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14 de fevereiro de 2021

A polêmica do Fetichismo no nosso Instagram: o tabu de questionar a prática resultou em catarse de mulheres, feminismo e ataques pessoais.

No dia 22 de janeiro de 2021, os stories de nosso Instagram bateram recorde de visualizações. O recorde perdurou até o dia 24/01. Tal fato me deixou estupefata, não apenas por conta do alcance, mas pelo interesse - positivo e negativo sobre o tema Fetiche


Quem acompanha o blog há tempos sabe que aqui não temos medo de tocar em tabus. Nossa função como comunicadoras da cultura alternativa é questionar, sempre! Tudo! Incluindo a própria cultura alternativa que não está livre de pensamentos retrógrados, machismo, preconceito e racismo - como vimos num dos posts sobre Subculturas e ConservadorismoPolítica e feminismo são também temas  que sempre estiveram presentes neste espaço. Mas isso é uma característica nossa (Sana e Lauren, autoras), pode ser que outros alternativos não tenham mínimo interesse em questionar nada.

Tudo começou quando fiz a divulgação em um post no feed da matéria que escrevi para a  5º edição da Gothic Station, chamada
"Moda Fetichista na Subcultura Gótica". E ao divulgá-la no story, recortei um trecho de meu texto e abri um questionamento (caixa de perguntas) a respeito da relação do fetiche entre homens, mulheres e moda. Abaixo a pergunta e a porcentagem das respostas, que comentarei a seguir.



Sobre a pergunta: observem que era direcionada à moda alternativa.
Resposta: 65% das pessoas disseram que a moda fetichista NÃO se direciona à mulheres.

Fiquei intrigada, estou desde 2002 envolvida com pesquisa de história da moda alternativa e existe mais moda alternativa fetichista direcionada à mulheres do que homens. Mesmo nas lojas especializadas em moda fetichista masculina, a quantidade de peças e modelos é inferior se comparado ao segmento feminino. Além disso, nas lojas direcionadas aos homens, ocorre uma quantidade maior de acessórios BDSM, algo que nem sempre acontece na moda direcionada às mulheres, que é mais focado em peças de estilo.

Abri uma caixinha e perguntei: "Conte aqui porque vc concorda ou discorda da frase".

E fiz nova pergunta (imagem central). E desta vez as respostas foram mais próximas do que sabemos ser a realidade da moda alternativa fetichista. 98% para mulheres; 2% para homens (acho que até é baixo demais, mas enfim, tudo depende do público que responde).



Tal questionamento resultou num caminho que eu não esperava. Poucas foram as pessoas que mandaram respostas relativas à moda alternativa. Muitas pessoas, mulheres - sejamos francas - aproveitaram o momento para desabafar. Desabafar sobre o quanto se incomodavam com a cultura do fetiche e BDSM e não se sentiam à vontade pra falar em público porque eram sempre criticadas. Então elas simplesmente silenciavam! E encontraram ali, naquele momento, a oportunidade de falar o que realmente pensavam sobre o assunto devido ao anonimato garantido. 

Comecei a compartilhar respostas. Com alguns comentários. Mas os fãs de fetiche (homens e mulheres) se incomodaram, e começaram a me mandar DM, fosse pra defender a prática, fosse para me xingar, fosse para me questionar, teve até mulheres tentando fazer uma espécie de ''gaslighting" comigo, em mensagens que tentavam fazer com que eu duvidasse de mim mesma. Mas eu conheço essas técnicas e não caí nesse discurso.

A quantidade de xingamento pessoal que passei a receber não foi brincadeira, foram vários minutos deletando DMs e bloqueando pessoas, pra limpar a fila e poder focar nas respostas que realmente tinham alguma opinião. Nem quando postamos algo contra a direita ou a extrema direita recebemos tantas mensagens agressivas.

Vou compartilhar algumas mensagem de mulheres que criticaram a prática, pois foram estas mensagem que acabaram levando ao segundo tema polêmico naquele dia: o feminismo. 





Esta seleção de respostas acima mostrou como parte das mulheres associam fetichismo à machismo,  misoginia e objetificação da mulher. Não acrescento aqui as DMs por ficar muito extenso, já que algumas mulheres colocaram junto relatos mais pessoais, optei por postar as respostas da caixinha por serem mais objetivas e resumem bem. Em um dos stories fiz o seguinte comentário, associado a um meme que vejo por aí: 


Uma seguidora viu esta resposta acima e não gostou, comento logo abaixo o caso dela. 

Então, levantei outros questionamentos, desta vez sobre feminismo: 



Fiquei impressionada positivamente com a porcentagem da resposta acima, inclusive algumas meninas mandaram DM comentando sobre livros de teoria feminista e se dizendo felizes pelo posicionamento e coragem do perfil em abordar o tema. "Coragem" foi uma palavra que apareceu em várias DMs, que só comprova o tabu que envolve a prática fetichista. Interessante, não acham?

Mas... observem a resposta à pergunta abaixo:



Essa porcentagem, ao contrário, me chocou! Fiquei impressionada com a quantidade alta das que disseram ser sim possível ser feminista e fetichista. Dois temas que colidem diretamente, sendo praticamente opostos. Ok que a resposta não permitia um 'meio termo', nem respostas que envolveriam 'não sei' ou 'tenho dúvidas sobre isso'. Foi de fato uma pergunta que não deu espaço pra ficar em cima do muro.

