.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.

22 de maio de 2016

Os 20 anos do filme Jovens Bruxas (The Craft)

Neste ano o filme Jovens Bruxas (The Craft) comemora 20 anos. Embora não tão conhecido pela nova geração, quem está na faixa dos 30 anos deve ter assistido na época de lançamento ou em reprises. O filme foi lançado em 1996 e contava com Neve Campbell (Bonnie) e Fairuza Balk (Nancy) duas atrizes que estavam se destacando em filmes adolescentes. Completam o elenco Robin Tunney (Sarah) e Rachel True (Rochelle).



Traduzido como "Jovens Bruxas", o título original é "The Craft", esta é uma das denominações da bruxaria entre seus praticantes. A década de 1990 foi quando a Wicca se tornou popular e mais aceita como uma religião estabelecida, pessoas começaram a finalmente ter orgulho de se assumirem pagãos após décadas tendo que se esconder devido ao preconceito.
Assim, a prática vai ganhando jovens adeptas e por conta do interesse das adolescentes, muitos covens proibiram menores de 18 anos. Esses adolescentes procuram então os livros pra se informar, sendo "O Guia Essencial da Bruxa Solitária" de Scott Cunningham um dos mais populares. O mainstream se interessa pelo tema, com diversas lojas comercializando produtos, de pentagramas à livros das sombras. Ao mesmo tempo haviam equívocos sobre a prática, como os que diziam que wicca e satanismo são interligados - não são.

Jovens Bruxas não é um grande filme, mas tem seus momentos. E parte disso se dá porque a Sacerdotisa Pat Devin foi consultada para dar mais veracidade à trama, incluindo as cenas dos rituais. Uma coisa que não é real é "Manon", a deidade que elas invocam nos rituais.



A história (pode conter spoilers)
Na história temos quatro adolescentes, cada uma com um problema pessoal que as fazem se sentir angustiadas. Todas elas passam por bullying e procuram na bruxaria um modo de tentar fugir desses problemas.
Temos Nancy, Bonnie e Rochelle que estudam juntas. Nancy sofre em um lar superviolento, com um padrasto alcoólatra e uma mãe passiva, ela tem um relacionamento tóxico com as amigas; Bonnie tem um grave problema de pele que deixa cicatrizes grandes, grossas e feias que a fazem se esconder em roupas fechadas; Rochelle sofre bullying por ser negra e ter cabelos cacheados. Assumidamente bruxas, para unir os quatro elementos, elas precisam de mais uma menina no coven e é aí que a nova aluna, Sarah, aparece. Sarah veio de outra cidade, onde já tinha tentado suicídio cortando os pulsos devido ao bullying e os problemas que causava com à seus poderes telecinéticos.


Numa das aulas, Sarah demonstra seu poder de telecinese sendo observada por Bonnie que convence as outras de que a nova aluna era o elemento que faltava. Receosa, Sarah se junta ao grupo e as quatro meninas vão à loja de uma bruxa, onde a mesma percebe que Sarah é uma bruxa natural, seu poder vem de dentro naturalmente. Isso provoca inveja de Nancy, pois a obsessão desta era ter muito poder. 


Mulheres costumam ser vistas como delicadas e fracas. Na cena em que o motorista de ônibus diz: "cuidado com os estranhos" e Nancy responde "nós somos os estranhos", vemos que mulheres podem também ser "poderosas e perigosas" além das aparências delicadas. Haja visto que crianças no ônibus as olhavam com certo medo e curiosidade por elas apresentarem uma atitude diferente das outras presentes.


A partir daí, as quatro passam a fazer rituais visando atingirem seus objetivos. E é daqui que jogo alguns pontos de observação sobre A Arte:
Na Wicca existe um código moral simples e benevolente que é o seguinte: "sem prejudicar ninguém, realize sua vontade". Em outras palavras: você é livre para fazer o que quiser, contanto que, de forma alguma, prejudique alguém - nem mesmo você! Essa é a famosa Lei de Três, que se aplica sempre que você faz alguma coisa, boa ou má. Não que você será "castigada" por um ato mau, porém, quando você envia uma energia, o curso natural dela é voltar à você. Assim, caso envie algo negativo, essa força fará seu caminho, se fortificando e retornará. 


"magia é acreditar, magia é como natureza, o bem e o mal estão no coração da deusa"

Elas também fazem feitiço manipulativo, um tipo de feitiço que bruxas experientes não indicam, mas que novatos procuram. Esse tipo de feitiço é perigoso porque interfere no livre arbítrio, um direito primordial das pessoas. Num feitiço manipulativo de amor, como o feito por Sarah, interfere-se na vontade do outro, sendo comum o enfeitiçado virar um "zumbi", ou seja, uma pessoa completamente dominada pelo enfeitiçador.
Nancy deseja "todo o poder de Manon" (Manon é um Deus fictício) e assim recebe, mas usa para o mal todo esse poder que recebeu.


Bonnie pede pelo fim de suas cicatrizes e Rochelle castiga a moça racista. Tudo passa a correr como elas desejam. Elas se sentem fortes e empoderadas.


No decorrer do filme, vemos as consequências ruins que todas sofrem por terem feito escolha pela magia "do mal" e pela manipulativa. Elas mexeram com o equilíbrio e as coisas estão retornando em triplo.


Quando Sarah, a bruxa natural, percebe o quanto erraram, se arrepende e passa a reverter os feitiços, o que irrita as colegas. E é aí que acontece o clássico embate entre o bem (Sarah) e o mal (Nancy), entre o poder natural e telecinético de Sarah e o poder adquirido para o mal e manipulativo de Nancy.


Jovens Bruxas não é apenas um filme bobo de sessão da tarde, ele é legal pra observar como a Wicca se tornou popular entre adolescentes na década de 1990, trás um figurino que mostra a mistura entre mainstream + rock n roll/punk/gótico, ilustra como algumas pessoas que têm dons naturalmente mágicos podem canalizar para o bem ou para o mal e sofrer suas consequências e outra coisa que ainda é atual: jovens que sofrem por serem diferentes da regra e buscam por aceitação. No caso delas, buscaram a autoestima através da magia para que as curasse de seus problemas físicos e emocionais, para que parassem de se autoculpar e se autodestruir. 

Nancy é o perfeito exemplo de Bad Girl dos anos 90.
Uma curiosidade é que Fairuza Balk era wicanna na vida real.


