Destaques

2 de janeiro de 2021

Mande suas dúvidas sobre subculturas, tribos urbanas e moda alternativa!

E começou 2021! 

Como informado em nossa carta de 2020, temos em mente um projeto à médio prazo. E contamos com a participação de vocês!

Convidamos você a responder as questões abaixo - outras questões virão e este post será atualizado com elas, mas publicaremos tudo primeiro no Instagram, então nos siga por lá!

 @modadesubculturas


duvidas-subculturas-tribos-urbanas

Pode ser a questão mais boba ou a mais complexa, não importa! Não temos preconceito de tema nem de estilo, época ou teorias... Aquilo que vocês sempre quis saber sobre subculturas e moda alternativa mas não sabia onde perguntar! Escreve nos comentários ou comente neste post do insta.




São tantas nomenclaturas e conceitos... mas será que estão devidamente claros para a população? A linguagem acadêmica e o academicismo pode por vezes mais dificultar do que facilitar a difusão do conhecimento produzido por teóricos e pesquisadores. Quando isso acontece e porque ocorreu uma falha na comunicação. Consideramos necessário que o conhecimento chegue em linguagem acessível a todos. Chegou nossa vez de saber qual termo/conceito você tem mais proximidade e se tem alguma questão sobre ele(s). Escreve nos comentários ou comente neste post do insta.



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Direitos autorais:
Artigo original do blog Moda de Subculturas, escrito por Sana Mendonça e Lauren Scheffel. 
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30 de dezembro de 2020

Entrevista com a modelo alternativa Sarah Amethyst - "não resisto ao caricato e ao exagero"

Sarah Amethyst, 25 anos é produtora de moda e uma das principais modelos alternativas da atualidade, tem como marcas a versatilidade e a criatividade. Nessa entrevista exclusiva cedida em 2019 para a edição comemorativa dos 10 anos do blog Moda de Subculturas, ela revela detalhes de seu processo criativo, de seu desenvolvimento estético e pessoal. Entrevista feita por Sana.


Créditos das fotos:

Modelo: Sarah Amethyst: @thequeenofhurts
Fotos: Carol Sakuma @carol_sakuma e Matheus Pinheiro @omatheuspinheiro
Cabelo: Rodrigo Lima @rodrigo.circus e Ellen @thehellstylist
Maquiagem: Rafaella Saldanha @ellasaldanha
Assistentes: Patricia Saito @patisaito e Ilka Rehder @starduztz


Como foi sua inserção na cultura alternativa?

Isso já faz tanto tempo que eu sinceramente não consigo puxar um ponto exato na memória, mas lembro de desde muito nova sentir uma sensação de deslocamento muito grande que e que essa sensação de inadequação me levou a ler, ouvir, assistir e conhecer outras coisas. “Tudo que amei, amei sozinho”, sabe? Sempre fui muito de ler e utilizei muito bem a era da internet pra procurar (e criar) um mundo com o qual eu me identificasse. Muito nova me lembro de ser fascinada por figuras excêntricas como a Elke Maravilha, Brody Dalle, Siouxsie, as drags brasileiras, mulheres como a Dita Von Teese, os trabalhos da Vivienne Westwood, esbarrar no Visual Kei e cultura pop japonesa, sua moda de rua, as subculturas, a cultura LGBT. Foi um abrir de olhos muito grande encontrar pessoas que também eram esquisitinhas e que criaram a si mesmas do jeito que queriam, que eram bonitas segundo seu próprio parâmetro. Uma vez que pintei parte do cabelo de colorido (isso aos 11 anos) nunca teve volta, só fiz puxar o fio cada vez mais.


Por que “Sarah Amethyst”/Haus of Amethyst? Conta a história de seu nickname!

O Amethyst é pela minha identificação com a história da pedra ametista ao longo do tempo: Tradicionalmente as pedras eram divididas entre preciosas e semipreciosas. As preciosas são rubi, esmeralda, safira e diamante, mas a ametista já fez parte dessa categoria como uma grande favorita e podia ser encontrada em joias importantíssimas como as da coroa britânica, por exemplo. Ela perdeu seu posto quando grandes jazidas foram encontradas no Brasil e isso diminuiu seu valor de mercado. A pedra continuava a mesma em beleza e propriedades, a única coisa que mudou foi a percepção das pessoas sobre ela.

Eu sou uma pessoa comum, não nasci princesa, herdeira, predestinada a grandes feitos, excepcionalmente bonita ou habilidosa nem nada do tipo. Nunca fui considerada um ‘diamante’ pela vida, mas isso nunca me impediu de brilhar e de fazer o que eu queria: eu me construí, preguei strass, costurei, maquiei, posei e improvisei até chegar onde estou. O valor que as outras pessoas me deram, seja ele alto ou baixo, nunca definiu o que eu poderia ser. A Haus nasce daí, também, dessa vontade de mostrar pra quem me acompanha que ninguém precisa nascer diamante pra poder se permitir ser o que quiser. Somos pessoas comuns se criando de maneiras fantásticas e brilhando na feirinha hippie da mesma forma que brilharíamos pra rainha, igualzinho uma ametista que, aliás, é a pedra da transmutação e transformação. Todo mundo que tiver a vontade de se criar e transformar é bem vindo na Haus of Amethyst.


Quando foi que você desistiu de estilo mainstream e resolveu abraçar o alternativo? Com quantos anos você descobriu seu estilo?

Eu comecei a experimentar bem novinha (lá pros meus 11 anos) mas jamais descobri meu estilo: sigo descobrindo ele a cada dia e a cada dia ele se reinventa. Eu acho que nunca desisti de ter um estilo mainstream porque a última vez que tive um era quando a minha mãe me vestia. Nunca foi uma escolha minha. Assim que eu comecei a ter minha autonomia e a escolher as coisas que usava foi quando eu comecei a criar asas pra voar.




Por que escolheu a graduação em Moda? O que achou do ensino?

Eu brinco que não escolhi a moda, a moda me escolheu. Nos meus primórdios eu era muito envolvida com a moda de rua japonesa e isso numa época onde não havia facilidade na importação e nem lojas nacionais especializadas. Eu desenhava meus croquis sonhando com as coisas que não conseguia vestir e gambiarrava todas as minhas produções, fui adquirindo prática e referência. Não sei exatamente quando foi, mas um dia percebi que essa construção era uma parte tão imensa da minha identidade que eu não conseguiria abrir mão por um emprego convencional e tinha que encontrar um lugar em que eu pudesse explorar isso: a moda apareceu como consequência: eu já tinha algum conhecimento e gostava, por quê não?

O ensino foi bem abrangente, na verdade. Claro que tenho minhas críticas, mas num geral a faculdade me ensinou um pouco de tudo na área da moda. Meu ensino foi mais voltado pro lado comercial, então senti falta de poder ser mais liberal com as minhas excentricidades e conceitos (que é justamente onde eu brilho), mas levando em consideração o fato de que eu não quero passar fome pra mim tá ótimo.


Como foi o processo de pesquisa acadêmica do seu TCC e qual o tema?

Foi a subversão da moda histórica através da moda alternativa: em linhas gerais, sobre como a moda histórica traz certos itens que funcionam como identificadores sociais de poder/riqueza e como esses itens muitas vezes restritivos ou considerados exclusivos são subvertidos como signos de identidade/inconformismo pela moda subcultural depois. Tem toda uma problemática sobre como é a transição da pessoa alternativa da adolescência pra idade adulta, como a sociedade coloca a identidade alternativa como ‘coisa de jovem ‘, em como é frustrante deixar a identidade que se construiu a adolescência toda para trás e em como remendar essa frustração através de roupas mais adequadas a rotina adulta sem perder a questão da identidade visual. Sinceridade? O tema foi aceito aos trancos e barrancos, todo mundo me falava que dava pra fazer e era ousado mas que ia ser pedrada primeiro porque eu claramente sou ligada ao tema e meu próprio público-alvo (tabuzíssimo) e segundo porque a visão que a academia tem da moda alternativa muitas vezes não condiz com a experiência que nós, inseridos nas subculturas, temos. Aliás, a palavra ‘subcultura’ é outro tabu. A pesquisa acadêmica felizmente contou com uma orientação competentíssima que me ajudou a encontrar material, mas muitas vezes o material de fato contradizia minha experiência: tipo a vez em que estava procurando referências sobre as lolitas e um dos poucos livros que as mencionavam por meio parágrafo chamavam a moda lolita inteira de ‘lolitas góticas’, termo tosquíssimo e datado que ignora a existência dos outros trocentos subestilos lolita e tradução que causa tremedeira em qualquer pessoa que já fez ou faz parte da comunidade. Quase tive um AVC mas sobrevivi e terminei o TCC (sem essa citação, claro. Tenho meus brios).