Neste momento destaco as respostas de uma seguidora sobre a pergunta "se o ato de fetichizar é para homens..." e ao meme "se deixa homem de pau duro...". Minhas respostas estão em preto. Para ver maior, basta clicar na imagem.




Bom, depois disso, os xingamentos vieram a respeito do feminismo. Vieram alguns comentários me chamando de "conservadora", de "radfem", de "não esperava isso de vocês" e coisas do tipo. Eu só pude pensar como falta informação aos seguidores que atacam com esses 'pseudo argumentos'. Não os culpo, nosso sistema não incentiva ao senso crítico, muitos de nós não tem acesso à leituras teóricas (embora tenha pdfs na internet) e existe uma parcela da sociedade que incentiva ataques às mulheres, inclusive dentro da esquerda. Desconfie sempre de quem ataca mulheres, existem motivos para isso.


Me chamou a atenção após essa abordagem feminista das minhas respostas, especialmente quando expliquei a diferença do feminismo radical, materialista e do 'feminismo liberal', o silêncio. Estava esperando DMs que comentassem o tema feminismo(s). Elas não vieram. 

Posso estar errada, mas atribuo parte do silêncio à possibilidade de que seguidoras podem ter percebido naquele momento que a referência de feminismo delas era o liberalizado. Incluindo mulheres que são de esquerda e/ou se alinham com o marxismo. Eu as compreendo, porque a liberalização feminismo é mainstream, está em todo lugar. Nos vende 'empoderamento' individualizado (ao contrário do feminismo que prega o coletivo). Crescemos com esse 'feminismo' e o naturalizamos. Para a maioria de nós, a liberalização do feminismo é 'o feminismo verdadeiro'. Mas esse 'feminismo' foi criado pela direita, serve ao sistema e não propõe mudanças estruturais na sociedade a respeito do patriarcado. Eu mesma acreditei no discurso liberalizado do feminismo por anos, afinal ele me cercava: na mídia, na música, nas artes, na cultura dominante em geral. No momento que decidi ir atrás da leitura das teorias feministas e não de matérias da internet, me libertei dele.


No momento em que paramos e vamos atrás das obras escritas feministas, tanto as clássicas quanto as mais recentes, percebemos que tem algo errado no feminismo liberalizado. E é neste momento que várias de nós, de acordo com nossas afinidades, tendemos mais a nos aproximar do feminismo radical, das feministas marxistas ou das feministas anarquistas, podendo explorar vertentes como feminismo negro, indígena ou amarelo, a depender das respostas que buscamos.  


A intenção com esse tipo de pergunta não é retirar a carteirinha feminista de nenhuma mulher que gosta da prática fetichista, elas é que sabem de suas vidas. Cada uma faz seu caminho feminista no seu ritmo. Como pessoa que gosta de questionar, entendo que às vezes a provocação à reflexão pode ser pesada demais. O feminismo destruiu muitas crenças que eu tinha, coisas que eu amava, mas o que recebi por estar liberta de pensamentos e hábitos que não eram meus (alguns adquiridos no meio alternativo) foi a emancipação intelectual. O caminho para ser livre pensadora não é nada bonito, é um constante refletir, questionar e encontrar as próprias respostas... 


**

Este é um resumo bem resumido do que se passou naquele fim de semana e todas as questões que o tema fetiche proporcionou entre quem o aprecia e quem não o aprecia.

Relembro que tudo isso se deu por conta de um grande mal entendido, afinal era uma questão sobre Moda, mas esta se tornou secundária a partir do momento que as pessoas entenderam o meu questionamento como relativo à prática.

As mulheres aproveitaram o momento para serem catárticas e 'denunciarem' seus silenciamentos assim como suas associações do fetiche com machismo, misoginia e objetificação. Outros, fãs de fetiche, se sentiram incomodado com esse apontamento e mandaram DMs explicando do porquê na visão deles o fetiche não seria nem machista, nem misógino nem objetificador. Agradeço à todos que contribuíram com suas visões. Enriqueceu muito meus conhecimentos e com certeza serão úteis no meu trajeto.


Sobre a questão do feminismo, é um baita assunto. Muitas de nós reproduzimos imagens, falas e atos que são parte do discurso machista do que se espera de uma mulher: que elas estejam sempre dispostas a serem objetificadas. O corpo da mulher não é privado numa sociedade patriarcal, é público. Questionar isso não tem a ver com conservadorismo. 


No dia, perguntei se as meninas queriam dicas de leituras teóricas feministas, várias disseram sim. Pretendo postar aqui estas indicações, assim como uma explicação sobre porque o feminismo nada tem de conservador.

Saliento que o foco deste post foi a catarse das mulheres sobre o fetiche e o feminismo. Se o fetichismo, segundo seus praticantes, é igualitário, tem respeito e não tem hierarquia de gêneros, fica para ser abordado em outro post.


Impressionante é como um tema só (o fetiche, e nem chegamos no BDSM!) envolve tantos outros subtemas.


E você, acompanhou ao vivo essa polêmica?

Tem alguma opinião sobre fetichismo?

Como você enxerga a relação entre fetichismo e feminismo?



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15 de janeiro de 2021

Subculturas e conservadorismo - Subculturas só têm ideias progressistas? A subcultura Masculinista (Parte 2)

A invasão ao Capitólio incentivada por Donald Trump, tinha como objetivo impedir a oficialização da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais dos EUA, e revelou ao mundo uma subcultura que as feministas já conhecem há tempos: os ‘tribalistas masculinos’ ou ‘masculinistas’, conhecidos também como ‘mascus’.
 