Sobre o visual: uma vez contei aqui no blog que na década de 1990, os alternativos não usavam só roupa preta o tempo todo, usavam roupas com cores ou cores + preto. Um visual todo preto era reservado à góticos, uma certa linha do metal ou do punk e por quem queria chocar. A gente vê isso no filme. Embora praticantes de Wicca, apenas a Nancy é fortemente percebida como uma gothic-rocker que usa preto o tempo todo, as outras meninas usam moda mainstream normal com pinceladas alternativas relacionada à magia ou em cenas especificas como a que as quatro usam preto e branco numa desconstrução dos uniformes - usando chokers e batons escuros - ou nas cenas de rituais onde ao menos uma peça preta é usada por todas. As meias pretas até as coxas também eram moda na época assim como as gargantilhas, saias longas retas e a maquiagem vamp.


Válido citar a trilha sonora super rock n roll: Heather Nova, Julianna Hatfield, Jewel, Elastica e até Letters to Cleo.

E vocês, já assistiram o filme? 
O que acharam? 



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21 de maio de 2016

A nova coleção da Killstar: do Dark Glamour ao Streetwear Casual

Fazia teeempos que uma coleção não fazia meus olhos brilharem! Ultimamente ando meio cansada de tanta coisa igual na moda alternativa (cada vez mais parecida com a moda mainstream nesse sentido de lançar peças de desejo e todo mundo vender e comprar a mesma coisa), mas gosto quando uma coisa "igual" aparece com um ar novo especialmente na modelagem. E foi isso que me chamou a atenção com a mais recente coleção lançada pela Killstar!

De vestido tubinho, godê, franzidinho, passando pelo Vandinha Addams todos tem manguinha. O com pentagrama no decote tem um estilo mais punk e o que a parte de cima forma uma espécie de capa é um escândalo, tem estampa plastificada com tema ocultista! (essa é uma das peças high fashion da coleção).


dresses


Eu não sei nem escolher qual minha peça preferida, acho que são todas! Mas o que eu gostei, como dito acima, foi a modelagem e forma como eles inseriram as estampas: seja as estampas que eles já fazem há alguns anos como pentagrama, baphomet, ocultismo e  o que eu chamo aqui no blog de "dark glamour" que são peças que considero chiques e elegantes com uma pegada mais adulta como no vestido preto abaixo. Sai daquela coisa "moda alternativa pra adolescente revoltadinha" e entra num flerte com o atemporal.



E a modelo alternativa Shelly D´Inferno tá maravilhosa com essa peruca preta de cabelos curtinhos e fiquei até louca pra cortar meu cabelo igual quando o calor voltar! :D
Clique pra aumentar as imagens.
baphomet - black cat - ocultism


E vocês, gostaram dessa coleção?



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19 de maio de 2016

Circuito das Artes da Noite reúne Drag Queens, Burlesco e Comédia

Essa semana deu início no Rio de Janeiro o Circuito das Artes da Noite, evento que reúne mais de 50 artistas do Brasil e do mundo! O repertório é totalmente alternativo, envolvendo num só local a arte drag queen, o burlesco e a comédia - manifestações geralmente marginais - sendo tratadas com o status de arte de verdade, apresentado num teatro público. Uma produção que, segundo as organizadoras, certamente nunca ocorreu no país e em nenhum outro lugar.


A iniciativa foi idealizada sem nenhum patrocínio pelas artistas e pesquisadoras da arte burlesca Isabel Chavarri e Giorgia Conceição, que realizaram o festival "Yes, nós temos burlesco", em 2015. Este ano, junto com a drag queen e comediante Dalvinha Brandão, ampliaram o escopo de atuação para dar voz e representatividade a outros artistas da noite: drags e artistas do humor.

O Circuito consiste em 10 dias de programação cultural, com apresentações e mesas de debate. Unindo artistas de diferentes gerações, o Teatro Cacilda Becker abre espaço à cena artística independente que muitas vezes permanece escondida dos holofotes mainstream, porém produzindo sua criatividade avidamente.

Isabel Chavarri ou Delirious Fenix, uma das idealizadoras do projeto

O encontro terá como headliner a americana Indigo Blue – um dos maiores nomes do burlesco mundial. A trupe do Buraco da Lacraia Cabaré On Ice, os burlescos Delirious Fenix (Chavarri), Sweetie Bird (Rejoice Sunshine) e 7 de Ouros (Marcelo D'Ávilla), também são destaque dessa programação. Entre as drag queens e transformistas que compõem a programação, destaque para Malonna, drag queen mineira que hoje é um dos ícones da noite de São Paulo, e o professor universitário Roberto Iglesias, que se alterna entre as personagens Sophya Monroe e Sopheia Trambolho, animando as noites da emblemática Turma Ok, no Centro do Rio.


Programação

SEMANA 1 - DRAG QUEENS, TRANSFORMISTAS e ARTISTAS DA COMÉDIA

Dia 18/5, quarta, 19h
Mesa ‘Histórias do transformismo' - Uma conversa informal e divertida sobre a história da cena drag/transformista no Brasil. Com Malonna Queenie (BH/SP), Dalvinha Brandão (Curitiba) e Roberto Iglesias (Turma Ok - RJ)
Entrada gratuita

Dia 19/5, quinta, 20h
Quinta Cítrica Especial Queens - Artistas novos e experientes trazendo maneiras muito particulares de fazer humor. Nesta edição, drag queens que fazem humor. Presenças confirmadas de Suzaninha Richthofen (Floripa), Darlene LePetit (Curitiba), Haylla Riker (RJ), Yan Chi (RJ). Apresentação: Dalvinha Brandão
Entrada: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Dia 20/5, sexta, 20h
Rainhas do Rio - Diferentes gerações e estilos da cena drag/transformista carioca se encontram nessa noite, entre apresentações, história e muita ferveção. Participações de Palloma Maremoto, Medusa Pandemonium, Wendell Cândido, Milka, Safira Glittier, Aysha Maximus, Haylla Riker, Sophia Monroe, Hellen Ânderlee, Safira Glittier e artistas do coletivo Drag-se. Apresentação de Frankie Monstro.
Entrada: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Dia 21/5, sábado, 20h
Novas Comédias - Diferentes variedades do novo humor brasileiro se misturam. Presenças de Límerson Morales (SP), Delirious Fenix - Isabel Chavarri (RJ), Paloma Santos (BH), Bruno Lops (PR), Buraco da Lacraia Cabaré On Ice (RJ)
Entrada: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Dia 22/5, domingo, 17h
Mesa 'Humor, arte e política'. Com a presença de Larissa Câmara (RJ) e Paloma Santos (BH). Mediação: Dalvinha Brandão
Entrada gratuita

Sophia Monroe
Dalvinha Brandão
Buraco da Lacraia Cabaré on Ice
Frankie Monstro

SEMANA 2 - YES, NÓS TEMOS BURLESCO!