Como graduada em moda, você deve ter um olhar crítico ao tema, como enxerga a moda alternativa brasileira hoje?

Vejo que felizmente está em expansão. Já é um mercado melhor do que quando eu comecei. Aos poucos cresce a vontade do consumidor de entender melhor o que compra e há uma resposta legítima das lojas que se mostram mais profissionais e querem entender o consumidor, se preocupam mais com a construção de imagem de moda, qualidade das peças, produções fotográficas e mídias sociais como forma de se aproximar do seu público e apresentar a ele o melhor que podem oferecer. É muito incrível perceber que uns anos atrás a nossa mentalidade era ‘eu quero ter o que as gringas têm e nunca chega aqui’ e que agora o foco já não é mais tanto perseguir a tendência gringa, seguir a modelo gringa, querer o sobretudo de inverno da modelo gringa porque é sua única referência mesmo estando num país quente. Estamos conversando muito mais entre nós, tendo referências brasileiras, seguindo modelos brasileiras, desejando peças brasileiras. Finalmente começa a aparecer a vontade de criar pro nosso público levando em consideração o nosso clima e particularidades e eu estou amando cada segundo.



Por que e quando decidiu se tornar modelo alternativa?

Já na era das camerazinhas mequetrefes de celular eu decidi registrar algumas coisas que eu fazia de maquiagem e experimentações de moda pra mim mesma, só pra guardar minha evolução. Fui me soltando, postando pros amigos e depois de um tempão (anos mesmo) alguns acabaram entrando pra ramos artísticos e queriam colaborar comigo, conheci gente na internet e trombei fotógrafos que me chamaram pra posar as primeiras vezes bem naquele esquema me-ajuda-que-eu-te-ajudo. Peguei gosto. Lembro de que na adolescência eu era muito parada na rua por gente que fazia pesquisa pra marcas e pelos ‘coolhunters’ (aquele pessoal que caça tendências e tira fotos de looks interessantes nas ruas pra repassar o que viram pra designers de moda criarem em cima disso) e comecei a pensar: se todo mundo tá ganhando e criando em cima do meu estilo, por que eu mesma não faço isso? Daí foi ladeira abaixo, corta pra 2019 e eu estou aqui hoje dando uma entrevista pra você porque decidi fotografar minhas maquiagens de batom preto feito de lápis de olho e roupas de cola quente um dia


Você já usa cabelos coloridos há um bom tempo, o cabelo azul virou uma marca registrada. Conte sobre suas inspirações capilares e como desenvolve seus penteados e maquiagens.

Doze anos de colorido. Dia desses fiz as contas e percebi que meu período de colorido já é maior que o tempo que passei sem pintar, já tive todas as cores (exceto loiro) e embora azul seja minha favorita eu gosto de acreditar que minha marca registrada não é uma cor, é justamente a capacidade de usar os cabelos tão bem que aquilo imediatamente se torna parte da minha identidade. Minhas referências de penteado e make foram muito diversas ao longo da vida, mas sou muito inspirada por história da moda então viajar pelas eras é minha grande inspiração: todas as décadas do século XX, o período rococó, enfim, trazer o passado pro futuro e o futuro pro passado. O processo de desenvolvimento é mais um processo de adaptação na verdade, eu tô sempre buscando referências do que quero fazer e pensando em como adaptar isso pra mim e com o que tenho em casa, isso pra make e penteado. É quase impossível encontrar um tutorial que funcione pra mim por causa da franjinha e das laterais raspadas, daí preciso improvisar muito. Até penteado barroco já saiu nele, tudo é possível.


Seu trabalho era bastante associado à cultura pin-up e boudoir, o que te levou a partir pra um lado mais diversificado?

Na verdade foi bem o inverso. Eu comecei a fotografar sozinha na época em que eu era apenas uma jovem que cortava e raspava o cabelo multicolorido na pia de casa(um chanelzinho que parecia cortado no liquidificador com um moicano embaixo) e eu trazia com força essas referências new wave, góticas, pop art, drag, club kid, visual kei, lolita, tudo. Calhou de pin-up e burlesco ser realmente a última coisa que tive coragem de fazer porque não me sentia convencionalmente ‘bonita’ de um jeito adulto como espera-se de uma, foi a fronteira final que eu realmente só fui romper depois de um bom tempo (e justo na época onde eu estava me estabelecendo fotograficamente). O que faço hoje em dia na verdade é um resgate dessa força criativa diversa e dessas referências que eu tinha no passado, inclusive várias fotos de hoje são recriações de coisas que fiz nessa época. Ainda considero pin-up como meu carro-chefe atualmente e tenho fases de me empolgar mais com uma coisa ou outra mas eu quero sempre explorar e misturar todos os meus lados, pois são todos verdadeiros.




Você acompanha tendências e modas alternativas, desenvolvendo visuais ou ensaios com as novidades do mercado. Com tanta informação, como você arranja tempo de ser manter atualizada e faz a seleção de peças que valem a pena o investimento?

Eu só não jogo nada fora. A moda é muito cíclica, vez outra vejo uma peça que peguei pra mim do guarda-roupa da minha mãe nos anos 80 ascender ao posto de it-coisa e só dou risada. Meu acervo é até mais reduzido do que vocês pensam, ele só é extremamente versátil. Como uso redes sociais pro meu trabalho acabo sempre vendo o que o pessoal da minha bolha usa e não estou acima de ser influenciada pelo inconsciente coletivo e pelas tendências atuais (especialmente porque hoje em dia recebo coisas de lojas também), mas grande parte do tempo é mais um ‘nossa, eu tenho isso no guarda-roupa e esqueci!!’ e ‘dá pra fazer isso se eu juntar x e y que já tenho e fizer um acessório Z’ do que ‘preciso comprar.’ Aliás eu tenho ressalvas muito grandes em comprar coisas, sempre espero um período de pelo menos 3 meses pra decidir se eu quero realmente algo ou se só quero porque vi muita gente usar: enquanto isso pesquiso, vejo resenhas, pergunto a quem comprou se vale a pena.


Você desenvolve visuais inspirados na era Rococó, porque esse período te atrai?

Eu não resisto a um caricato e a um exagero, e esse período foi simplesmente insuperável. Até hoje fala-se do quão ultrajantes eram os trajes do período, da importância que a moda teve inclusive na própria revolução francesa e em Maria Antonieta, considerada a rainha mais opulenta pagando por isso não só com a própria cabeça como também com a fama eterna de rainha vil que mandava plebeu comer brioche se faltasse pão (citação falsa, aliás). É toda essa fantasia muito louca de que a vaidade e consumismo de uma única mulher foi capaz de afundar um país inteiro, essa ideia de como o abuso fashion e hedonista da aristocracia rompeu tanto limite que só poderia acabar de maneira trágica. O filme da Sofia Coppola veio depois da minha obsessão, mas admito que aquela trilha sonora toda trabalhada no 80’s (outra década de exagero e cabelos enormes) só aumentou meu amor.


Você sempre posta sobre suas visões de moda e conceitos dos ensaios. A cultura de moda é restrita a uma pequena 'elite da moda', acha que existe ainda um longo caminho na compreensão de que moda também tem sua importância social que vai além de marcas e modismos? 

Com toda certeza. A intenção de expor o que tem atrás da cortina nos meus ensaios é uma tentativa de democratizar um pouco esse conhecimento de moda e, também, de me diferenciar num mercado que produz milhares de imagens estonteantes por segundo como é o das redes sociais. Eu acredito que meu trabalho fale por si, mas por que permanecer silenciosa sobre ele só porque os arautos da moda convencionaram que é adequado? Quando me abro sobre isso dou a chance de outras pessoas também saberem o quanto me esforço e tenho paixão pelo que faço e esse entusiasmo é capaz de trazer as pessoas pra perto da moda. Quando seu público vê que existe esforço, amor, conhecimento, estudo e paixão que gerou essa imagem ele se fascina pelas coisas que você trouxe e te vê como bem mais do que uma foto bonita ou uma “influenciadora” que ele gosta porque indica tendências, seu público te vê como uma pessoa que é referência e um ponto de partida pra quebrar preconceitos que ele tinha. Perdi as contas de quantas vezes ouvi que meu trabalho fez alguém perceber que modelos e trabalhos na área da moda não precisam ser fúteis: podem ser arte, história, discurso muito além de tendência e marca. É pra isso.