Eles querem reviver uma suposta virilidade de caça e guerra, resgatando estéticas de vikings, espartanos, romanos e indígenas, que se reflete na estética do grupo composta de roupas de couro, peles, chifres e tatuagens.

O que os marca é o ódio profundo às mulheres, que seriam apenas objetos para reprodução humana. Eles têm extrema repulsa por elas e creem que elas devem ser caçadas, colocadas em cativeiro e estupradas servindo apenas para reprodução. O feminicídio é estimulado através um contexto político de dominação.

Nutrem também o ódio pelos LGBTs. Contraditoriamente, mantém relações sexuais com homens por amor à estética masculina, mas não se consideram gays, pois isso seria uma “fraqueza”. O que eles buscam é sexo com a imagem masculina.

Para Jack Donovan, ícone masculinista, gênero seria algo "natural" (o oposto do que teoriza o feminismo: que gênero é construção social não neutra, que sustenta a hierarquia do poder patriarcal) e imutável".

É habitual nos fóruns chans da deep web defender abertamente estupros e assassinatos de mulheres.

Estar entre homens, para eles, é resgatar uma virilidade perdida supostamente por conta das conquistas do feminismo e outros movimentos sociais e de direitos humanos.

Os masculinistas demonstram que não há como separar subculturas de contextos sociais e políticos. Existem subculturas voltadas aos ideais de direita.

Também comprovam a necessidade do feminismo, que luta pela libertação das mulheres de opressões históricas, combate a misoginia e as estruturas hierárquicas de gênero resultantes das formas de socialização.

Lei Lola

Se você é mulher e sofreu ou está sofrendo crime de ódio, saiba que isso deve ser investigado pela Polícia Federal. Em abril de 2018 foi sancionada a chamada Lei Lola, referencia à professora Dolores (Lola) Aronovich, autora do blog feminista “Escreva Lola Escreva”, que já  foi ameaçada de morte várias vezes e chegou a fazer 11 boletins de ocorrência.

A autora da lei foi a deputada Luizianne Lins (PT-CE), e cabe à polícia federal investigar crimes de misoginia na internet, combatendo ataques, assédios, piadas, depreciação, violência, objetificação sexual e perseguições cibernéticas mesmo que os ataques sejam anônimos, pois a política quebra o anonimato dos agressores.
Misoginia é quando um homem tem ódio, desprezo, preconceito, repulsa contra as mulheres e meninas, simplesmente por serem mulheres ou por elas não corresponderem ao padrão do que ele considera 'ser mulher'.

Referências:
@BBCBrasil ⁠
@blog.feminismocomclasse
@moanaaoliveira
Blog Escreva Lola Escreva
De Realengo a Goiânia cinco massacres que chocaram o país (notícias R7)
Agência Câmara de Notícias 


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10 de abril de 2019

Mulheres carecas: raspar os cabelos é um ato de transgressão

Cabelos compridos são considerados um símbolo da feminilidade. Associados à juventude e virgindade, as meninas logo cedo tem contato com as histórias de princesas e donzelas de contos de fadas com longos cabelos. Em algumas culturas, o cabelo é tão poderoso que deve ser coberto em público e só revelado em aposentos privados por ser forte símbolo de sedução. 

A cantora Sinead O'Connor

Quando falamos em cabelos mais curtos logo vem à mente as melindrosas dos anos 1920, símbolos de independência e sexualidade feminina. Outra época em que ficaram muito em voga foi na década de 1960, quem não lembra dos cortes de Vidal Sassoon responsável pelos cabelos de  Mary Quant? E de Mia Farrow no filme "O Bebê de Rosemary" (1968)?
Na década de 1980 quando a mulher buscava cargos executivos e disputava mano a mano com os homens, os curtos são associados às mulheres independentes e ousadas. Grace Jones é um dos ícones do período e é dela a frase: "Minha cabeça raspada me faz parecer mais abstrata, menos presa a uma raça específica ou sexo ou tribo."

Garotas no festival Afropunk

Ainda no fim daquela década vamos nos lembrar de artistas como Sinead O'Connor que raspou os cabelos após os executivos de sua gravadora pedirem para ela adotar um look mais suave e sexualizado, com saias curtas e cabelos longos. Ela se recusou a ser parte de uma fantasia masculina. 

Sigourney Weaver em "Alien, A Ressurreição" (1992), reforça a ideia de mulher que adquire força e Natalie Portman em "V de Vingança" (2005) tem sua cabeça raspada por um motivo oposto: um ato de violência no momento que é transformada em prisioneira. A atriz revelou em entrevistas que após o término das filmagens manteve os cabelos curtos por um período por ter gostado do resultado, revelando que apesar de ter raspado pela personagem foi uma escolha que ela estava feliz em ter feito.


Fonte: Tokyo Fashion

Conversei com algumas meninas que rasparam a cabeça para saber um pouquinho mais sobre suas motivações e experiências. Percebi que a escolha não se limita a estilo, mas principalmente a uma sensação de liberdade e desapego às regras sociais, desconstruindo uma feminilidade construída na sociedade patriarcal, como bem dito por Iracema Doge, de 23 anos dona do canal Calabouço do Thexuga:
"Tudo começou no meu nascimento, assim que o gênero feminino foi designado para minha estrutura, ao nascer nem sabia que já tinha toda um propósito a servir, tinha regras a seguir e tudo isso nem se quer ter consciência do que estava acontecendo, crescemos em uma sociedade patriarcal que dita exatamente como devemos ser e agir antes mesmo de conseguir ter consciência disso. Ao decorrer do tempo isso foi começando a ficar mais nítido em meu cotidiano não só em questão de comportamento, mas também em como eu deveria me sentir. Quando tive a oportunidade de escolher como eu deveria me sentir, comportar e vestir, comecei a ter questionamentos sobre o porquê deveria seguir um padrão que foi estipulado a mim sem nem se quer pedir a minha permissão."