Dia 25/5, quarta, 20h
Especial burlesco carioca - Uma noite dedicada aos novos talentos da cena do burlesco do Rio de Janeiro. Apresentação: Frankie Monstro
Entrada: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Dia 26/5, quinta, 20h
Mesa “Burlescas – Belas, recatadas e do Rebolado.”
Entrada gratuita

Dia 27/5, sexta, 20h
Noite Burlesco Mix – Mistura de beldades de todo o Brasil e atrações internacionais
Entrada: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Dia 28/5, sábado, 20h
Noite de Gala - Classic - Artistas renomados da cena burlesca do Brasil e de fora do país.
Presenças de Indigo Blue, Sweetie Bird, 7 de Ouros, Aurora D'Vine, Black Rainbow, Clóris Fontainebleau, Delirious Fenix, Marquesa Amapola
Entrada: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Dia 29/5, domingo, 19h
Noite de Gala – Neo-Burlesco- Artistas renomados da cena burlesca do Brasil e de fora do país.
Presenças de Indigo Blue, Sweetie Bird, 7 de ouros, Aurora D’ Vine, Black Rainbow, Cloris Fontainebleau, Delirious Fenix, Marquesa Amapola, Blue Moon.
Entrada: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)

Minha experiência

Ano passado tive o prazer de ir no Yes, Nós temos Burlesco!, evento da qual me proporcionou a oportunidade de conferir pessoalmente performances burlescas, algo que eu só tinha visto pela internet. É difícil encontrar palavras para definir o que foi aquela noite, mas para terem uma ideia, foi necessário fazer sessão extra no dia seguinte do tamanho sucesso. Como espectadora, aquilo comprovou o quanto somos necessitados do ar transgressor da cena artística independente e que há sim um público para este tipo de espetáculo fora da caixa. Por sorte o momento foi registrado, então deixo vocês com o gostinho do que está vindo por aí.


Imagens: Fabiano Cafure
Giorgia Conceição
Leandro Melo
Aurora D'Vine
Lola la Fabulosa

CIRCUITO DAS ARTES DA NOITE
18, 19, 20, 21, 22, 25, 26, 27, 28 e 29 de maio
Apresentações: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia)
Mesas de debate: entrada gratuita

Local: Teatro Funarte Cacilda Becker
R. do Catete, 338 - Catete
Rio de Janeiro
Telefone: 2265-9933
Classificação 18 anos



Glitter e purpurina para que te quiero!


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15 de maio de 2016

Sorteio no Instagram com a loja Dark Fashion (você escolhe o prêmio!)


Sorteio de uma peça da Dark Fashion à sua escolha (a saia ou o vestido da foto abaixo) e na sua medida!

Pra participar é só dar like na foto oficial, seguir @loja_darkfashion e @modadesubculturas e indicar no mínimo 3 amigos nos comentários, você pode indicar quantos amigos quiser, contanto que seja 3 em cada comentário, o que aumenta suas chances de sorteio.
O sorteio será feito pelo app Sorteou no dia 27/05. Contataremos a vencedora por DM e no caso de não responder em 24 horas, sortearemos outra participante.



* sorteio exclusivamente no Instagram *


Dar regram não é obrigatório, mas não há problema em fazer contanto que siga as regrinhas na foto oficial.
Boa sorte!! 💕


E não deixem de responder nossa pesquisa de público, seguir nosso Tumblr e de participar de nosso grupo de discussões no Facebook. Se você gosta do conteúdo do blog, compartilhe-o, ajude o blog a se manter ativo. ♥


8 de maio de 2016

Mães tatuadas provam que a maternidade pode ser Punk!

"Me tornei mãe aos 23 anos e o que eu mais ouvi foi "você não se parece com uma mãe" o que eu sempre pensei que era uma coisa boba de se dizer, porque como uma mãe supostamente deve se parecer? Desde que me tornei mãe, conheci várias outras mães que não sacrificam seus estilos pessoais a fim de "parecer maternal". "Devoting" é uma série que venho trabalhando por um ano na tentativa de colocar uma nova imagem para a palavra 'mãe'."

Celia Sanchez é mãe de dois filhos e fotógrafa em Los Angeles, EUA. Ela está trabalhando seu BFA (The Bachelor of Fine Arts) no Photo at Art Center College of Design em Pasadena, CA.

Abaixo, fotos de seu projeto fotográfico chamado Devoting.


* Artigo traduzido da Revista Bust, clique aqui para ler o original.



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3 de maio de 2016

A História do Movimento Riot Grrrl: punk e feminismo na década de 1990

Em 2016, o movimento Riot Grrrl completa 25 anos. A data vem trazendo novidades que resgatam a memória através de documentários, biografias e exposições, além dos grandes retornos de bandas da época. Para completar, no dia 9 de Abril foi instituído em Boston o "Riot Grrrl Day". 

bikini kill
Kathleen Hanna, Bikini Kill - 1992




O espírito
Apesar de ter nascido em 1990, o fato é que suas raízes se iniciam no punk setentista. Os homens esbravejavam ao mundo as injustiças que sofriam de uma sociedade capitalista e as mulheres queriam fazer o mesmo. Porém, não era só o preconceito da classe dominante que iriam enfrentar; o de dentro da subcultura também. De tantas bandas que poderiam ser citadas, cada uma com sua importância, uma em específica globaliza a inquietude: X-Ray Spex.

Quando Poly Styrene introduz a música "Oh Bondage! Up Yours!" dizendo a seguinte frase: "Some people think little girl should be seen and not heard, Oh Bondage! Up Yours!/ Algumas pessoas pensam que as garotinhas só devem ser vistas e não ouvidas, Oh submissão! Vai tomar no c*!", ali encontramos o espírito do que iria refletir quase 20 anos depois. E o que diferencia as duas gerações então? O feminismo. Mesmo com a segunda onda dos anos 60, as punks inglesas agiam conforme o que vivenciavam, não havia noção da ideologia. "Nos sentíamos naturalmente feministas sem falar sobre", revelou Ari Up, vocalista da The Slits. O Riot Grrrl chegou para unificar tudo.




