.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: Abril 2017

21 de abril de 2017

Ash Costello processa Iron Fist pela autoria de sua coleção "Bat Royalty"

Em outubro de 2015 foi lançada pela Iron Fist, a coleção Bat Royalty, criada pela cantora Ash Costello. A coleção, cheia de elementos darks, contrastava com o perfil comercial da marca super colorida e irreverente. Essas parcerias não são incomuns na moda mainstream, e na cena alternativa pode ser uma boa ideia pois junta criadores (que podem não ter estrutura para se lançar sozinhos) com empresas conhecidas que estão dispostas a vender produtos destes criadores. 


A coleção Bat Royalty trazia como carro chefe uma botinha com asas de morcego que foi de extremo sucesso mundial! Outras peças da coleção também formavam asas de morcego em detalhes, como nas golas e estampas, como podemos ver no anúncio abaixo, que recebi por email na época de lançamento.


Logo depois diversas marcas alternativas também começaram a vender calçados com asinhas de morcego e outras peças inspiradas na coleção criada por Ash. Sendo um sucesso mundial que rendeu cópias e até plágios, é de supor que Ash Costello foi super bem remunerada, não é? Parece que não. Para a cantora, isso se tornou um pesadelo. Ontem (20/04), a vocalista da banda New Years Day, indicou a leitura de um artigo que conta o que está acontecendo. O artigo é da Alternative Press e tomei a liberdade de traduzi-lo abaixo.


Tradução (com edições):
"Hoje, Costello entrou com um processo contra a empresa [Iron Fist] citando 14 ofensas. Alega que a Iron Fist pegou desenhos que Costello lançou e usou-os para outras linhas, pagou Costello apenas um pequeno número de vendas [da coleção] Bat Royalty, divulgou imagens que Costello nunca foi informada sobre e removeu o logotipo "Bat Royalty" dos projetos Bat Royalty vendendo-os como outros produtos marca Iron Fist."
"Em 2014, Costello começou a trabalhar com os réus para produzir a marca Bat Royalty", diz a queixa. "Depois de uma fase de lua de mel com os réus, os pedidos de contabilidade de Costello em relação à marca foram repetidamente ignorados, seus projetos foram rotineiramente roubados para outras roupas e acessórios da Iron Fist, o nome e semelhança de Costello foram indevidamente explorados ou indevidamente excluídos de materiais de marketing da marca."

Costello diz que enquanto no exterior a linha de vestuário foi um sucesso, a realidade era totalmente diferente. "Estou chateada porque minha primeira linha de roupas foi tão bem sucedida no exterior e tão abraçada por meus fãs, enquanto eu estava sendo roubada de minhas ideias, meu dinheiro e, mais importante, de respeito nos bastidores", disse Costello em uma declaração à Alternative Press. "Estou ainda mais chateada que meus fãs, que eu amo e que significam tanto para mim, eu não era nada além de um dia de pagamento e a pessoa a explorar a Iron Fist."

De acordo com Ash Costello, a Iron Fist também divulgou itens da Bat Royalty juntamente com mercadoria não-Bat Royalty, criando assim confusão e fazendo os fãs comprarem outras marcas da Iron Fist que não eram a de Costello.

 A cantora modelando suas criações para Bat Royalty.

"Não muito tempo depois de sua relação de negócios, a Iron Fist começou a anunciar produtos da sua linha Night Walker ao lado dos produtos Bat Royalty, sem distinção entre os dois, o que levou à confusão real entre os leais fãs de Costello (...)", afirma a denúncia. "Além disso, em várias ocasiões, Iron Fist iria vender vários produtos da marca para o varejo e comercializar os itens como sendo Bat Royalty usando o nome de Costello. Ela nunca foi compensada por essas vendas ou por este uso de seu nome, o nome Bat Royalty, ou sua semelhança. Infelizmente, os fãs de Costello foram intencionalmente enganados pela Iron Fist e foram induzidos a comprar produtos que Costello não tinha nada a ver e não recebeu nenhum benefício." Costello diz que muitos dos projetos Night Walker ou Iron Fist foram ideias que ela lançou para Iron Fist como produtos Bat Royalty, e  que a Iron Fist rejeitou na época.


Iron Fist deu a Costello um espaço no armazém onde ela trabalharia em seus projetos Bat Royalty onde foi alegadamente "insultada e condescendida pelos funcionários da Iron First, incluindo a esposa do proprietário, que ridicularizaria Costello observando que ela era "quase como uma verdadeira estilista" ou referindo-se a ela como "Bat Von D", como a denúncia determina. Quando ela e sua banda New Years Day saíram em turnê, a Iron Fist limpou o espaço de trabalho e demorou a retornar seus projetos e materiais mesmo depois de múltiplos pedidos, afirma Costello.

A denúncia também afirma que Costello tinha uma estreita relação com Hot Topic por causa de sua banda, New Years Day. Para crescer a marca [Bat Royalty], Costello estabeleceu reuniões entre Hot Topic, Iron Fist e ela mesma. "Não muito tempo depois, os funcionários da Iron Fist começaram a agendar reuniões com o Hot Topic sobre a marca [Bat Royalty] sem incluir Costello, ou atualizando-a sobre quaisquer novos desenvolvimentos que surgiram dessas reuniões", diz a denúncia.

