sem dar conta de nada, dispensam o músico e assumem por completo o projeto. Para colocar a ideia em prática e ser a mais democrática possível, formam o conselho Bad Girl, Good Woman Productions, onde num sorteio Anya assume como SheEOs (uma versão girl power de "CEO"), Nancy como Presidente, April no lugar do Vice-Presidente e Heather sendo a secretária. O grupo começa do zero organizando toda a estrutura, desde a parte financeira até o recrutamento e ensino de futuras jogadoras, criando a primeira Liga totalmente DIY de Roller Derby.

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Nancy Haggerty, Anya Jack, April Hermann e Heather Burdick.
Photo: Bob Sherman Art.

Não é um projeto fácil e as ambições são enormes sobre o esporte. O crescimento vem aos poucos e em 2002, a Bad Girl Good Woman Productions se divide em dois times: Texas Rollergirls e TXRD Lonestar Rollergirls. Com o tempo conseguem sair do Estado influenciando a criação de novas Ligas pelo país. O documentário Hell on Wheels mostra toda essa saga inicial até o reconhecimento. Há muitas perdas, desistências, mudanças repentinas a serem superadas. Mas a cena pioneira rendeu frutos, sendo usada como referência de método de jogo e estrutura de negócio até hoje. A segunda Liga criada foi Arizona Roller Derby, fundada em 2003, por Denise Grimes (aka Ivanna S. Pankin) da cena punk de Phoenix. Dali em diante o Roller Derby se tornaria fenômeno se espalhando pelos Estados Unidos e depois o mundo.


Curiosidades

- Roller Derby é um esporte de alto impacto, extremamente físico e competitivo. Em todas as reportagens as atletas dão ênfase aos machucados que possuem, muitas tiveram seus primeiros ossos quebrados em treinos ou jogos. Uma das vantagens da prática é a produção de estamina no corpo, substância que combate o estresse causado pelas frustrações do dia a dia. Muitas jogadoras relatam sobre como se encontraram no esporte, sentindo pela primeira vez vontade de praticar exercício e assim saindo da vida sedentária. Inclusive para algumas, foi um escape na recuperação do vício em drogas e na melhora de transtornos mentais.

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- No documentário 'Hell on Wheels', num encontro de recrutamento a técnica deixa bem claro que para ser uma roller precisa ser uma atleta. "As pessoas dizem que irão patinar, irão ter apelidos...não! Você irá se exercitar, você irá trabalhar duro, você será uma atleta!", enfatiza Laurie Bourke. 


- A primeira Liga fora dos Estados Unidos foi a London RollerGirls, formada em 2006, também pioneira no Reino Unido e na Europa. Particularmente a minha preferida, pois foi numa entrevista concedida à Didi Wagner no programa Lugar Incomum que conheci o esporte. O visual do grupo é incrível, acredito que tenham ajudado a solidificar ainda mais a ligação entre a prática de roller com a cena Punk. Antes do time entrar em campo gritam bem alto: "Anarchy in the UK!"

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Logo da London RollerGirls remete ao Anarchy in the UK dos Sex Pistols.

Primeiro time em Beirut, Líbano. Formado por garotas 
de diversos países: Iêmen, Egito, Barein e Tunísia.


- Em 2005, é criada a federação do esporte, a Women's Flat Track Derby Association (WFTDA);

Gothan Girls Roller Derby de Nova Iorque, é a Liga que mais venceu e conta entre suas atletas a brasileira Fernanda Corrêa;

- O primeiro Roller Derby World Cup ocorreu em Toronto, no Canadá, em 2011.

- Por que é comum mulheres e garotas alternativas se sentirem atraídas pelo roller derby? Isso se dá pela cultura punk que foi inserida no esporte em grande parte com o lema faça-você-mesma, esse espírito de fazer e acontecer apenas com a vontade e o comprometimento das pessoas. Além disso, o derby moderno foi iniciado com mulheres que frequentavam bares de rock, dando abertura na estética das atletas que possuíam tatuagens e cabelos coloridos. 

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Maquiagem do Kiss (não identificada e ReAnimate-Her).
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Franja Pin Up: usada pela jogadora Barbara Mateer,
hoje vemos o mesmo corte na nova geração (MothMouth e não identificada).

Anúncio da London RollerGirls: "Qualquer senhora que dê 'chute na bunda' e tenha entusiasmado senso de humor, espírito competitivo e não tenha medo de cair (e muito!) deve nos procurar! Viemos de todas as formas e tamanhos, de locais diferentes, tatuadas ou não, mais velhas ou mais novas (18 para patinar, qualquer outra idade para nos animar!). O que você está esperando?".

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- Repare que as logos dos times e os panfletos de eventos constantemente trazem ilustrações de garotas alternativas ou Pin-Ups e referências ao rock. As jogadoras adotam pseudônimos criativos que revelam sua personalidade ou estilo de jogo, sendo uma oportunidade de colocarem em prática seu perfil alternativo e marcando a individualidade dentro de um esporte coletivo.

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Flyers dos eventos.



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Logos.

- Estética: short, saias, tutus, meia-arrastão, meia 3\4, asas. No dia a dia de treinos as atletas usam roupas confortáveis, apropriadas para exercício físico e acompanhadas de proteções para o patins quad, como capacete, joelheira e cotoveleira. Nas competições, dependendo da Liga e do evento, algumas elaboram o visual por puro entretenimento. Essa era uma das ideias na criação do roller derby moderno, um misto de esporte e espetáculo teatral para entreter e chamar público, já que não tinham patrocínio e precisavam angariar dinheiro para financiar o projeto independente. Hoje isso não é regra.