Início
O cenário do rock nos anos 1980 não era nada favorável as mulheres, tanto no underground quanto no mainstream. No post As Mulheres no Heavy Metal, é debatido sobre o apelo sexual ser mais explorado pela indústria do que o talento musical. O pouco de liberdade que se tinha fez queixos caírem com Chrissy Amphlett do The Divinyls cantando "I touch myself", um hino a masturbação feminina. Parcerias como a de Annie Lennox e Aretha Franklin em "Sisters are doing it for themselves", seria um respiro perante ao machismo do mercado.

A mídia mainstream definia em suas capas o feminismo como morto, utilizava manchetes sensacionalistas sobre o julgamento de assédio sexual do caso Clarence Thomas e Anita Hill, enquanto ocorria o assassinato de 14 alunas na Universidade de Montreal, onde o atirador dizia: "quero as mulheres". Diante das atrocidades e opressões sofridas, o sentimento de revolta se aflora.

Revista Time de 1989.
A revista questiona: Existe futuro pro feminismo?


Punk Singer: Rebel Girl, You're the Queen of my World
Kathleen Hanna é uma jovem interessada em estudos feministas que procura desenvolver seu conhecimento por leituras de Kathy Acker, a arte de Jenny Holzer e Barbara Kruger. Iniciada no curso de fotografia da Faculdade Evergreen em Olympia, capital do estado de Washington, faz amizade com Tammy Rae que a apresenta ao rock de bandas como Sonic Youth e Pixies. A atração pela música fica cada vez mais forte.
Durante o período de estudo, uma amiga com quem dividia moradia sofre tentativa de estupro no próprio local, resultando em ferimentos físicos e psicológicos na vítima. Comovida pela situação, em 1989, Kathleen arma um desfile protesto na biblioteca da faculdade, onde vestidos estampam frases que narravam o episódio de violência, caminhando entre palavras de repulsa. O efeito repercute ainda mais em sua vida.
Hanna conhece o fanzine Jigsaw de Tobi Vail, a única garota que falava de feminismo e punk rock. Amigos dão a ideia de um “Revolution Girl Style Now!” (revolução ao estilo das garotas), com a intenção de fazer garotas tocarem instrumentos. Então em 1991, é lançado o primeiro trabalho do Bikini Kill, formado por Kathleen Hanna nos vocais, Tobi Vail na bateria, sua amiga Kathi Willcox no baixo e por último, Billy Carren na guitarra. Ali inicia-se um novo movimento que envolvia arte e política. 

bikini kill
O zine Jigsaw e a banda Bikini Kill

A cena dos shows punks tinha a plateia feminina suprimida pelos moshs e rodas punks, muitas eram agredidas e acabavam indo parar no fundo sem poder entreter-se direito. Quando Kathleen Hanna dizia: "girls to the front" (garotas na frente), isso nunca tinha ocorrido antes na música, marcando uma nova era onde as meninas iam para frente do palco, numa estratégia de segurança para evitar assédio e poderem curtir à vontade. Os homens podiam estar presentes, mas atrás, nunca dominando o ambiente. Punks tentavam afrontar as integrantes e por isso ter garotas na frente também era uma estratégia de segurança às musicistas não serem agredidas. A música não era um escape, era um fundamento. Elas cantavam com raiva, algo que não era comum mulheres das bandas fazerem.

Kathleen Hanna: "Todas as garotas pra frente! Não estou brincando."

"Todos os rapazes, sejam legais uma vez nas suas vidas. Vão para trás, para trás, para trás."


O movimento
Em 1991, as bandas Bikini Kill e Bratmobile se mudam para Washington DC. Instaladas na capital americana, Jen Smith (Rastro!/ The Quails) e Tobi Vail criam o zine Riot Grrrl da qual na primeira leva, conta com escritas de Kathleen Hanna, Allison Wolfe e Molly Neuman. Junto ao zine, começam a fazer reuniões de ajuda para mulheres desabafarem abusos que sofriam, oferecendo palestras e atividades de artes. 

Riot Grrrl é uma garota assertiva, resoluta, com engajamento político em questões feministas. Os vários “Rs” do Grrrl, são ideia de Tobi Vail que lembram um som gutural que remete à raiva, à garotas raivosas. Na tradução literal: "garotas amotinadas" ou "motim de garotas": “She´s a grrrl she can do anything she wants" (ela é uma garota, pode fazer o que quiser); "every girl is a riot girl" (toda garota é uma Riot Grrrl)”

Inspirada pelos acontecimentos nessas reuniões, Kathleen Hanna escreve o Manifesto Riot Grrrl na segunda edição do fanzine Bikini Kill, edição conhecida também por 'Grrrl Power'.

 Página do zine contendo o Manifesto escrito por Kathleen Hanna
kathleen hanna
Segue tradução de trechos selecionados:
PORQUE nós devemos assumir os meios de produção parar criarmos nosso barulho.
PORQUE vendo nosso trabalho como sendo conectado com as vidas reais e as políticas das nossas amigas é essencial que entendamos estamos impactando, refletindo, perpetuando ou ROMPENDO com o status quo.
PORQUE nós não queremos assimilar o padrão de outra pessoa (garotos) de o que é e o que não é.
PORQUE nós estamos interessadas em criar formas não hierárquicas de ser E fazer música, amigos e comunidades baseadas em comunicação + entendimento, ao invés de competição + bom/ruim categorizações.
PORQUE nós odiamos o capitalismo de todas as formas e temos como nosso principal objetivo compartilhar informações e nos mantermos vivas, ao invés de dar lucros sendo legal de acordo com os padrões convencionais.
PORQUE eu acredito com todomeucoraçãocabeçacorpo que garotas constituem uma força revolucionário que podem, e irão, mudar o mundo de verdade. 

O blog Cabeça Tédio fez uma ótima tradução do Manifesto, peço que acessem esse link pra ler por completo. 

Algumas bandas Riot Grrrl: Bikini Kill, Bratmobile, Heavens to Betsy, Team Dresch, Excuse 17, Huggy Bear, Slant 6, Skinned Teen, Emily's Sassy Lime, 7 Year Bitch, Jack of Jill e Sleater-Kinney.