Além de modelo, produtora de moda você também é performer e DJ. Ser multi-artista é uma das formas de se manter atuante na cena alternativa já que esse é um ambiente onde muita gente aparece e depois simplesmente some? Qual a importância de marcar presença e se fazer lembrada por sua arte?

Multi-artista, até emocionei HAHAHAH. Acho que todo alternativo tem um quê de faz tudo porque nossa raiz é DIY, é ir lá e fazer roupa, maquiagem, festa, conteúdo, deixar uma contribuição onde quer que você frequente e de conseguir seu espaço num mundo onde tudo é meio volátil. Eu já tinha o estilo, daí ‘por que não fazer foto?’ frequentava os espaços e ‘por quê não o palco?’ e recentemente ‘por quê não discotecar?’ e assim fui indo. Viver ‘da cena’ sempre foi algo muito distante da realidade e por mais que pareça mais estável hoje do que 20 anos atrás nós ainda vemos marcas, artesãos e casas com dificuldade em se manter no mercado e longe do sustento, daí você tira como é instável a vida da pessoa que tem como portfolio uma rede social que pode simplesmente desaparecer amanhã. A importância de marcar presença é saber que se o instagram morrer meu estilo segue como sempre foi, meus gostos também, meus amigos idem e continuarei trabalhando no que quer que seja: palcos, pickups, fazendo eventos e pronta pra levar meu portfolio, identidade e conhecimento de moda pra qualquer outra plataforma onde ele caiba.


Conte nos o que foi/é o Concurso Miss Pin-up e como foi seu processo de participação saindo de lá vencedora.

O concurso que eu participei duas vezes era o Miss Pin-up The Sailor, até então o mais tradicional daqui de São Paulo. Eu sempre fiz meus estudos de cabelo, make, looks e fotos pin-up muito sozinha. Nunca me vi como potencial participante de concurso de miss mas eu queria conhecer mais as pin-ups daqui, consolidar meu trabalho como uma e me sentir mais inserida no meio de alguma forma. Eu adoro um palco, um desfile, performar, servir um look e toda essa aura de RuPaul’s Drag Race, então deu muito certo e eu me diverti pra caramba. O ambiente é totalmente diferente do que se imagina de um concurso de miss tradicional e conheci muita gente.

Ganhei na segunda vez que participei e nunca acreditei muito no meu êxito, não por achar que não tinha talento mas por achar que não fazia o perfil. Existe aquela imagem da pin-up estonteante e perfeita e eu passei anos lutando contra a minha vontade de me ver como uma porque me sentia uma esquisitona querendo um papel que não cabia, sabe? Fui pela diversão. Levei um vestido que era criação minha pro desfile e praticamente tudo que eu usei foi criado, feito ou customizado por mim, nos desfiles só fiz o que sempre faço. Acabei levando a faixa pra casa e foi uma sensação muito única de valorização e reconhecimento.


Você mora em São Paulo, cidade que tem locais e espaços incríveis que auxiliam no desenvolvimento e permanência de uma cultura alternativa que ultrapassa gerações. Como é seu processo de pesquisa de temas, cenários e locações?

O processo não é muito linear não, o ponto de partida varia muito. Às vezes a ideia começa por um local que eu gosto muito e eu desenvolvo a temática a partir dele, outras vezes eu tenho o conceito e tento encontrar um cenário que se encaixe na proposta, às vezes é uma peça de roupa que me traz uma associação e eu crio algo em cima dela. Nesse ensaio que trouxe pra capa da revista tudo foi desenvolvido meio em conjunto, surgiu uma ideia e as peças se encaixaram ao mesmo tempo. Meu processo de pesquisa é eterno, tudo que eu consumo, ouço, leio, assisto e descubro acaba sendo guardado e usado mais tarde. Eu trabalho muito com mitos e arquétipos que costumam expressar meu momento atual: a viúva negra, a femme fatale, a bruxa, até guerreira intergaláctica já fui. Acho que o que todos os meus temas têm em comum é essa feminilidade dissidente, até meio perturbadora, meio caótica, meio ameaçadora.



Qual a diferença entre o trabalho para catálogos de lojas e seus ensaios temáticos? 

São mundos de diferença. Enquanto o ensaio (especialmente os autorais) têm como objetivo transmitir certa mensagem e as roupas são parte da criação desse cenário todo, no catálogo a roupa é tudo: você precisa saber posar e interagir com a peça de modo a mostrar o melhor que ela tem e seus diferenciais e ter uma gama de poses e expressões sem o auxílio de qualquer prop ou cenário, sem direito a escolha dos looks ou fotos que mais te favorecem e dando tudo de si em TODAS as fotos, porque se a blusa sair linda e você não pode ter certeza que é a foto onde você tá capenga que vai pro site e você tem que lidar com isso. É você, você mesma, a peça e o fotógrafo. Muita gente entra em pânico mas a equipe tá sempre ali pra auxiliar na direção.


Essa é uma pergunta indiscreta: dá pra viver de ser modelo alternativa? No que investe seu cachê?

Não dá. Pelo menos aqui no Brasil, nossa, não dá mesmo. Todo mundo nesse meio faz alguma outra coisa: é youtuber, influenciadora, blogueira, performer, consegue ter um perfil de modelo que permite ser agenciada e trabalhar no meio mainstream ou só tem um trabalho “normal” de semana. Eu mesma faço freelance de tudo que eu consigo pra garantir a ração dos meus gatos. Nosso mercado está crescendo mas ainda não é o suficiente pra isso: os cachês não são sustento, muitas vezes não são em dinheiro e o volume de trabalhos também não é tão grande. É uma carreira que, pelo dinheiro, ainda não compensa: com certeza já gastei muito mais na vida só pra manter meu estilo do que ganhei posando, só compensa porque o estilo realmente já é meu desde sempre. Pra onde o cachê vai depende da minha necessidade no momento: nos tempos da faculdade ia todinho pros trabalhos, hoje em dia vai pro que for mais urgente na minha vida no momento ou eu só guardo.


Conte-nos sobre o ensaio da capa da revista Moda de Subculturas, que também ilustra esta entrevista.

Esse ensaio foi uma ideia gestada durante muito tempo. Assim que raspei as laterais do cabelo o Rodrigo, do Circus Hair, falou que queria um ensaio com meu cabelo novo tipo um moicano imenso e incrível a la Parma Ham e meu próximo plano já era fazer um ensaio relacionado a uma das minhas designers favoritas, a Vivienne Westwood. Juntei as duas ideias e entre idas e vindas acabamos levando um tempão pra executar. Tudo nesse ensaio é referência as eras que o trabalho dela teve (fetiche, referências históricas, o período punk, a escolha do xadrez como constante no ensaio, os alfinetes de segurança, as mensagens sobre moda consciente e ativismo...) e contou inclusive com peças originais da mesma e beauty inspirado na maravilhosa Jordan, que além de ícone punk também trabalhava na loja de Westwood em Londres. A ambientação não poderia ser mais perfeita, o cenário lúdico e circense é visto no trabalho da Vivienne e ornou com perfeição. Tudo no styling desse ensaio foi amarrado com um imenso carinho por mim e é sempre um prazer explorar lados desconhecidos da minha linguagem corporal e expressão, eu adoro um desafio (e segurar esse cabelo por horas certamente foi um). Quando o convite pra participar da revista chegou, essa ideia estava a caminho de ser finalmente executada e eu achei que não havia projeto mais perfeito e que me representasse mais.




Você tem fotos que ficariam maravilhosas se impressas, já cogitou transformar algumas delas em fotografias enquadradas ou fotos colecionáveis?