A mulher de cabelos longos como um padrão ideal de beleza ainda é forte em nossa cultura. Cortar os cabelos - mesmo que seja só as pontas - pode provocar arrepios de terror em algumas garotas! Por isso, raspar a cabeça ainda é considerado uma representação do inconformismo relativo às noções tradicionais de feminilidade impostas pelo patriarcado e suas definições de gênero. É um ato político.

Dentre todas estas questões, podem passar despercebidos pensamentos que são reproduzidos no passar de gerações: a mulher que "não cuida do cabelo", a que "não tem os cabelos bonitos" é criticada, demonstrando a exigência enraizada de ter de estar sempre perfeita aos olhos (e julgamentos) sociais. Cuidar de cabelo toma tempo e cansa sim! E cansa mais ainda se a mulher faz isso como obrigação para não ser considerada desleixada. 

As subculturas não estão livres destas exigências, já que cada uma delas também tem um ideal de beleza, sendo porém espaços onde a abertura a quebra de padrões é igualmente aceita, como segue me contando Iracema Doge, que desde muito nova se interessou por cultura alternativa especialmente a gótica, da qual passou a fazer parte e onde relata que:


"Adentrando cada vez mais na cena gótica, tive o desprazer de ainda me sentir submersa nas estruturas colossais do patriarcado, senti que ali mesmo ainda tinha resquícios de atingir certos padrões um exemplo disso é que neste processo todo eu ainda usava cabelo longo de franja lisa, uma característica que ainda era um padrão visto de fora da cena alternativa para o meio da subcultura gótica, esse padrão me incomodava não só nessas circunstâncias mas senti que isso fosse um reflexo moldado pelo tempo e que talvez eu não quisesse mais aquilo.

Dentro da subcultura gótica encontrei liberdade para me expressar, ser quem realmente eu gostaria de ser, encontrei apoio e também uma grande força de influência feminista. Perante a essa decisão tive força e muito apoio, meu cabelo estava na cintura quando decidi raspar e doar todo ele, não sinto arrependimento e tão pouco vontade de deixá-lo crescer novamente, senti que agora sim sou quem realmente um dia busquei ser e hoje me expresso melhor, me sinto finalmente livre e a partir de agora quaisquer decisão que tenho sei que não será por regras ou preceitos sociais."

Essa ideia da quebra dos padrões, parece ser o ponto mais comum entre as meninas que conversei. Acompanhem os relatos:


 Carolina Ribeiro: "Raspar a cabeça foi algo que eu sempre quis fazer, mas claro, nunca tive coragem. Em 2017 eu comecei a cortar meu cabelo bem curto, até que decidi: estava na hora de raspar, era naquela hora ou nunca. Por que raspar a cabeça? Eu estava num processo intenso de desconstruir a ideia de feminilidade e adotar uma estética que fosse condizente com meu modo de pensar, o que também incluía reduzir a maquiagem, o excesso de acessórios e certos tipos de roupas. Por ser uma mulher gorda, sempre ouvi que cabelo curto não combinava, porque evidencia o rosto (como se isso fosse uma coisa ruim). Talvez por esse motivo nunca encontrei muitas inspirações para raspar a cabeça. Então tomei coragem e eu mesma raspei em casa. Todos estranharam e muitos não entendiam minhas motivações, mas eu me senti liberta e maravilhosa. Chamava atenção? Muita! Ainda mais porque também deixei de usar maquiagem todos os dias, então muitas pessoas me perguntavam se eu estava doente. A sociedade ainda não aceita muito bem uma mulher que não performa feminilidade, infelizmente. Mantive a cabeça raspada durante 1 ano aproximadamente e só comecei a deixar crescer novamente por questões de trabalho. Embora a área da educação não exija abertamente, é notório o estranhamento de pais e alunos."