Feminismo e Política
O Riot Grrrl Convention aconteceu em meados de 1992 e reuniu mulheres de toda a América para discutir temas como identidade sexual, autopreservação, racismo, consciência, abuso doméstico, como sobreviver a abuso sexual e assuntos que se encaixavam ou não na comunidade punk. Lá apoiavam umas as outras e trocavam ideias sobre empoderamento feminino. Muitas das participantes acabaram criando novos movimentos Riot em suas cidades espalhando as ideias feministas por todo o país.


Kathleen Hanna queria que as garotas se tornassem donas de seus corpos, ela repudiava o que chamou de “fascismo corporal", quando as meninas são chamadas de “inapropriadas”. Usando o DIY do punk para empoderamento, encorajando mulheres a resistir e subverter a dominância do que a sociedade construiu como "feminilidades”, ajudaram a combater os gender roles no punk, dando autoestima às garotas. Levavam em conta o mantra feminista: "o pessoal é político" – frase que combate a cultura do estupro, da heteronormatividade, o direito ao próprio corpo e outras questões femininas de esfera política. O corpo absorve e reflete as informações do ambiente no qual está inserido, assim, pode ser considerado um índice das mudanças em curso na sociedade.

Usando o corpo como tela para palavras de protesto.

A atitude de Kathleen traz à memória a obra de Barbara Kruger.
Seu corpo é um campo de batalha

Zines
Com raízes na cultura dos zines (revistas feitas à mão com recortes e colagens), o Riot Grrrl inspirou mulheres a escreverem e se auto-publicarem. Em 1993, zines como Girls Germs, Satan wears a Bra, Girly Mag e Quit Whining se tornaram os primeiros do movimento. Segundo Johanna Fateman do Le Tigre, os zines eram um instrumento pré-internet para a formação de cenas locais.

bikini kill satan wears a bra girl germs

Para ajudar na distribuição destes zines, Erika Reinstein e May Summer criaram o Riot Grrrl Press na primavera de 1993, arrecadando fundos para comprar fotocopiadoras e computadores. Ocorre uma revolução de zines de garotas sem precedentes na história! Agora elas tinham uma produção e distribuição de uma mídia feminina independente que fazia com que tivessem controle sobre suas próprias imagens e também combatia a apropriação midiática do movimento, podendo chegar a uma grande audiência sem ter de se render à imprensa mainstream.

Os zines, como mídia alternativa, faziam o que a mainstream não fazia: empoderava garotas e ensinava feminismo. Vejamos algumas páginas:

"Com licença ♥ Oi, eu apenas queria dizer que eu não vou *sorrir *agir como burra *esconder meu corpo *fingir *mentir *ficar quieta por você. Tudo que faço, faço por mim e não vou mais deixar você rir de mim, tirar sarro de mim, me assediar, me abusar ou me estuprar. Porque sou uma garota e eu e minhas amigas não temos medo de você."


"Nunca deixe eles te silenciarem. Garota você é sensacional, o que você tem a dizer é importante. É relevante. Você é inegável, você é capaz, indescritível, revolucionária. VOCÊ É UMA LINDA."

feminismo
"Lute de volta - Mulheres não desejam ser estupradas. Ninguém pede pra ser estuprada! Mulheres devem ser capazes de andar na rua sem serem assediadas! Mulheres desejam respeito! E nós vamos conseguir!"
feminism
A cena já chamava atenção da mídia que andava atiçada devido ao Grunge. Pela proximidade de ambas subculturas, os holofotes de Seattle refletem nas Riot, só que o efeito surte em uma matéria com falsas informações no jornal USA Today e Washington Post. Irritadas pela repercussão mentirosa, em protesto iniciam um apagão na mídia por distorcerem a cena. Tal engajamento persiste até o final do Bikini Kill, em 1997.


Festivais Feministas
É criado o festival L7's Rock for Choice, organizado pela banda L7, que aconteceu de 1991 a 2001 e tinha como objetivo divulgar e arrecadar fundos para os movimentos de liberdade de escolha sobre o aborto (Pro-Choice).

Ed Vedder, entusiasta do feminismo, escreve Pro Choice em seu braço
durante a apresentação da música Porch no MTV Unplugged
.

No evento de 1993, a banda L7 arma um desfile protesto semelhante ao que Kathleen Hanna havia feito na faculdade. Elas percebem o viés cultural e a força da ligação Rock + Moda tem, utilizando-as como ferramenta política de suas ideologias, visão muito parecida com as Sufragistas nas primeiras décadas do século XX.


Já no ano 2000, é criado o Ladyfest na cidade berço do movimento Riot, Olympia. Independente, sem fins lucrativos, unia bandas, DIY, ativismo, straight edge e tinha como objetivo aumentar a visibilidade das mulheres na cena indie e underground juntando com ideias feministas do movimento Riot.


Kurt Cobain
Enquanto há o debate controverso sobre homem ser denominado de feminista ou pró-feminismo, em documentários colocam Kurt como seguidor da ideologia. Inclusive no Punk Singer, falam que o músico saiu da arte-punk feminista. Ao estourar o Grunge no mainstream, sendo o principal alvo o Nirvana, tudo que acerca o grupo fica em evidência. Kathleen Hanna era grande amiga do cantor, que se apaixonou por Tobi Vail e o introduziu ao estudo feminista. Mesmo após a separação, Kurt continuaria presente fazendo seus protestos contra misoginia em letras de música ou discursos. Ele também participaria do evento "Mia Zapata Benefit" em homenagem a cantora do The Gits, Mia Zapata, estuprada e morta após sair de um bar em 1993.

Panfleto anunciando show das bandas Nirvana e Bikini Kill.
Havia forte amizade entre Kurt e as meninas.

Se a baterista Tobi Vail namorou Kurt, vale relembrar que Kathleen Hanna está por trás de uma das maiores músicas de rock de todos os tempos: Smells Like Teen Spirit. Kathleen pichou a frase na parede de seu quarto, inspirando Kurt a escrever a canção. Legal como as minas feministas se interligam com uma icônica música grunge, né? 

A parede pichada por Kathleen Hanna. Falamos mais dessa ligação aqui.