Com toda certeza, e já ouvi esse pedido antes. A verdade é que não tenho certeza em fazer isso num mercado como o brasileiro onde esse costume ainda é muito recente e onde geralmente o salário já tem destinos mais certos. Não descarto, mas é algo a ser estudado.


Como modelo e mulher de destaque na cena alternativa virtual nacional, existem situações em que ser modelo é visto de forma negativa, quais são essas situações e como as pessoas enxergam sua atuação profissional?

Enxergam da mesma forma que o mainstream. Existe essa cultura muito forte de que a mulher que comete o erro de se exibir de alguma forma é fútil, burra e vazia então existe todo um estereótipo da modelo ‘cabeça de vento’ que só pensa em compras, vaidades, agradar e atrair homens e outras frivolidades como se uma mulher que passa um batom e tira uma foto fosse incapaz de ser qualquer coisa além de uma imagem. Na bolha alternativa é a mesma coisa mas disfarçada com uma roupagem um pouquinho mais bonita de proteger o meio alternativo de ser massificado através dessas mulheres malditas cheias de visual e escravas de aparência sem essência, conhecimento ou conteúdo. Sempre mulheres. Mulher em subcultura é legal pra decorar flyer de festa, passou disso é um incômodo e precisa ter sua credibilidade, gostos, conhecimentos e capacidade intelectual questionada. Não raro você só ver uma mulher sendo enaltecida pelo que fala quando está sendo comparada a outra mulher.

É sintomático como todas as áreas tradicionalmente vistas como femininas (seja moda, maquiagem ou sei lá) são sempre vistas como uma bobagem menor e nunca como uma forma de expressão ou arte. Cabe a mulher o eterno papel da musa maldita, né? É a mesma dinâmica desde sempre: o artista que pinta um nu pertence a um museu, a modelo que se permitia ser vista nua merecia escárnio. Hoje em dia o cara que te fotografa e te veste é um artista, você é um cabide quando muito, uma escada pra genialidade alheia. Ter uma voz mesmo com o meio ao seu redor insistindo em te reduzir a um objeto segue sendo um desafio.


Quais seus conselhos para quem está interessado em começar a modelar?

Façam fotos em casa e conheçam seus melhores ângulos, acho muitíssimo importante pesquisar e treinar poses sempre que possível, criar um certo conforto com a câmera. Hoje em dia além de gerar bastante conteúdo pra internet eu recomendaria pesquisar um bom fotógrafo e iniciar seu portfólio oficial de modelo com um trabalho de qualidade com alguém que saiba te conduzir e extrair o seu melhor.

Não caiam em canto de sereia. É importante lembrar que esse mercado ainda é pequeno, então qualquer promessa de grandes ganhos, fama rápida e vida perfeita é ilusão. É um trabalho como qualquer outro e é bem ingrato, tem dia que não faz bem pra autoestima e você tem que saber navegar por esses momentos. Recebo um sem fim de mensagens de meninas mais novas que desejam entrar pra esse ramo esperando validação, fama, reconhecimento e o tal do ‘quero ganhar dinheiro e mimos pra ser bonita’ que faz elas se desesperarem por qualquer oportunidade. Isso é um prato cheio pra cair em ciladas de maus profissionais que vão se aproveitar disso, seja pra te pagar mal, não pagar ou assediar. Acompanhem o trabalho de quem vocês querem trabalhar junto, peçam recomendações e relatos de meninas que já trabalharam com essas pessoas. E, ah, levem um acompanhante com vocês. Se o fotógrafo reclamar pode desconfiar, eu sempre levo e nunca tive problemas.




Você resolveu entrar de cabeça na cena alternativa mesmo sabendo das dificuldades, pois muita coisa é feita na raça e de forma independente. Você sente uma melhora na cena na questão de espaço e profissionalismo? O que acha que falta e que precisa melhorar?

A melhora está vindo, mas ela é lenta e gradual. Alguns anos atrás o conceito de modelo alternativa fashion era quase desconhecido pro grande público (era tudo mais voltado pro sensual e nu a la Suicide), hoje já temos algumas figurinhas carimbadas que de forma independente foram abrindo caminho na cena, amanhã esperamos que esse mercado cresça e se abra mais ainda pra comportar mais gente. Eu acho que a mudança na questão do profissionalismo já está acontecendo, mas é preciso lembrar que todo mundo nesse mercado tá desempenhando um trabalho e tentando viver dele. As lojas estão produzindo vestuário, as modelos estão lá pra apresentar esse vestuário da melhor forma possível, as influenciadoras estão divulgando essa marca pra que ela chegue no cliente e todas essas etapas envolvem esforço, dedicação e profissionalismo. Eu sinto que a cultura das redes sociais tem trazido uma dinâmica muito nova e que as vezes pode ser prejudicial, esse negócio de achar que porque tudo está facilmente disponível nada é trabalho e tudo é de graça: modelo, produto, divulgação, fotógrafo, criação. Torçamos pra que isso melhore, né?


Em 2019 saiu uma pesquisa dizendo que o Instagram é a rede mais nociva em termos de saúde mental. Como a pressão de números na rede social te afeta? Como é o processo de se manter visível e relevante nas redes sociais e ao mesmo tempo manter sua saúde mental?

É uma relação muito interessante a de trabalhar usando redes sociais de portfólio porque ao mesmo tempo que você depende delas é preciso saber que elas são instáveis e podem mudar ou desaparecer a qualquer minuto. Você está o tempo todo lutando contra uma plataforma que quer que você fracasse na divulgação do seu trabalho pra vender anúncio e isso é BEM cruel. A pressão de número existe sim, infelizmente faz parte do trabalho porque as marcas e clientes querem saber das suas métricas e estatísticas antes de fechar negócio e algumas nem te olham duas vezes se você não bate uma certa cota de seguidores. Lido com isso tentando desassociar meu trabalho dessa corrida insana o quanto conseguir. Mantenho a frequência de postagens tentando não desrespeitar o meu ritmo nem perder qualidade, tento me manter afastada de certas tendências estéticas e fotográficas que não me deixam confortável e foco nos meus projetos e em executá-los da melhor forma possível pra me comunicar com as pessoas, expressar minhas ideias, angústias e paixões nas fotos. Criar essa conexão e humanidade entre a minha alma inquieta com a alma inquieta de quem me acompanha é a coisa que mantém minha sanidade. Já ouvi algumas vezes que meu conteúdo não é facilmente digerível por ser muito diversificado e difícil de definir, mas eu não abrirei mão disso, de transmitir o que eu preciso pra quem precisa (mesmo que isso signifique demorar pra crescer e fazer menos coisas).


Vivemos numa sociedade machista. Os homens podem ser  “mulheres exageradas" e/ou caricatas na cultura drag. Você já disse algumas vezes que se inspira muito na cultura drag. O que você pensa sobre a questão da mulher na sociedade não poder ser ‘exagerada’ em seu dia a dia; ser controlada na forma de usar maquiagem e ter um visual dentro de um limite aceitável e, caso esta decida se elaborar ou exagerar, tenha que ter justificativas para seus atos?

Penso que é hipócrita e aprisionante. Desde muito novas nós somos absurdamente cobradas em relação a beleza e feminilidade. Lembro-me de crescer sentindo que era inadequada porque essa bênção da beleza natural não acontecia comigo, até conhecer o drag e descobrir que todo mundo podia ser uma mulher estonteante: até um homem de meia idade que tem um trabalho de escritório de dia e coloca cílios e peruca de noite. Mudou minha vida, foi como puxar a cortina do mágico de Oz, sabe? Você podia ser o que quiser, uma supermodelo, um monstro, homem, mulher, nenhum, ambos. Sua beleza podia ser menos sobre genética e mais sobre a capacidade de criar. Foi radicalmente diferente da experiência de ser mulher onde sempre te cobram um meio termo insuportável: tem que “se cuidar” mas não pode ser fútil, tem que ser sensual mas discreta, tem que se maquiar mas não pode exagerar, tem que se vestir bem mas sem ser chamativa, tem que ter o corpo da celebridade (que só conseguiu ele com plástica) mas sem se modificar porque a mulher bonita é “natural”. Lidar com um mundo que cobra que você se mostre mas te pune quando você faz exatamente isso danifica nossa autoimagem, faz a gente minguar. A arte drag me trouxe a possibilidade de ser justamente a mulher proibida: a que dança, bate cabelo, veste o brilho, usa a maquiagem que quiser, se pinta de maneira exagerada, louca ou até monstruosa e diz abertamente que se acha incrível e celebra isso sem modéstia alguma, mostrando tudo no lugar de esconder e fingir que não existe. Impensável!