Lívia Stark: "Meu nome é Lívia, tenho 39 anos e sou professora de Arte da rede pública. Cabelo sempre foi algo que fez parte da minha mente criativa desde criança. Sempre quis ter penteados diferentes, cores diferentes... Tive como "modelo de beleza" os tipos considerados alternativos. E desde criança eu quis ter um cabelo curto e bem colorido, como o da Annie Lennox na época do Eurythmics. E sempre teve aquela história do "cabelo curto é cabelo de homem". Não ligava, queria porque queria. Mas por ser criança, obviamente não tive autorização pra cortar o cabelo ao meu gosto. Só tive essa liberdade aos 18 anos, e ainda fui escondida da família! Todo mundo achava que, por ser gorda, nenhum corte combinava com meu rosto, muito menos um curtíssimo. Mas não foi nada radical, foi um modesto chanel. Foi o que bastou pra eu me libertar do medo do julgamento alheio. A cada ano, o corte diminua um pouco. Porém, na primeira vez que raspei a cabeça, estava passando por muita pressão psicológica na faculdade. Surtei igual a Britney! Mas isso mudou minha vida. Crescemos num meio influenciado pela mídia e pelo machismo...e quando a cidade onde a gente mora tem ares de interior, a cabeça das pessoas não está aberta para coisas tão simples como "cada um cuide da própria vida" e as pessoas te olham feio se você foge do padrão. Eu diria que já nasci fora dele. Com o passar dos anos, a gente vai percebendo como algumas coisas simples são libertadoras. Recentemente voltei a raspar a cabeça mas sem nenhum fator estressante por trás desse ato, apenas pelo prazer de ser livre. Vi imagens de mulheres maravilhosas de cabeça raspada, totalmente desapegadas e resolvi que dessa vez rasparia a cabeça por que queria um descanso pra minha beleza! Sim! Pois cuidar de cabelo cansa! Querer ter cabelo de comercial cansa! Ouvir que homem não gosta de mulher de cabelo curto cansa! Comecei a ver beleza numa pessoa que antes odiava a própria imagem. Senti o alívio de não ter que acordar mais cedo só pra arrumar o cabelo num penteado aceitável socialmente. Jamais questionei a feminilidade de ninguém por causa do comprimento do cabelo e estou ainda mais certa disso agora, que desfilo alegremente com minha cabeça raspada, colorida, pelo trabalho. E não é por ser professora de arte que isso ficou mais fácil. No meu ramo tem pouca gente que foge do padrão. E muita gente fala que eu sou corajosa por ter raspado a cabeça... talvez eu seja, já que muita gente ainda se submete ao gosto alheio em vez de ser feliz. Como dito antes, aqui, no interior do Brasil, as pessoas ainda me olham feio. Devem morrer de vontade de perguntar que doença eu tenho! Raspar a cabeça é um vício! É prático demais viver assim, acordar e já estar pronta! E quando começa a crescer um pouco mais o cabelo, já corro pra aparar! Mas a melhor parte é a liberdade. Sou livre pra ser como eu quiser, pois o que os outros pensam sobre meu cabelo não me importa mais."

Jenifer Pino Da Silva:

"A ideia de raspar a cabeça me veio após decidir tatuar a cabeça toda, já não gostava de ter cabelo e seguir padrões de beleza, pois pensava toda mulher tem sua própria beleza.

E é dessa beleza incomum que quero ter e tenho hoje em dia, pois me amo assim, nem liguei para o que iriam falar, queria mais me sentir bem mesmo que fosse careca. 

Ser uma mulher careca já é (nossa que absurdo) ainda mais se for tatuada e diferente perante a sociedade é uma coisa que sempre quis fazer que era não mais cabelo, me sinto mais eu e maravilhosa todos os dias."

Como vimos, as motivações são diferentes, mas o importante neste processo todo é que a mulher tenha a liberdade de escolha sobre seus atos e que não se sinta mal ou culpada por não estar seguindo um padrão sobre como é esperado que as mulheres aparentem. 

Cabelo cresce, é verdade. E algumas vezes o processo de crescimento não é fácil, mas tenho certeza que quem passa pelo processo de raspar os cabelos consegue enfrentar muito melhor as complexidades relacionadas às construções da feminilidade da mulher na sociedade.



E você, já raspou os cabelos? 
Considera fazer isso algum dia? 

Conta sua história pra gente!



Convite: apoie a campanha de 10 anos de blog!





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31 de outubro de 2017

Conheça SABAT, a revista especializada em Bruxaria

Na década de 1990, houve uma intensa redescoberta pela bruxaria, a qual resultou em filmes como Jovens Bruxas e séries iguais a Charmed, Buffy, A Caça Vampiros e Sabrina, Aprendiz de Feiticeira. Essa atmosfera retornou há pouco tempo, tomando força pelo crescente interesse da nova geração pelo Feminismo. A união desses elementos acabaram impulsionando o nascimento de uma revista: a Sabat.

Revista sobre bruxaria - A Donzela
The Maiden

A ideia tinha formato de zine no início, e pertencia ao mestrado de jornalismo de moda da norueguesa Elisabeth Krohn no renomado London College of Fashion. Sabat acabou então evoluindo para revista, sendo lançada impressa em Março de 2016 com quase duzentas páginas sobre bruxaria e feminismo, arquétipos femininos e arte contemporânea. Surgindo na hora certa, a publicação ganhou notoriedade de forma orgânica, sendo apresentada em diversas matérias de mídias alternativas britânicas.

Revista sobre bruxaria - A Mãe
The Mother

Krohn já revelou em entrevistas que a Sabat é uma revista que fala de bruxaria encorajando e orientando os leitores a encontrarem seus poderes dentro de si. Com olhar moderno, utilizou o Instagram como sua maior fonte de pesquisa e a #witchesofinstagram serviu de inspiração para Elisabeth perceber o interesse ao tema, entrando em contato com pessoas envolvidas com o movimento, o que a ajudou a descobrir diferentes tipos de feitiçarias, ampliando o seu conhecimento e recebendo contribuições de bruxas ao redor do mundo. 


A bruxa é uma figura de resistência?  
Sim e uma poderosa. O que realmente gosto da bruxa é que em qualquer encarnação, ela mantém um senso de individualismo e independência, de ser o estranho ou o arquétipo ambivalente necessário que desafia o status quo em suas políticas, pensamentos, práticas ou simplesmente no seu modo de vida. Elisabeth Krohn para We Are Grimoire.

Cada publicação envolveu buscas que levassem a visões alternativas sobre o feminino. Por isso a criadora tinha o objetivo de lançar apenas três revistas, seguindo a concepção da Deusa Tríplice: Donzela (The Maiden), Mãe (The Mother) e Anciã (The Crone), nomes que batizam cada edição e refletem a tradição pagã dos três estágios da mulher. "Maiden era uma bruxa adolescente que encontrou os seus poderes. Com a Mother e Crone, acho que fomos capazes de mergulhar mais a fundo no mundo da feitiçaria, mas também em aspectos mais complicados da existência feminina."