Riot Grrrl vs Grunge Girls
O assunto mais polêmico! Houve um desentendimento no Lollapalooza de 1995 quando Courtney encontrou Kathleen Hanna nos bastidores do show do Sonic Youth e lhe deu um soco. O motivo até hoje é controverso. Alguns dizem que Hanna fez comentários negativos sobre Frances, outros afirmam que não havia absolutamente nada entre as duas. Quem sabe Love tinha ciúmes da relação de Hanna e Tobi Vail, ex- namorada de Kurt? Não há uma conclusão. Mas uma coisa é certa: as cenas eram contemporâneas e as garotas grunge feministas interagiam com a cena Riot Grrrl, pois Seattle e Olympia eram cidades próximas, uma amostra são as bandas L7, 7 Year Bitch e Babes in Toyland que ficam entre as duas subculturas.

Direções opostas, mas havia semelhança nos sentimentos
As mulheres são o futuro do rock n' roll. Pegue algumas guitarras!


As Riots e a moda
O Riot Grrrl é considerado o primeiro grupo feminino (ou predominantemente) da história ocidental do street style, já que poucos homens eram permitidos a participar e acabavam sendo mais "decorativos" do que ativos. Elas usavam a feminilidade de forma provocativa, subvertendo os estereótipos de feminino. Nas bandas Riot de Olympia, predominava um visual retrô de influência anos 1960 com um mix da moda mainstream do momento (mostramos aqui), como baby looks e saias evasê com coturno ou all star. Usavam também roupas de segunda mão, t-shirts, moletons, tatuagens, piercings. As Riots eram muito diversas esteticamente porque o movimento era focado em música e no feminismo e não tanto numa moda específica. Utilizavam a indumentária como forma de protesto, se a regra era ser "#bela, recatada e do lar", elas subvertiam usando minissaias, vestidos curtos e lingerie. Estética bem similar ao que as The Slits faziam em 1970!

Bikini Kill: o uso de vestidos com ar retrô anos 60 ou que acompanhavam a silhueta do momento eram frequentes. Sendo curtos, usados com botas ou tênis.


O uso de saias era habitual, vale lembrar que no rock, pra se igualar aos homens, muitas mulheres optavam por usar calças ou o extremo oposto, as fãs de Hard Rock apostavam na clássica minissaia justíssima com apelo sexual, e as Riot quebram isso, vestindo saias curtas mas evasê ou de pregas e/ou com meia calça, fazendo da peça divertida, provocativa e empoderadora no palcoOs tecidos, estampas e formato das camisetas equivalem à moda dos anos 1990, nas baby looks ou t-shirts.
 

Bratmobile: também um exemplo da mistura do retrô sessentista com o estilo alternativo da época com blusa baby look, estampa de bicho e até blusa em vinil usada com calcinha e meia calça colorida com arrastão por cima.


Sleater-Kinney: dentre as três, a banda que tinha um visual mais anos 90, com saias usadas com meia calça e botas e peças clássicas/atemporais.  
 

Há de se falar sobre a maquiagem, pouco usada ou não elaborada. Naquela época, estar bem maquiada era uma obrigação social às mulheres, assim, não usando maquiagem ou a usando de forma desleixada, elas desafiavam as convenções de beleza exigidas. A ideia de uma feminilidade padronizada produz efeitos negativos na autoestima das adolescentes e elas queriam quebrar isso. 

Tobi Vail

As Riots queriam tomar o poder dos seus corpos que havia sido entregue à objetificação sexual e regras de comportamento. Em uma sociedade que ojeriza o pêlo corporal da mulher, elas passam a não se depilar e exibir sem receio. Quando Kathleen cantava de sutiã ou calcinha à mostra, era um modo de dizer que aquele corpo tinha uma dona e que nenhum homem tem direito a invadi-lo (abusar ou estuprar), e não haveria imposições da indústria sobre como deveria ser sua estética e a forma de expor sua sexualidade.



O som
A música surgiu como uma extensão do protesto feminista das Riots. Sendo punks, seguiram o lema "faça você mesmo" aprendendo a tocar os instrumentos sozinhas. Elas queriam mostrar que Rock também era para mulheres e incentivá-las a montarem suas bandas. O som ia desde hardcore, anarcopunk e queercore.

"Temos raiva da sociedade que diz: garotas são burras, garotas são más, garotas são fracas."

Até hoje é difícil encontrar mulheres bateristas, esse é um dos maiores dilemas para quem quer montar uma banda só de meninas. Inclusive tal questão é destacada no documentário Hit So Hard da Patty Schemel.

Duas minas no comando da batera: Molly Neuman e Tobi Vail

Allison Wolfe
Bratmobile


Musas femininas (e feministas), influências e referências
Kim Gordon, baixista da banda Sonic Youth, era admiradora do movimento e se tornou amiga das garotas do Bikini Kill. Ela cita muito a experiência em sua autobiografia, A Garota da Banda.

 "Estou grávida de uma menina. Espero que ela seja uma Riot Grrrl" 

Kim convidou Kathleen para participar do clipe "Bull in the Heather". Era na fase em que o Bikini Kill mantinha o apagão na mídia. Gordon achou que seria um jeito de trazer a cantora ao mainstream como forma de provocação, mesmo arriscando Hanna a sofrer retaliação do meio Riot.


“Mulheres são anarquistas e revolucionárias naturais, porque elas sempre foram consideradas cidadãs de segunda classe, tendo garra pra criar seu próprio caminho. Quero dizer, quem fez todas as regras de nossa cultura? Os homens - homens brancos da sociedade corporativa. Então por que uma mulher não pode se rebelar contra isto?" - Kim Gordon

Joan Jett: é considerada a musa inspiradora do movimento. Em 1994, Jett produz em sua gravadora e faz backing vocals para um single da Bikini Kill, enquanto que sua banda The Blackhearts trás faixas com Kat Bjelland (Babes in Toyland), Donita Sparks (L7) e Kathleen Hanna. Nas fotos, Jett com Bikini Kill e Kathleen Hanna.



A decadência
“Precisamos nos fazer visíveis sem usar a mídia mainstream como ferramenta. A mídia corporativa cooptou e trivializou um movimento de garotas raivosas que poderia ser verdadeiramente ameaçador e revolucionário. A mídia distorceu as visões de nós mesmas criando hostilidade, tensão e inveja num movimento supostamente sobre apoio de garotas. Numa época que Riot Grrrl se tornou a próxima tendência, precisamos tomar de volta o controle de nossas vozes.”

A mídia mainstream as tornou um espetáculo, o foco saiu do feminismo e autoprodução para o senso de moda punk. Muitos as consideravam apenas jovens que queriam chamar a atenção. O movimento decai em 1997 quando a mídia tenta desacreditar e apagar jovens feministas da cena política e passou a jogar umas contra as outras e a criar tramas sexistas. Com o tempo as meninas foram marginalizadas na cena que se tornou hostil e até perigosa para elas.