Quando eu comecei a ir por esse lado ouvi muitas coisas: que eu me estragava com tanta maquiagem, que eu era exagerada, rebelde, ridícula, arrogante, fútil, sem conteúdo, só me importava com o visual, ou que eu ‘me achava artista’. Incontáveis vezes me perguntavam pra onde eu estava indo pra ver se existia uma ocasião que me redimisse do pecado de ser livre. Existe uma citação da Elke Maravilha onde ela diz que uma vez perguntaram a ela ‘por quê tanto?’ e ela respondeu ‘por quê tão pouco?’ e é exatamente isso. Pra quê ser sempre menos? A quem interessa que você se sinta cada vez menor?

Eu me recuso a me justificar e pedir desculpas por fazer o que tenho vontade porque a cabeça das pessoas não consegue conceber que o interesse de uma mulher por maquiagem não anula todos os livros que ela já leu na vida ou a me justificar porque todas as áreas consideradas femininas são tidas como coisas fúteis e de segunda importância mesmo sendo ricas em conhecimento, impactando a nossa existência e carregando um peso cultural enorme (como a moda). Sigo celebrando meu próprio ideal de feminilidade caótica e tentando subverter, exagerar, profanar e transformar todos esses estereótipos e símbolos do feminino no que eu quiser, na potência que eu quiser e se eu quiser.




Fico feliz de ver surgir pessoas criativas como você aqui no Brasil. A minha geração e gerações antes da minha não puderam ter modelos alternativas de forma plena (Iluá Hauck, uma das pioneiras fez carreira no Reino Unido) por não termos acesso à objetos de moda, nem fotógrafos especializados e nem informação na época. Coisa que sua geração tem bastante, com lojas e ajuda da internet. Na teoria, modelar não tem idade, mas na medida que vamos ficando mais velhas vemos que portas se fecham aqui e ali e a prioridade de trabalhos e parcerias ficam pro pessoal mais novo ou pra um determinado tipo de beleza feminina, já que a associação de alternatividade com juventude e magreza ainda é um senso comum. Muito se fala da ausência de modelos negras e gordas, mas nem chegamos ainda no debate do ageísmo no meio alternativo. Como você pensa sua carreira de modelo no médio e longo prazo? Tem projetos a longo prazo em mente?

É muito difícil especular sobre o meu futuro num mercado cuja estrutura ninguém sabe muito bem como funciona nem como funcionará daqui meros 2 anos, que dirá 10, 20. A internet permitiu que todo esse cenário de lojas e modelos independentes aparecesse e ganhasse público, mas a realidade é que nada está tão sólido assim financeiramente e tudo ainda funciona muito mais na base do escambo e troca de favor do que qualquer coisa, daí o próprio conceito de modelo alternativa ‘plena’ ainda é meio desconhecido por essas bandas. Tudo é incerto: dependendo do rumo que a economia toma as lojas abrem ou fecham e gasta-se menos com moda, enfim. Ainda existe essa mesma ideia de que se você quer viver disso precisa sair do país.

A médio prazo eu enxergo esperança: o estilo alternativo sempre foi visto como uma coisa jovem a ser superada na idade adulta, mas vivemos numa era onde estamos arrastando pra idade adulta os interesses, hobbies e aspirações que antes eram considerados coisas exclusivas de ‘jovem’. A cultura pop move multidões de adultos nostálgicos e a juventude ‘rebelde’ de outros tempos já cresceu e entrou no mercado de trabalho tatuada e querendo levar pra vida adulta e profissional seu senso de individualidade e estilo. Já está acontecendo. Já estamos vendo grandes ícones amadurecendo (como a Dita Von Teese, por exemplo) e conhecendo mulheres que já passaram e muito da idade antes considerada ‘adequada’ pra isso sendo fantásticas com estilos incríveis (baddiewinkle, nikkiredcliffe, o blog advanced style, enfim, eu poderia citar umas várias fontes de inspiração). Talvez a tendência de envelhecer com estilo cobre o mercado a oferecer mais representatividade? Veremos.

O que posso garantir pro meu futuro a longo prazo é que eu amo o que faço, amo meus ensaios autorais e esses vão continuar acontecendo independente de qualquer coisa. E, sinceramente? Não vejo a hora de envelhecer. Mal posso esperar pelo acervo, referências e conhecimento que vou acumular até lá!


Você incentiva seus seguidores a usarem o visual que quiserem, a qualquer momento e situação do dia através da hashtag O Evento Sou Eu  (#oeventosoueu). O que te motivou a criar a tag e quais situações te chamaram mais a atenção?

A minha motivação foram os desabafos dos meus seguidores na DM e as coisas que ouvi na vida. Existe essa concepção de que ninguém realmente gosta de “se montar”, que é algo chato e que todo mundo faz por obrigação ou pior ainda: que a maquiagem e roupa é só “pra ser atraente” e “conseguir homem” (e que tudo dentro desse espectro é futilidade e tudo fora dele é errado). Muita gente acha que ter um visual próprio é algo que as pessoas simplesmente nem começam ou abandonam porque é um ciclo natural de amadurecimento na vida. A realidade é que existe muita gente que quer ser um pouquinho mais extra aqui e ali mas que não se sente confortável pra isso porque não vê ninguém fazendo o mesmo, que morre de vontade de ir comprar pão com a maquiagem da Siouxsie Sioux mas tem tanto medo da pergunta “pra quê isso?” que deixam essa vontade morrer. Morrem esperando uma “ocasião especial” onde finalmente vai ser permitido usar a roupa que quiseram usar a vida inteira, que guardaram no armário a vida toda porque finalmente vão ter uma “razão” que justifique e torne aceitável pros outros. Agora imagine você que você não precisa se justificar pra ninguém porque ninguém tem nada com a sua vida? BOOM. Ninguém precisa de ocasião especial pra nada não, você é a ocasião especial e a sua vida é o evento que você tá esperando. Voa. Coragem e conforto não nascem do nada, você cria no processo. Parem de se adiar, por favor.

O que mais me chama atenção é como cada pessoa adapta isso pro seu dia-a-dia e como isso nem é realmente sobre se montar, é sobre não ter medo de vestir o que quer, ser ridículo, se divertir com a moda e de se expressar. Já recebi várias e várias mensagens e fotos de seguidoras que trabalham em empregos formais nos dias úteis mas nos finais de semana “eventam” (sim, já virou verbo) loucamente, de moças que simplesmente desistiram de performar algum aspecto considerado “obrigatório” da feminilidade com medo do que os conhecidos vão falar (rasparam a cabeça, pararam de depilar), de gente que foi de pijama pra balada ou de drag pra aula, de pessoas trans que sentiram forças pra prosseguirem com a transição ou as mensagens sobre como alguém terminou uma relação abusiva ou recuperou a motivação pra reconstruir a autoestima depois de uma. Tem as histórias divertidas mas existem também muitas histórias que são muito maiores do que a minha própria.




Então conta como é manter seu estilo no dia a dia.

Eu tenho essa coisa de sentir genuíno prazer em me arrumar todos os dias. Eu tô sempre fazendo mil coisas, então o tempo que eu uso pra me maquiar, escolher minha roupa e me vestir é um momento sagrado de tranquilidade no meu dia, o momento que eu tenho só pra mim e que me prepara pra encarar um dia cheio com algum ânimo. Atualmente eu já descobri como funciona o meu básico e sei como construir ele pra parecer um luxo e, pra além dele, eu uso tudo que eu tenho no armário (inclusive extravagâncias) porque eu gosto de tudo e sempre fui assim. Eu sigo uma máxima infalível que minha avó me ensinou: “Caixão não tem gaveta. Não adianta guardar as coisas a vida toda porque você não vai levar quando morrer”. Tive vontade de usar? Não vai me prejudicar no que eu estiver indo fazer? Bora. Tem dias onde eu, ridiculamente, decido botar uma calça de vinil e um salto 12 pra ir no mercadinho da esquina e ninguém é capaz de me impedir. Eu pego metrô de corset, já fui na 25 de março de salto e pra faculdade num look de Maria Antonieta moderna com direito a penteado rococó, tudo porque eu já experimentei tanto que sei meus limites e sei o que eu consigo ou não fazer (e com que sapato e roupa dá pra fazer). Meu dia-a-dia é feito de me divertir com a moda e assumir o título de doida do bairro as vezes. Já assustei muito vizinho.