Com o tempo foram surgindo marcas especializadas, 
é o caso da americana Derby Kiss criada pelo casal Emily e Dan.
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- Feminismo: um dos assuntos que mais puxam o tema em matérias nas grandes mídias. De fato há fortes ligações: a versão moderna foi construída do zero por e para mulheres, tanto que hoje dominam a modalidade. Um fator importante é que o esporte não discrimina a idade e o corpo da atleta, qualquer uma pode praticar, basta ter comprometimento. A forma agressiva de jogar dá liberdade de fazerem movimentos e terem uma estética consideradas 'não femininas' na sociedade. Outra questão é que a prática em equipe favorece a irmandade entre as integrantes. Como muitas Ligas funcionam no faça-você-mesma é necessário apoio mútuo para que o projeto seja realizado, isso mantém a amizade estreita fora das quadras. Porém, o discurso feminista que vemos hoje foi inserido com o tempo, já que no documentário "Hell on Wheels" há pouquíssimas citações - para não dizer quase nada - de Feminismo. Ao mesmo tempo que era exaltado o envolvimento de mulheres na construção do projeto independente, consideravam que o movimento já havia dado liberdade de fazer o que quisessem. Talvez por serem adultas em 2000, o que significa que viveram o período Grunge e Riot Grrrl, tivessem a sensação de maior abertura nas condições das mulheres, esse pensamento é citado no post As Mulheres no Heavy Metal. Seria interessante saber se essa visão continua presente na primeira geração ou se mudou devido a entrada das novas.



- A respeito de corpos, biotipos e sexualidade: Segundo Margot Atwell, atleta da Gothan Girls e que publicou os livros Derby Life e Color Jam, em entrevista ao Huffington Post: "a comunidade roller derby é um enorme local positivo e saudável para mulheres - especialmente mulheres lésbicas e bissexuais. Roller Derby ensina às mulheres e garotas a valorizar seus corpos por aquilo que conseguem fazer, não em como aparenta. Skaters apoiam outras com diferentes sensos de estilo (..) e sexualidade. Contando que você seja uma boa parceira de time e trabalhe pesado, você é parte da família. Eu queria criar um livro que estivesse embutido esse espírito".

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- Homens também praticam o esporte, apesar de serem minoria. Na versão moderna as equipes são separadas, ao contrário do início quando competiam juntos. Eles sempre puderam frequentar os eventos desde que não desrespeitassem alguma mina, senão eram expulsos do local.

- O filme Garota Fantástica (Whip It) lançado em 2009, é o que mais propagou pelo mundo o Roller Derby, inclusive no Brasil. O longa é baseado no livro Derby Girl, que conta uma fase da autora Shauna Cross, da qual era obrigada pela mãe a competir em concursos de beleza ao mesmo tempo em que era atleta na LA Derby Dolls, sob o codinome de Maggie Mayhem. Shauna revelou em entrevista que o esporte foi o empoderamento feminino mais forte que experimentou. "Era a plástica-sexy versus real-sexy", definindo a diferença entre os concursos e o roller derby.

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Roller Derby no Brasil

Ladies of Helltown é a primeira liga brasileira, fundada no dia 28 de Abril de 2009, em São Paulo. A segunda é a Sugar Loathe Roller Derby, criada em Maio de 2010, no Rio de Janeiro.

- A Seleção Brasileira de Roller Derby foi criada em 2011, para a Copa do Mundo. Hoje há 11 Ligas em todo o país. Acompanhe a jornada do time em suas mídias sociais e, se puder, participe das campanhas de financiamento para ajudar nas futuras competições.

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- Caso queira ter uma noção das regras e funcionamento, um ótimo vídeo de introdução ao esporte feito pela Seleção Brasileira de Roller Derby.



Para saber um pouco mais sobre a situação no Brasil, troquei uma rápida conversa com Fernanda Bauer (aka Bauer #28) da Sugar Loathe Roller Derby. Apesar do tema ter sido matéria de várias mídias de massa, fica evidente a falta de conscientização sobre o esporte como profissão, implicando na dificuldade de arranjar patrocínio e no recrutamento de novas atletas. "Vivemos para liga quase todo o nosso tempo livre, pesquisando treinos na internet, discutindo jogos, mudanças de regras, organizando treinamentos...". A característica do faça-você-mesma continua sendo muito forte, são elas que lidam com toda organização de eventos e gastos de divulgação e manutenção. Outro fator importante é fazer as iniciantes se enxergarem como atletas, ou seja, é necessário comprometimento com treinos, exercícios físicos, gastos com aulas e na compra de equipamentos, este último sendo bem caro. Sobre Feminismo, Bauer enxerga a forte ligação do esporte como forma de empoderamento: "nos 'obriga' a estar sempre buscando o nosso melhor, tanto fisicamente como mentalmente. Fora que para alguma de nós, o esporte se tornou um grupo de ajuda mútua e um porto seguro". Para finalizar, Fernanda apresenta uma visão que a interliga com muitas rollers ao redor do mundo: "o que posso acrescentar da minha experiência pessoal: mostrou que sim, existe um esporte para mim".


Espero que tenham gostado e quem sabe
você seja uma nova freshie! 😉


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Autoria: Idealização, texto e curadoria de imagens: Lauren Scheffel
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