Girl Power
A palavra "girl power" promovida pelos zines Riot para superação de abusos e violência, encorajando mulheres a formar bandas e experimentar com música foi cooptado pelo mainstream. O caso mais famoso é o do grupo Spice Girls, que esvaziou do termo seu significado original - para as Spice, o “girl power” era focado em moda e romance heterossexual onde a mulher dominava o relacionamento. Sendo populares, nunca disseram que o termo teve origem no movimento Riot Grrrl. Hanna chegou a dizer numa entrevista que a diferença entre o feminismo das Riot e o das Spice Girls é que o das inglesas era um produto, marketing.

Este zine é considerado o primeiro
registro Riot Grrrl do termo "Girl Power"

Em sua autobiografia, A Garota da Banda,
Kim Gordon fala sobre o "Girl Power":

"No final do dia é esperado que as mulheres sustentem o mundo, não que o aniquilem. É por isso que Kathleen Hanna, do Bikini Kill, é tão incrível. O termo girl power (poder feminino) foi cunhado pelo movimento Riot Grrrl, que Kathleen Hanna liderou nos anos 1990. Girl Power: uma frase que mais tarde seria cooptada pelas Spice Girls, um grupo criado por homens, cada Spice rotulada com uma personalidade diferente, lapidada e estilizada para poder ser comercializada como um perfil feminino falso. Coco [filha de Kim] era uma das poucas meninas no jardim de infância que nunca tinha ouvido falar delas, e essa é uma forma do poder feminino, dizer não à comercialização das mulheres!"

Curiosidades:
Em 2015 as Riots doaram zines, jornais, imagens, material pessoal para a Fales Collection na New York University’s Bobst Library para um arquivo histórico do Movimento Riot Grrrl.

Se hoje é comum ver mulheres em bandas de rock, há 20 anos a ideia de jovens meninas sendo protagonistas de bandas e de uma cena inteira foi algo realmente novo e radical!

Embora tenha havido mulheres na cena punk desde a década de 1970 - Siouxsie Sioux, Joan Jett, Patti Smith, Chrissy Hynde - o Riot é considerado o movimento que mais frequentemente creditou e trouxe punk e feminismo juntos. 

A palavra “Grrrl” entrou oficialmente para o Dicionário Oxford em 2001 como sendo um ativismo feminino de engajamento punk e diversas formas de produção cultural.

Se quiser saber um pouco mais sobre o feminismo na década de 1990, leia nosso post sobre a Revista Sassy e também o filme “The Fabulous Stains”, o qual influenciou Tobi Vail.

"Acho que toda garota deveria ganhar uma guitarra no seu aniversário de 16 anos."


Hoje com a banda The Julie Ruin, Kathleen Hanna aparece nas fotos abaixo com a baixista Kathi Willcox em 2015; com Joan Jett em 2013 e abaixo, no palco observem que Hanna, aos 46 anos, ainda mantém o estilo de usar "lingerie" com meias calças e Kathi um vestidinho, mostrando que ambas mantém o estilo pessoal da época Riot.

Joan Jett 2013 e The Julie Ruin 2015



O Movimento Riot Grrrl no Brasil
No Brasil, a banda Dominatrix capitaneada por Elisa Gargiulo é uma das maiores referências do movimento que chegou por aqui em 1995. Elisa organizou seis edições nacionais do LadyFest. As bandas Riot brasileiras usavam os primórdios da internet pra se divulgar, produziam zines e shows. Havia resistência de conhecidas bandas punks nacionais (com integrantes homens) com as meninas, chegando haver situações de extremo machismo e hostilidade com as jovens. Assim como no exterior, no Brasil havia a estimulação da rebeldia, da libertação de padrões corporais e ideais de beleza assim como o engajamento feminista.
Quero aproveitar e dizer: se algum de vocês, leitores (as), tem guardado algum zine Riot nacional dessa época, entra em contato com a gente, adoraríamos dar uma olhada (poder ser por fotos!) nessa relíquia! ;D

Para a revista Trip, Elisa Gargiulo declarou sobre o LadyFest: "A importância dessa festa é que ela divulga cultura feminista autogestionada. E a função da cultura feminista, assim com das Marchas das Vadias, é demonstrar um estilo de vida pra fora do patriarcado, rompendo com mitos como a rivalidade entre mulheres, o clássico "mulher não sabe tocar instrumentos", entre outras babaquices. A grande mídia e as corporações oferecem apenas um estilo de vida pras mulheres (e exclui da categoria 'mulheres' as de pele negra, as trans, as lésbicas etc). Eventos culturais feministas provam que existem milhões de mulheres ao redor do mundo vivendo experiências felizes e inspiradoras pra fora dessa lógica capitalista patriarcal"

Algumas bandas brasileiras: Cosmogenia, Kaos Klitoriano, Bulimia, Lava, Mercenárias, Menstruação Anárquica, Anti-Corpos, No Steriotypes, Cosmogonia, Letty, Trash No Star.


"Punk Rock não é só pro seu namorado",
da Banda Bulimia é um dos hinos Riot nacionais

♪♫ O que te impede de lutar? O que te impede de falar? Pare de se esconder
Você não é pior que ninguém / Punk rock não é só pro seu namorado /
Você sempre quis tocar / Você sempre quis andar de skate / Você que sempre quis quis quis /
Você não é um enfeite!
Punk rock não é só pro seu namorado / Faça o que tiver vontade / Mostre o que você pensa
Tenha a sua personalidade / Não se esconda atrás de um homem ♪♫
"Punk Rock não é só pro seu namorado" foi lindamente ilustrado por Jéssica Lisboa, acesse aqui pra ver.


Experiência pessoal de uma das autoras desta postagem:
Eu (Sana) conheci o Riot Grrrl em 1997 quando o caderno Mais! do Jornal Folha de SP trouxe um especial sobre a história do Movimento. Ler aquilo mudou a minha vida. Eu já gostava de rock e já tinha pensamentos feministas, mas não sabia que aqueles pensamentos se chamavam "feminismo". A partir do momento que eu descobri que haviam outras garotas com o mesmo pensamento e que aquilo tinha um nome, pude nortear todo o resto de minha adolescência, me tornando desde então mais consciente sobre a cena rock/metal para as mulheres e questionado nosso papel na sociedade.