O que te inspira a fazer looks tão criativos?

São as minhas referências e influências que estiverem mais fortes no momento. Tudo que eu consumo de moda, história, ícones, livros, arquétipos, personagens, músicas, arte, filmes acaba sendo transformado em material pra looks.


Qual o melhor jeito de descobrir seu estilo e montar o próprio acervo?

Experimentação. Fazer uma pastinha no Pinterest com coisas que você gosta pra te dar uma direção é muito bom, mas só isso não leva ninguém a lugar algum. O processo de se descobrir envolve fazer coisas, picotar blusinha, customizar, testar, vestir as coisas, provar muita roupa e não ter medo de ser ridícula, não ter medo de tirar do seu armário aquilo que não te agrada só por comodidade. É muito sobre descobrir na prática o que serve pra você porque o conselho dos outros ou as regras estabelecidas muitas vezes não se aplicam. Se eu não tivesse passado batom na cara toda, doado todas as calças jeans que jamais me agradaram e pregado muita pedraria com cola quente nas coisas eu jamais seria quem sou hoje.



Algumas subculturas surgiram de um viés contracultural e/ou underground. Assim, algumas pessoas enxergam o comércio como algo negativo, desencadeado dificuldades em aceitar ou compreender os que fazem uma abordagem mais comercial da cultura alternativa, qual você acha que é seu papel como pessoas de destaque na internet sobre a questão do consumo alternativo?

Penso que esse debate sobre o consumo é importantíssimo, mas que as vezes falta diálogo, especialmente com os profissionais da área da moda. Vejo gente falando sobre um tal ‘consumismo na cena’ que é impulsionado por influenciadoras ou sei lá deixando de comprar suas roupas da lojinha ou brechó que faz parte da cena alternativa pra preferir gastar dinheiro com fast fashion de procedência ignorada e roupas feitas com mão-de-obra desconhecida, provavelmente explorada e que gasta um absurdo em recursos naturais pra ter qualidade duvidosa e encher o mundo de resíduo têxtil. Não é exatamente um protesto muito embasado.

Acredito que o papel de quem tem a visibilidade nas mãos é o de justamente promover o trabalho dos criadores independentes e abrir as portas para que eles sejam mais vistos e desejados pelas pessoas, pra que o público alternativo comece a naturalmente se desintoxicar da mentalidade da fast fashion e suas um milhão de tendências predatórias e fazer os olhares se voltarem para os trabalhos das pessoas de dentro da cena, feitos de nós para nós. Implorar para “apoiar a cena” infelizmente não é efetivo, as pessoas só choram o fim das lojas e dos projetos depois que acabam. Tornar esses trabalhos vistos e fazer com que sejam desejáveis é o que tem trazido a vida de volta aos nossos comércios e projetos e os influenciadores, blogueiras, youtubers e etc tem sim um papel imenso nisso. Não fosse por esse mercado se abrir, eu jamais teria trabalhos de modelo pra fazer.

Existem muitas considerações a serem feitas sobre o tal consumo ético (se ele sequer existe no nosso sistema econômico é uma delas), mas o consumo consciente existe e precisa ser exercitado. Muito provavelmente o seu boicote a uma loja de departamento não fará diferença alguma pra ela, mas a customização que você faz na peça de brechó tirou uma peça do destino de virar lixo têxtil. O dinheiro que você dá ao pequeno criador pra que ele desenvolva uma roupa pra você vai colocar comida na mesa dele hoje. O projeto que você financia hoje vai trazer destaque aos artistas que precisam amanhã. Faz diferença imediata. Apoiar a cena não é só show e balada, é, também, apoiar os artistas, artesãos, curadores e criadores que estão tentando viver dos seus sonhos.


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29 de dezembro de 2020

5º edição da revista Gothic Station- Moda Fetichista, Arqueologia do Pós-Punk, Monica Richards, Two Witches, Simon Reynolds, Clássicos Góticos Literários, teorias e pesquisas subculturais

Após uma pausa de dois anos, a revista GOTHIC STATION retornou em sua edição de número 5. Para quem não conhece, a revista foi fundada por Henrique Kipper em 2017. Kipper é um dos mais antigos produtores de conteúdo sobre a subcultura gótica no país, publicando artigos no site Gothic Station. Ele é autor também de dois livros sobre a subcultura, ambos disponíveis no site. 



Se você se interessa por adquirir a revista, entre em contato por uma destas formas.


Desde dezembro de 2018, a GOTHIC STATION estava pausada, dentre os vários motivos podemos citar esse que escrevi no post "Projetos alternativos de financiamento, porquê não recebem tanto engajamento quanto deveriam?", é realmente difícil o apoio do público alternativo à projetos de financiamento também alternativos. 


Não foi apenas a cultura da internet que diminuiu o interesse das pessoas por material físico de leitura, quando Amazon criou o Kindle e os e-books a coisa veio toda abaixo. Hoje encontramos todo tipo de publicação para download, o que orientou muitas mentes a pensarem que o que está na internet deve ser 'de graça', sem considerar que existem pessoas por trás dedicando horas de trabalho - muitas vezes não remunerado ou mal remunerado - para comunicar aqueles conhecimentos. É um reflexo de uma sociedade alienada sobre os processos produtivos de trabalho, orientada ao imediato, efêmero e individual. 


Certos tipos de conteúdo ficam bem melhores em impressos e o motivo não é apenas porque é melhor ler no papel do que olhando para uma tela, mas também porque na internet não temos segurança de nada, tudo pode ser perdido se um provedor ou uma grande empresa sofrer uma pane tecnológica ou um ataque hacker. Algo que faço a analogia com a queima de livros que ainda hoje acontecem: os conhecimentos presentes apenas na web se perderiam para sempre. 


Dada a reflexão, apresento uma breve resenha da edição 5 da GOTHIC STATION em que desta vez eu trouxe uma matéria sobre a moda fetichista. Eu não quero soar arrogante mas sim, sincera: essa é a mais completa matéria sobre o tema - relacionada à moda alternativa - que vocês vão encontrar. O fetichismo na moda é um tema muito complexo, de difícil abordagem e polêmico. Mas acho que consegui fazer uma boa síntese embora muita coisa tenha ficado de fora. Busquei focar na questão 'moda' e acho que tive sucesso, as informações que vocês encontrarão no quadro da página 11 são difíceis e encontrar em português. E sim, é beeeem mais completa que a matéria de moda fetichista que saiu na revista Moda de Subculturas. Na verdade são matérias diferentes embora com pontos históricos em comum.



A seguir a revista trás seis páginas de destaques musicais, trazendo breves resenhas de Helalyn Flowers, Clan of Xymox, Sopor Aeternus, Glória de Oliveira, Corlix, Faun, Dandelion Wine, Rain Children entre outros.


Os lançamentos musicais nacionais também ganham quatro páginas só deles, com foco nos newcomers, ou seja, os novatos com lançamentos de ótima qualidade, como Misfortune Deep de Manaus, os cearenses Maldigo, Dark Hertz Transmission e Anum Preto. Também incluem-se na matéria Lunar Dream, Quântico Romance, Tomb of Love... e outros. Aliás que ótimo ler e saber de bandas que vem de fora do eixo Rio-SP, e mesmo as que são desta região, pois mostra que há de se conhecer a valorizar as produções nacionais.


Uma matéria sobre os selos Deeepland Records, Wave Records, Paranoia Music e Plainsong, relata a importância destas gravadoras para as bandas nacionais, seja via streaming ou por mídias físicas. A área musical se estente por mais algumas páginas através de resenhas de lançamentos sob a crítica de Bruno Rocha, editor-chefe do blog The Atmosphere.


E chegamos à matéria de capa, a entrevista com Monica Richards, conhecida através do Faith and The Muse. A fada cantora conta suas histórias desde a década de 1980 e sua conexão com os ciclos da natureza, apontando a importância da conexão com a terra num período de desequilíbrio. Richards fala numa das questões sobre sua experiência como mulher  daquele 'elo perdido' entre o punk e o gótico inicial, boas informações pra quem pesquisa estes temas.