Revista sobre bruxaria - A Anciã
The Crone

Entre os assuntos abordados está incluída a Moda, porém esta sendo apresentada tentando fugir do esteriótipo "witchy", evitando marcas especializadas nesse tipo de vestuário e colocando outras, como Céline e Acne. A última publicação saiu em Março de 2017, fechando o ciclo. O resultado positivo, além do esperado, abriu espaço para novos projetos. A segunda edição ganhou um prêmio de design da D&AD e o mais legal é que o Diretor de Arte - e fundamental no apoio para existência da ideia de Krohn - é o brasileiro Cleber Rafael de Campos.



Ficamos a espera de novidades e quem sabe, que elas possam chegar até o Brasil, já que aqui existe uma rica história de rituais e tradições religiosas e que infelizmente vem sendo apagada por puro desconhecimento e intolerância.

https://www.facebook.com/sabatmagazine/
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21 de outubro de 2017

Um tributo a Carrie Fisher, a eterna Princesa Leia de Star Wars

Em dezembro de 2016 morreu um ícone do público nerd: a atriz Carrie Fisher, famosa por interpretar a Princesa Leia na série de filmes Star Wars. Ela foi vítima de um ataque cardíaco fulminante, aos 60 anos de idade.


Como fã de Star Wars, fiquei chocada com a notícia e demorei muito tempo pra realizar o que de fato tinha acontecido. A primeira coisa que me veio a cabeça é se Carrie já tinha finalizado a participação dela no próximo episódio da série, "The Last Jedi" (previsto para estrear em dezembro), porque eu não queria que transformassem ela em um holograma (embora o holograma de Peter Cushing em Rogue One tenha ficado ótimo).

Ícone da cultura pop:
Princesa Leia com o rosto pintado como David Bowie e com os dizeres "Rebel".

Alguns podem achar estranho eu estar aqui lamentando a morte de uma estranha, mas a Princesa Leia formou parte da minha personalidade e tenho certeza que ela formou a de muitas outras meninas e mulheres por aí. Ela nos mostrou o que era uma feminista mesmo sem nunca termos escutado essa palavra antes.


Leia mostrou que as heroínas podiam ser tão fortes e corajosas como os heróis, que elas podem se virar sozinhas, organizar seus próprios resgates, sem precisar que os homens as salvem (enredo do Episódio IV, "A New Hope"). Relembrando sempre que isso não era muito comum no cinema naquela época: a estreia da personagem foi no primeiro filme da série, Episódio IV, em 1977. E Leia foi uma das únicas Skywalker que jamais caiu na tentação do lado negro da Força, sendo uma personagem que foi fiel a si mesma durante toda a história da saga. E ensinou também que mulheres podem sim ser líderes da rebelião, generais e chefes de Estado da galáxia!


Leia: lugar de mulher é na rebelião!
Carrie_Fisher


Além de tudo, foi uma personagem em que eu, quando era pré-adolescente, podia me espelhar: ela tinha a mesma cor de cabelo e de olhos que eu, e para uma pré-adolescente, representatividade é tudo! Pra mim era um milagre ter uma personagem principal – que era muuuuuito legal! – que não fosse loira de olhos claros e não estivesse seminua nas cenas ação. Leia era rebelde, entendia de armamentos, era líder da rebelião. E além de tudo, usava umas roupas muito legais, sem apelo sexual. A única exceção é quando ela vira escrava de Jabba The Hutt, no Episódio VI, Return of the Jedi, o que é bem simbólico.

A maneira de humilhar a personagem é colocá-la de biquíni, vulnerável, exatamente o oposto do que ela é. No fim, a própria Leia é responsável pelo assassinato de Jabba, matando assim o seu algoz. 


E Carrie Fisher foi o rosto de tudo isso. Como ela mesmo já disse inúmeras vezes “eu sou a Princesa Leia, e a Princesa Leia sou eu”. Carrie era uma grande entusiasta de Star Wars. Dava com a língua nos dentes sobre os novos roteiros várias vezes, era engraçadíssima, escrevia super bem e passou a vida toda lidando com a bipolaridade, a depressão e a baixa autoestima, inclusive publicando livros e artigos sobre o tema.

Sobre o visual da personagem, a característica mais marcante são os coques laterais que identificam a referência à princesa em qualquer lugar que seja. George Lucas, o criador da série Star Wars, necessitava criar visuais alternativos para os seus personagens, já que a história se passa em outras épocas e em outros mundos. O visual da Leia necessitava ser rebelde, revolucionário, pois se tratava da líder da Aliança Rebelde. Segundo Lucas:
No filme de 1977, eu estava trabalhando duro para criar algo diferente que não era fashion, então eu escolhi um visual de uma espécie de "Pancho Villa" feminina, uma mulher com um aspecto revolucionário. Os ‘montes’ de cabelo dos dois lados da cabeça são característicos da virado do século 20, no México.” 
 
Os cabelos da Leia foram inspirados nos das guerrilheiras que participaram da Revolução Mexicana no início do século 20. Melhor referência que essa não poderia existir!


Confirmando a reapropriação que a personagem sofreu depois, como um ícone de resistência feminina e um símbolo rebelde, uma manifestação de mulheres americanas contra Donald Trump, em janeiro deste ano, fez várias referências à Leia:

“Princesa Leia não deixaria isso acontecer”

“Nós somos a resistência”

Pra finalizar, deixo algumas imagens do figurino nada convencional de Leia: muito branco, tons terrosos, estampas militares e roupas associadas ao guardarroupas masculino.