Mesmo eu sendo novinha, a matéria me marcou tanto que guardei o jornal. Quando hoje o releio, percebo algumas falhas, logo na capa elas são chamadas de Bad Grrrls (garotas más), mas já alertava pro pioneirismo: "desencadeia uma onda feminista inédita formada por adolescentes que protestam por meio do rock...para criar uma subcultura revolucionária". Esse jornal trouxe a história de todas as ondas do feminismo e foi aí que conheci as Sufragistas e também foi meu primeiro contato com a imagem de Bettie Page! A matéria tem 5 páginas (na foto abaixo, apenas 2) e já mistura grunge com Riot, arte e cultura pop. Notem o visual da banda Kit Kat Club na capa: vestidos retrôs, meia, tênis, coturno, como as Riots americanas.


Empolgada, fiz um zine Riot, depois talvez poste sobre ele aqui no blog :)

Considerações finais das autoras:
♀ Este artigo tem foco nas bandas fundadoras do Movimento, em parte pela dificuldade de encontrar material escrito e de imagens, mas existiam diversas outras e diversos outros tipos de engajamento! 

O documentário Punk Singer não deve ser levado como a única verdade dessa cena. O filme homenageia uma das criadoras, Kathleen Hanna, mas é preciso lembrar que o Riot se espalhou pelo país e pelo mundo. Cada menina, de cada cidade, moldava as pautas de acordo com sua localização. Muitas bandas ficaram no underground devido o apagão que fizeram na mídia, sendo necessário pesquisas mais profundas para encontrá-las. "Eu não era a líder de tudo, existia um monte de grupos diferentes que se reuniram em todo o país e em diferentes partes do mundo. Eu não tinha conexões com eles. Não tínhamos celulares ou internet. Como eu era supostamente a líder se embora eu não pudesse me engajar com todas essas pessoas?", relata Hanna em entrevista.

Há controvérsias sobre como classificar o Riot Grrrl. Embora haja ideologia + música + moda tornando-as uma subcultura, elas não seriam tribo de estilo pois o foco não era em moda. O uso mais comum é como sendo um "movimento de cultura juvenil", mas as próprias Riots não se assumem como um movimento. Optamos por usar no texto tanto 'subcultura' quanto 'movimento' pois não dá pra saber se essa falta de nomenclatura correta tem a ver com os poucos estudos sérios dedicados à elas, que falo a seguir.

Exceto por livros específicos lançados em tempos recentes, os livros sobre subculturas ou tribos (inclusive os publicados no fim da década de 1990) ou não citam as Riot, ou dedicam apenas um parágrafo à elas. Isso me intrigou muito durante o processo de pesquisa: por que um movimento juvenil feminino e feminista tão importante, mal aparece nos livros sobre cultura juvenil, subculturas e tribos urbanas? Isso se torna ainda mais bizarro quando percebemos a imensa influência das Riot entre bandas femininas e cantoras do rock surgidas posteriormente e até os dias de hoje. O lado bom é o atual resgate do movimento em documentários e livros escritos por mulheres que estudaram ou participaram da cena no passado.
É muito importante que a participação das mulheres no Rock não seja mais apagada da história e nem menosprezada como costuma ser. Então pra gente que é fã de Rock, se os livros 'sérios' as esquecem, é um imenso prazer ajudar a manter viva a memória destas meninas que meteram a cara no patriarcado, berraram com raiva, tiveram atitude e foram ativistas para os direitos das mulheres.


E finalizamos com a opinião de Kathleen Hanna
ao ser indagada se o Riot Grrrl ainda vive:

"Eu realmente não quero que o Riot Grrrl viva porque não me interessa fetichizar algo que já aconteceu. Estou interessada em mulheres que desejam fazer algo mais interessante do que nós fizemos, e que vão desafiar e criticar o que fizemos; e através dessa crítica venham com algo muito melhor. É isso que me anima, e não fan sites com fotos das bandas Riot Grrrls."

Então #ficadica da Hanna: criar algo que seja tão mais interessante do que o Riot Grrrl!
Contamos com o girl power de vocês ;D

Não deixem de comentar a postagem, dizerem o que acharam. ♥


Para escrever este artigo, estudamos algumas fontes citadas abaixo, mas a ideia, formato de post e escrita foram elaboradas por mim (Sana) e pela Lauren em conjunto. Assim como os zines Riot, nosso blog é uma mídia independente feita por mulheres e precisamos de apoio pra continuar nossas pesquisas. Compartilhar e divulgar é permitido, sendo esta a forma mais justa de reconhecer e agradecer nosso trabalho. Fica sendo proibida a reprodução total do conteúdo aqui presente sem autorização prévia. Plágios serão notificados a serem retirados do ar. Para usar trechos do texto como referência em seus sites ou trabalhos, linke o artigo do blog como respeito ao nosso direito autoral (lei nº 9.610). Obrigada e compartilhem o link se curtirem a matéria! ♥


Consultas de conteúdo:
Documentários: "The Punk Singer

“Don’t Need You: The Herstory of Riot Grrrl”
Livros: "Girls to The Front – The True Story of The Riot Grrrl Revolution”, de Sara Marcus;
Interrogating Postfeminism: Gender and the Politics of Popular Culture, editado por Yvonne Tasker e Diane Negra;
Gender in the Music Industry: Rock, Discourse and Girl Power, de Marion Leonard;
Global Punk: Resistance and Rebellion in Everyday Life, de Kevin Dunn;
Girl Power: The Nineties Revolution in Music, de Marisa Meltzer;
Caderno Mais! Jornal Folha de SP, outubro 1997.
Blogs nacionais sobre Riot Grrrls:

Trabalhos Acadêmicos:
A moda como objeto de informação: o caso do movimento feminista punk Riot Grrrl, de Edma Lima de Castro, Jetur Lima de Castro, Alessandra Nunes de Oliveira, 2015
Cultura juvenil feminista Riot Grrrl em São Paulo, Erica Isabel de Melo
O Feminismo não Morreu, as Riot Grrrls em São Paulo, Debora Cristina de Melo Rocha, UFSE 2007
O grito das garotas, Fernanda Gomes Rodrigues, UnB 2006
Um jeito diferente e novo de ser feminista: em cena o Riot Grrrl, Jéssyka K. A. Ribeiro, Jussara C. Costa , Ialina M. F. L. Santiago, UFPB 2012



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