A seguir temos a entrevista com Two Witches. Jyrki Witch, Miss Blueberry e Marko Hautamäki contam sobre o rock gótico 'puro e desavergonhado' que produzem. Os fãs vão gostar das oito páginas cheias de informações. Num dado momento, Jyrki diz "sempre fui um gótico de verão. Eu realmente odeio o inverno finlandês." - acho ótimo ler isso de um artistas influente já que vários de nós, alternativos, romantizamos muito o clima europeu.




Uma das sessões que mais gosto, a de literatura, chega na página 42. Luciana Fatima nos comunica sobre a editora Clepsidra, que vem publicando os clássicos da literatura gótica em território nacional. E busca resgatar os que ainda não foram publicados aqui. Aquelas preciosidades clássicas que sofríamos pra encontrar até mesmo em sebos, podem agora estar ao alcance de nossas mãos. Segura esses títuolos: Coleção Lord Byron, Coleção Imaginário Gótico com "O Aparicionista", "O Necromante" e "O Vampiro". A matéria é empolgante se você é uma das pessoas que ama literatura gótica, porque a vontade é logo adquirir todos os títulos.


Uma outra entrevista que, pra quem gosta de estudar subculturas e cenas musicais, vale a muito a pena ler é com Simon Reynolds, jornalista e crítico musical inglês. Reynolds tem sua própria teoria crítica publicada em livros sobre a historia dos movimentos musicais. "Hoje em dia 'underground' realmente significa 'nicho de mercado' - é mais como uma boutique", diz ele. Tema bom pra debate, hein? E que tal essa: "é bem provável que Sioux e Severin nunca tivessem feito música sem o punk [... ] o punk abriu espaço para todos os tipos de pessoas se inspiraram para tentar fazer música [...] você tinha todos os tipos de vozes estranhas".


Ainda pra quem gosta de historia, critica, teoria e pesquisa de subculturas, um ensaio de Henrique Kipper sobre o livro Goth Culture da pesquisadora de estudos culturais, a alemã Dunja Brill, que trás questionamentos interessantes sobre sexualidade e estilo. Fiz uma resenha deste livro anos atrás, e que vocês podem conferir neste link. Porém, como estudiosa do feminismo, eu questionaria o pontos deste ensaio a respeito do termo contemporâneo de empoderamento. Já que não existe empoderamento se uma mulher continua sendo objetificada (ou se objetificando), ela neste caso, continua servindo ao patriarcado. Se uma mulher ou parte da sociedade enxerga isso como empoderamento está tendo uma visão liberal do feminismo, que não muda estruturas de opressão e serve ao capitalismo. E aí Kipper, será que um dia escrevo sobre feminismo para a GOTHIC STATION? #queria Sinceramente amei o Kipper trazer esse livro à tona, acho ele super válido de ser lido especialmente pelas góticas que se interessam por estudos feministas! 


E o Krautrock? Bom, ele também tem espaço nesta edição através das palavras de Alex Antunes da banda Akira e as Garotas que Erraram, fazendo parte dos textos sobre a 'arqueologia do post-punk'.


E a edição finaliza com as já tradicionais tirinhas de Kipper sobre a cena gótica. 


Se tenho algo a resumir sobre essa edição é que ela vai agradar muito que gosta de estudar subcultura gótica e moda. Embora seja uma publicação de linguagem acessível, sempre trás conteúdo embasado ou referenciado de acordo com as pesquisas dessa área. 


Não hesite em apoiar esta publicação alternativa nacional, vale muito a pena!




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28 de dezembro de 2020

Loja Trapezia: Cupom de Desconto!

Hoje venho com uma novidade! Agora temos também cupom de desconto na loja Trapezia

Sana em ensaio para a loja Trapézia.
Foto: Bárbara Tomásia Fotografia/ @barbaratomasiafotografia


Cupom de desconto:
CUPOM: SANASKULL 
Compra mínima 150,00
10% de desconto


A marca surgiu em 2012, o foco vai desde retrô/pin-up (vestidos super bem cortados!), passando pelo vitoriano (steampunk) e rock/goth (acessórios).

À frente de tudo está Thaís, que tem o sonho de ser cantora e que vale a pena acompanhá-la em sua rede social pra vê-la expondo seu talento: @thaislyrica

A estilista teve seu caminho foi direcionado para Moda quando aos 15 anos aprendeu a costurar e foi criando peças à seu gosto. E foi através da costura que adentrou no universo do Cosplay - uma cultura onde pessoas se fantasiam de personagens e os interpretam - e passou a criar de uma outra forma: ao invés de corpos reais, agora criava para corpos fictícios.

Ela se formou na Faculdade Belas Artes em 2013/14, e suas inspirações e processo das criações variam muito de coleção para coleção. Atualmente a marca tem vestidos e outras peças inspirados no estilo das pin-ups e steampunk. 

Foto: Bárbara Tomásia Fotografia/ @barbaratomasiafotografia



Para quem quer adentrar na moda retrô, mas com peças super adequadas ao nosso clima, pode dar os primeiros passos com as peças da Trapezia. De algodão leve apropriada ao calor brasileiro, os vestidos da marca são uma ótima opção. 




Destaco esse modelo com caveira dourada que amo demais!
Me encantei com a peça que serviu perfeitamente mesmo sendo um tamanho padronizado. Acho importante quando marcas alternativas se preocupam com o tecido, a modelagem, acabamento e uso da técnica, pois é isso que as torna peças de qualidade. 

Foto: Bárbara Tomásia Fotografia/ @barbaratomasiafotografia


Foto: Bárbara Tomásia Fotografia/ @barbaratomasiafotografia






Não deixe de visitar o site da loja e me digam o que vocês acharam da Trapezia e se já tem peças da marca.



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12 de dezembro de 2020

Por que sumimos em 2020? Vem saber as respostas!



O ano de 2020 foi atípico em todos os sentidos, inclusive aqui no blog. 


Por que sumimos em 2020? Por que 'pausamos' o blog?




Em 2019 comemoramos 10 anos de blog. O trabalho de produção de conteúdo de 3 zines (físico e digital) e uma revista digital com 104 páginas, um projeto de financiamento na Vakinha e o envio do material aos apoiadores foi um processo superexaustivo (embora prazeroso!) pois fizemos tudo sozinhas na base do do it yourself - faça você mesma - e tudo 100% desenvolvido por mulheres (autoras, ilustradoras e colaboradoras), feito na raça, na vontade, sem conhecimento prévio, errando e acertando.

Produzir conteúdo não é fácil, o processo de pesquisa, de seleção de informações (tínhamos limites de páginas), de cessão de imagens, duraram o ano inteiro e não paramos o blog, mas diminuímos a frequência. Além disso, vínhamos atualizando o blog incessantemente por 10 anos. Assim que todo o material foi enviado,  pensávamos em uma só coisa: 


Tirar um ano 'de férias' do blog!
 

E assim o fizemos! 

Em março deste ano chegou a pandemia. Uma situação terrível que ainda vivemos e parece longe de finalizar! Além de termos de nos proteger usando máscaras, manter o distanciamento social, tem também a questão de manter a saúde mental pelos hábitos terem mudado tão repentinamente.


Hoje com as redes sociais, pessoas se ocupam de pessoas. São horas e horas vendo fotos, vídeos, dando likes ou acompanhando postagens de outrem. Se ocupar de pessoas não é novidade, sem dúvida a vida virtual tirou de nós a presença nas ruas, a conversa face a face. Vivemos em cidades que são propositalmente construídas para carros e não para pedestres, poucas praças, poucos espaços públicos pra se reunir. O motivo é óbvio, não é interessante para os governos que pessoas se reúnam, pois pessoas juntas, conversando trocam ideias. E ideias podem ser motes de mudança de atitude e pensamento, podem ser revolucionárias. Manter cidades para carros e não para que pessoas se encontrem nos  espaços públicos é um projeto político. E nestas horas a internet faz a função que o encontro nas ruas não faz. Especialmente com a pandemia.