No Star Wars Celebration deste ano foi lançado um vídeo tributo à Carrie, pontuando algumas coisas que estão neste artigo. Segue:




Que a Força esteja com você Carrie!





Autora:

Nandi Diadorim.

Historiadora e professora na rede municipal de ensino no Rio Grande do Sul.
Guitarrista em uma banda de punk rock.
Cachorreira, gateira, vegetariana, feminista...em suma, a incomodação em pessoa.





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Artigo de Nandi Diadorim em colaboração com o blog Moda de Subculturas. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui presente sem autorização prévia do autor. É permitido citar o texto e linkar a postagem. É proibido a cópia da ideia, contexto e formato de artigo. Plágios serão notificados a serem retirados do ar (lei nº 9.610). As fotos pertencem à seus respectivos donos, porém, a seleção e as montagens das mesmas foram feitas por nós baseadas na ideia e contexto dos textos. 

1 de agosto de 2016

O feminismo vendido como produto + Spice Girls e Girl Power

Há um tempo tenho observado diversas marcas usando frases como "Girl Power" e outras mensagens feministas como produtos de moda. Não há nada de errado em blusas com frases de efeito, na verdade isso é uma técnica de protesto através da Moda que eu apoio. A questão levantada aqui é o uso de pautas feministas pura e simplesmente por modismo descartável produzido em massa e que passam longe do conceito da empresa.  

Quando pautas feministas viram produtos comercializados em massa ou fora de propósito, tem seus significados esvaziados e logo perdem força. Uma das formas do sistema dominante tirar a força de uma causa é se apropriando dela. É um "truque" muito bem elaborado. Não apenas o feminismo mas outras causas sociais de igual importância costumam ter suas lutas cooptadas quando começam a se sobressair.


Muitas mulheres estão engajadas com o feminismo no dia a dia, seja politicamente, em grupo ou solitárias. O feminismo tem sido debatido em diversos sites ao redor do mundo conscientizando cada vez mais. Atento à isso, as empresas visando ganhar a simpatia destas mulheres passam a fazer campanhas de marketing e criar produtos que reflitam pautas da ideologia. Assim como grandes empresas, marcas alternativas também tem embarcado nessa pra acompanhar as trends. 

Mas deixo um alerta: não se pode dar um passo maior que a perna e vender algo que não possam sustentar. A partir do momento em que se é dono de uma marca e usa-se do marketing para divulgar as peças, deve-se evitar esvaziar o significado de qualquer causa social que esteja em evidência. Deve-se ter responsabilidade sobre o que está vendendo especialmente se seu público alvo é muito jovem.

Desde o último ano, centenas de lojas online apareceram com o mesmo tema de coleção: anos 90, pegada Clubber, Kawaii, Riot Grrrl e "empoderamento feminino". No embalo destas tendências querem aliar a imagem da marca ao estilo "cool" mas acabam prejudicando de alguma forma os movimentos sociais e políticos.


Como lidar quando uma loja anuncia que vende "looks para todos os corpos" com modelos "plus size" na foto de marketing, mas ao analisar o catálogo, a maioria absoluta das roupas vendidas
vão apenas até o tamanho G?
@gypsywarrior

O movimento Riot Grrrl que informava sobre feminismo e incentivava meninas a terem suas bandas, também tem seu conceito vendido como produto de moda.
@gypsywarrior

Colar "Riot Grrrl" da Disturbia. A marca sempre focou no gótico e no ocultismo, sendo uma das lançadoras desta tendência. O que os fez vender um produto tão diferente do que costuma ser seu catálogo? Oportunismo comercial?

@Disturbia Clothing

Não há inocência no mercado. O mercado quer vender. Se uma marca está vendendo “girl power" ela precisa oferecer produtos que cheguem à todas as mulheres (Helena do blog Garotas Rosa Choque escreveu um post sobre blusas "empoderadoras" que só vem em tamanho P).
Se uma marca quer empoderar mulheres, que tomem como exemplo outras marcas que já fazem sem utilizar a banalização do feminismo: reestruturando seus conceitos e visões de mercado. Se engajando pessoalmente em movimentos ideológicos que se identifica, assim a mudança pessoal se refletirá naturalmente no trabalho sem precisar reproduzir um estereótipo vazio de significado.
Não dá pra vender girl power se a marca não abraça e dá "poder" às mulheres que visa como público alvo. Um exemplo muito conhecido dessa confusa mistura de moda, feminismo e comércio  são as Spice Girls. 




Em meio as comemorações dos 20 anos do single "Wannabe", tem se falado muito sobre o girl power do grupo pop que influenciou diversas meninas. Pra falar sobre isso vou levantar alguns fatos daquela década:
- Fundada em 1988, a revista feminista Sassy é lida por adolescentes até seu fim, em 1994.
- Em 1991 surge o movimento Riot Grrrl que perdura até 1997.
- Em 1995 a banda Shampoo lança seu álbum chamado Girl Power [video].
- Gangs de meninas estavam em voga na mídia, como as Patricinhas de Beverly Hills, Jovens Bruxas e em grupos como TLC, Salt-N-Pepa: garotas de atitude e de sexualidade agressiva.