Percebemos que assim que iniciou a pandemia, perfis começaram a produzir conteúdo sem parar, com a alegação que agora as pessoas que estariam em casa precisariam de algo pra ver/ler. Em poucos dias foi notável o saturamento de postagens, lives, sob o argumento de 'ser produtivo', porém se tornou impossível de acompanhar sem que ficássemos horas logadas, mesmo que selecionássemos só os perfis preferidos. E estas longas horas logadas favorecem os bilionários donos das mídias sociais e desfavorecem a saúde física e mental das pessoas que logo ficariam com suas mentes estressadas de tanta informação.


Optamos por não entrar nessa onda, a pandemia é pra nós um assunto seríssimo que exige reflexão e  uma oportunidade de rever velhos hábitos, não é um momento para jogar milhares de conteúdos numa sociedade já saturada, viciada e doente também por visibilidade.


A mente precisa de seus momentos de silêncio, tédio e reflexão, para que se desenvolva também o senso crítico na medida em que as informações adquiridas são processadas.


Estamos onde estamos 

Essa nossa ausência pode ter feito alguns pensarem que o blog acabou, que entramos em decadência, ou que "estamos onde estamos: na pior".  


Mas a questão é bem mais simples: desconectar é necessário numa era de estímulo excessivo, de exigência de interação sem pausas.


O blog em 2020 confirmou-nos que tem seu lugar garantido na web, mesmo sem postagens novas se manteve com milhares de acessos mensais, o que nos impressionou! Recebendo novos leitores (as gerações mudam) e novas visitas. Além das pessoas que voltam pra reler ou consultar. Considerando que não temos Youtube, nem Podcast e nosso Facebook e Instagram também diminuíram drasticamente o ritmo em 2020, é um feito que impressiona a nós e mostra como ainda é importante ter um espaço informativo que ofereça conteúdo acessível a todos.


Há quem critique blogueiras e influenciadoras digitais por só produzirmos conteúdo na web (não-físico). O que tenho a dizer é que todas são relevantes sim! É mais do que certo que o que é desenvolvido na web se espalha tanto que chega muito longe, em lugares e pessoas inimagináveis, indo muito além de muros limitantes de casas, escolas e universidades/academia. Ter blog e/ou ser influenciadora digital é colocar em prática o conhecimento de forma pública, à todos. Uma atitude super 'socialista': compartilhar com todos o que se sabe e construir juntos o conhecimento.


Nós prezamos por liberdade intelectual, pensamento autônomo, por isso gostamos de manter um blog: para postarmos o que quisermos, sem amarras. Como Clarice Lispector muito bem fala neste vídeo, acreditamos que a escrita não pode ser forçada, uma obrigação, um cumprimento de metas, a escrita é liberdade. E liberdade é autonomia. Autonomia, já dizia Kant, é termos nossas próprias escolhas através de nossos próprios pensamentos.


Em nossa ausência em 2020 me dediquei a ler e aprender cada vez mais dos assuntos diversos que me interessam: da filosofia ao feminismo, de história política à música, de história à museologia, buscando cada vez mais a autonomia de pensamento e a descolonização - esta talvez o conhecimento mais marcante do ano, ter orgulho de ter nascido na América Latina e cada vez mais exercitar o pensamento crítico sobre o Europeu e Norte Americano que tanto colonizam e imperializam nossas mentes. O ano foi por demais ativo intelectualmente. 


Em 2020 comecei a seguir no Instagram perfis associados aos temas acima, mantendo contato com novos conhecimentos fora da Moda e da aparência. E todos esses temas, embora pareçam não ter nada a ver, tem super a ver com o conteúdo do blog! As conexões mentais feitas durante o aprendizado, serão úteis para aprimorar nosso conteúdo.


Se aprofundar no feminismo fez-me aprofundar na forma como a moda e cultura alternativa está afundada em machismo, misoginia e opressão de gênero. Nós mulheres das cenas alts reproduzimos sem perceber, algumas vezes seduzidas pelo 'biscoito', 'lacração' e 'close' em estéticas que se associam diretamente ao machismo e pornografia. Uma vez que se treina o olhar é difícil se livrar da análise. Queria trazer essas reflexões pro blog no futuro, embora eu saiba que seja uma questão polêmica.


Das conquistas de 2020, uma foi o incrível sucesso da coleção Dark Glamour com a loja Dark Fashion, com peças superelogiadas e superbem vendidas, assim como o sapato Glamour Ghouls com a loja Reversa, que esgotou várias vezes. De fato não tenho do que reclamar desse ano. Estou exatamente onde queria estar: realizada com as lojas, com a relevância do blog e com essa oportunidade de ter me aprofundado em novos, libertários e emancipatórios conhecimentos. 


E teve a superparceria com Henrique Kipper que me ajudou a tornar a revista Moda de Subculturas impressa! Com 54 páginas. Além de, é claro, eu ter escrito mais uma coluna de História da Moda para a quinta edição da Revista Gothic Station! 


Em termos de moda, subculturas e moda alternativa, algumas coisas interessantes aconteceram em 2020, como as tendências que tinham tudo pra abalar o universo da moda e com a pandemia elas foram 'canceladas' (a palavra do ano!). Algumas dessas trends tinham referência a um estilo de vida superburguês. E foi exatamente esse estilo de vida que a pandemia revelou absurdo. Estou cogitando postar sobre uma tendência em específico porque ainda vejo algumas publicações tentando empurrá-la goela abaixo. Tiveram outras tendências bem legais na moda alternativa que com o passar dos meses se tornaram moda. Lembrando que tendência não é o que já está ocorrendo no grande público ou dominando as lojas de nicho. Tendência tende... tende a acontecer, ou não! Às vezes ela não acontece. Mas a gente registra mesmo assim. 


Antes de finalizar nossa cartinha anual, vale dizer que o blog sempre abordou temas políticose um dos pontos que mais alertamos era sobre tomar cuidado com o conservadorismo que é enraizado em nosso país (até mesmo na moda), já que tal forma de controle social não favorece os alternativos e os LGBTs. Em março, um deputado pró governo divulgou um dossiê antifascista - sabe-se que já circulava em grupos de direita desde 2019 - ao acessarmos o dossiê nos deparamos com 90% de pessoas alternativas. Isso acendeu um alerta, confirmando algo que já sabíamos: os alternativos são dos primeiros a serem perseguidos num governos autoritário. Portanto não acreditem em 'nova política'. Não haverá nova política enquanto nosso sistema eleitoral se basear na democracia representativa. 


Outra marca de 2020 e que devemos parar para refletir, foi sobre o contínuo assassinato da população negra. É importante ressaltar que não podemos manter uma mente colonizada e pautar nossas lutas pelos eventos gringos (como BLM), nós deveríamos estar nas ruas lutando contra o racismo e assassinato dos negros PELO MENOS desde a morte de Marielle Franco. Poderíamos estar antes sim, mas o assassinato de uma vereadora eleita, mulher, negra, bissexual e autônoma, foi fato gravíssimo que poderia ter sido o gancho que precisávamos. Falhamos. E continuaremos falhando enquanto só nos espelharmos nas lutas que vem de fora. 


Aproveitando, vale citar o Black Lives Matter (Vidas Pretas/Negras Importam) que foi tão celebrado nas primeiras semanas de protesto e logo depois foi rechaçado pela mídia, famosos e celebridades, que inicialmente os apoiavam. O movimento passou por um processo absurdo de despolitização quando descobriram que foi criado por três mulheres negras, cuja ideologia é o marxismo radical que luta contra a "supremacia branca, imperialismo, capitalismo e patriarcado. Buscando a destruição total da nação como a conhecemos e sua substituição por uma nação socialista"*. Assim que isso foi sabido pelo grande público, o BLM foi enfraquecido e pior, pessoas obviamente brancas e liberais, modificaram o discurso, dizendo "todas as vidas importam".


2020 de fato, não foi/está sendo um ano fácil.

Mas com certeza é um ano que merece uma pausa para reflexão. 


Para finalizar essa carta, vale dizer que foi um prazer tão grande desenvolver os zines em 2019 que estamos pensando em novos zines. Sobre uma nova revista: também não descartamos! 

Mas para 2021 existe um projeto que estamos desenvolvendo e queremos participação de vocês. Divulgaremos em breve em nosso Instagram.


Espero que este resto de ano finalize o melhor possível para todos nós.

E em 2021, continuaremos aqui.


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* Informação via Black Lives Matter.

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