Foi na década de 1990 (como abordamos aqui) que a cultura alternativa passou a ser cooptada em definitivo pelo mainstream. De lá pra cá, o sentimento e o comportamento de grupo perdeu lugar para o individualismo. Este comportamento de grupo era típico dos movimentos feministas dos anos 1960, 1980 e das Riot Grrrls. O “feminismo” das Spice Girls sugeria uma “sisterhood”, onde amigas se ajudavam a serem mais autoconfiantes. Mas esse tipo de mensagem pouco fez efeito em mudanças sociais, pois elas já estavam na onda individualista, tanto que cada uma tinha um estilo próprio. Muitas meninas tiveram contato com essa abordagem de empoderamento individual, mas sem o engajamento político nas causas feministas. 


As Spice Girls e o Girl Power como produto
As Spice eram um grupo concebido por empresários e Geri Halliwell era a mais envolvida nas composições. Elas tinham essa ideia maravilhosa de "fraternidade feminina" que infelizmente foi abafada pela imensa dimensão comercial que elas tomaram como artistas. De repente aquele Girl Power empoderador virou diversos produtos: pirulito, bolsa, chiclete, Pepsi, maquiagem, bonecas (veja lista aqui), roupas, um "feminismo" divertido e fofo sem criticas sociais e de gênero, tudo dentro das tendências de consumo do mercado adolescente. 




Wannabe” é uma canção que prega o valor da amizade entre mulheres mas segundo o documentário feminista "Atitude Cor de Rosa" [teaser aqui], peca na parte principal, quando as garotas dizem o que querem:

“tell me what you want, what you really, really want” 
(me diga o que você quer, o que você quer muito, muito mesmo)
"I wanna, I wanna, I wanna, I wanna, I wanna really Really really wanna zig zig ha."
(eu quero, eu quero, eu quero, eu quero, eu quero muito muito mesmo zig zig ha)


As mulheres querem muito, mas muito, muito mesmo tantas coisas, mas na letra elas querem justamente algo que não significa nada: "zig zig ha". É um exemplo do esvaziamento de fala de mulheres quando chegam na posição de dizer o que querem e o que pensam. Quando elas finalmente estão com toda atenção para si, com as roupas certas e atitudes certas, o que sai de suas bocas é um desejo vazio de significado que ninguém entende. É como colocar uma mulher pra discursar num palanque mas quando ela abrir a boca, ao invés de um discurso eloquente, sair um monte de balõezinhos de blablabla e mimimi. Ou como o estereótipo da mulher linda e burra que não fala nada com nada ou da intelectual chata que precisa ser silenciada.

O “zig zig ha” é como uma metáfora de tudo isso, porque visualmente o estilo e o comportamento das Spice tinha atrevimento e provocação. Era comum na década de 1990 a ideia de “ter atitude". Isso diferenciava uma garota 'normal' de outra mais ousada ou alternativa. As Spice eram desbocadas, Victoria não sorria nas fotos, Geri quebrou o protocolo num nível altíssimo quando apertou a bunda do Príncipe Charles. Elas batiam de frente com a ideia de garotas serem Barbies ou Princesas Disney, tanto que Mel C tinha um visual bem moleque. Eram sensuais sem neuras quanto às suas sexualidades, sem se preocupar com julgamentos. E naquela época ainda era tabu falar abertamente de sexo. 
Mas feminismo é um movimento de engajamento político e isso elas não tinham.



A formação da mentalidade de consumo feminino através da Moda.
As Spice fizeram um bom trabalho influenciando garotas à sua maneira. Mas hoje, percebemos que aliar consumo a feminismo não é um bom negócio. É bom problematizar um pouco quando começamos a perceber como o patriarcado vende as mulheres para mulheres. 

O marketing quando usado em parceria com a música pop tem um alcance que o alternativo não tem. Ele consegue atingir justamente quem necessita ouvir esse tipo de mensagem. A cantora Shirley Manson e Kathleen Hanna (uma das criadoras do movimento Riot Grrrl) elogiam Miley Cyrus, o que nos deixa intrigadas sobre algum lado da Miley que não conhecemos. O pop e o alternativo podem ter relação sim, especialmente se há ideologias em comum. Kathleen Hanna hoje dá entrevistas para veículos que jamais daria na época de Riot Grrrl, porém, nunca a vimos dar um elogio sequer às Spice.

As Riot Grrrls, criadoras* do termo Girl Power, eram contra o feminismo sendo usado como mercadoria a ser consumida e hoje consigo entender o porquê: porque feminismo é uma causa política muito séria que envolve mudanças comportamentais e sociais muito grandes que nem todos estão dispostos a fazer. E justamente estes que não estão dispostos a ceder seus privilégios ou que podem ser prejudicados é que ajudam a abafar lutas sociais de mudanças de mentalidade e comportamento.

A moda é uma das indústrias mais poderosas do mundo, ela molda os gostos das pessoas. Ela dita comportamentos. A moda decide o que você vai comprar neste verão. Diz o que você deve exibir pra ganhar status. A moda tem um poder absurdo na formação da mentalidade de consumo das mulheres. A moda sabe que mulheres compram o que é vendido de forma “certa”. 
A moda prega o individualismo. Só que qualquer mudança social que quisermos não faremos sozinhas, individuais, só faremos reunidas em grupo. E garotas jovens buscando esse individualismo são o consumidor foco dessa indústria poderosíssima que não está interessada em ideologias, mas sim em lucros. 


* criadoras no sentido em que conhecemos hoje, aliado ao feminismo.

Direitos autorais:
Artigo original do blog Moda de Subculturas, escrito por Sana Mendonça e Lauren Scheffel. 
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