Vídeo da Hot Topic divulgando a coleção de Ash Costello


Costello também diz que Iron Fist não conseguiu fornecer-lhe informações financeiras precisas sobre a Bat Royalty. A queixa diz que as declarações que ela recebeu excluíram as vendas externas e omitiram alguns produtos (incluindo algumas variedades da "Bat Wing Boot", que o documento diz que é um dos mais bem sucedidos produtos Bat Royalty) e lojas de varejo inteiramente. "A situação tornou-se tão impossível que Costello foi forçada a ir a varejistas individuais diretamente para saber como os produtos Bat Royalty estavam vendendo", afirma o documento. "Costello também começou a acompanhar de perto plataformas de mídia social para uma vaga ideia de se certos produtos [Bat Royalty] estavam vendendo bem."

"Os fatos apresentados em nossa denúncia falam por si mesmos", diz a advogada de Costello, Katrina Bleckley. "Este é apenas mais um exemplo de uma empresa tirando proveito de um artista brilhante para seu próprio ganho. É lamentável que tenha chegado ao litígio, mas Ash E sua equipe estão preparados para lutar por seus direitos, seus fãs e sua marca ".



A queixa acrescenta que Costello tentou resolver as questões durante semanas. "A Iron Fist respondeu com outras promessas quebradas e, em seguida, uma oferta de assentamento que exigiu que Costello permanecesse nesta relação abusiva, promovendo os produtos Iron Fist e cedendo pelo menos metade da marca que ela concebeu, construiu e garante propriedade da Licença"

Após a publicação deste artigo, a Iron Fist mandou o seguinte resposta à Alternative Press: "Esta é uma questão legal que será respondida em conformidade, e a Iron Fist nega as alegações na denúncia e na história publicada pela Alternative Press. "

- Fim da Tradução-


Recentemente ocorreram vários casos de empresas de moda desrespeitando a propriedade intelectual seja de artistas, seja de outros designers, historiadores e escritores. Há algum tempo observo que algumas marcas alternativas viraram verdadeiras corporações. E não é por fazerem "moda alternativa" que estão isentas de ganância e desrespeito. Tivemos casos polêmicos com Lime Crime,  Dolls Kill  e agora a Iron Fist. Difícil esta situação, pois ao mesmo tempo que gostamos do que estas marcas vendem, tem outra questão importante: a ética. Será que Ash se exporia ao mundo dessa forma se algo não fosse verdade? Pois coloca em risco a carreira e imagem dela (sabemos como as mulheres são silenciadas nesse mundo).

O modelo da bota com asinhas de morcego foi criado pela Ash, mas é anunciado como patenteado pela Iron Fist, então quem copia, precisa tomar cuidado pra não ganhar um processo ou ter que pagar a empresa... Mas não sei dizer pra vocês se a patente está só no nome da Iron Fist ou no da Ash. Se não estiver no nome da Ash, a criadora, é uma baita sacanagem corroborando as alegações da cantora. 

Temos a mentalidade que criações de moda "não tem dono",
mas criações autorais e artísticas tem sim
! Estamos de olho! 



Link do Artigo Original.



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17 de abril de 2017

“Mãe, minha professora tem o cabelo azul!” - Sobre ensinar e aprender sendo uma profe alternativa

A frase que dá nome a este post foi proferida por uma aluna minha quando me descrevia para a sua mãe, e foi dessa maneira que a mãe pôde me reconhecer na reunião de pais. Essa é apenas uma faceta de ser uma professora alternativa. Fora os cabelos, tenho um visual relativamente “passável”, pois consigo esconder bem as oito tatuagens que tenho. Mas por que as tatuagens seriam um problema?

Em verdade elas não são; mas sempre que entro em um novo ambiente de trabalho, em uma escola em que ainda não estou familiarizada nem com os colegas de trabalho nem com os alunos, prefiro escondê-las, porque sei que o preconceito vem muitas vezes dos outros professores e das famílias dos alunos. É engraçado ver que os alunos não tem preconceito com tatuagens; pelo contrário, eles amam!

Mas enfim, em ambientes novos, nunca mostro as tatuagens de primeiro; espero conhecer bem os professores, conhecer bem as turmas pra depois ir mostrando aos poucos. A reação dos alunos é sempre positiva. Um dia encontrei na internet esta matéria aqui: "Desempenho dos alunos é melhor se o professor tem tatuagem" e fiquei bem feliz! Essas novas gerações estão vindo com bem menos preconceito do que seus pais e avós tinham com relação a isso. Às vezes ainda pego algumas pessoas que fazem parte da comunidade escolar me olhando torto, mas é minoria. Nas escolas em que trabalhei nunca me foi pedido para esconder os desenhos, mas alguns colegas meus de profissão já passaram por constrangimentos do tipo; em um dos casos, a diretoria da escola pediu que o professor usasse camisetas de meia manga, para que não aparecesse a tatuagem do braço. Ainda temos que lidar com isso, em pleno 2017. 

Trabalhinho escolar: releituras de retratos antigos
e mumificação (as góticas piram!)


Em relação às roupas, sempre que me arrumo pra dar aula, eu fico alguns minutos na frente do espelho me olhando e pensando se a roupa está “adequada”. Alguns anos atrás, quando eu era uma riot grrrrrl indignada, eu ficaria furiosa comigo mesma, pensando em “amenizar” o visual para trabalhar (sendo que eu procurei por uma profissão que não fosse me incomodar muito na questão estética). Mas como já escutei de tudo em relação às minhas roupas, e aluno é uma criatura que repara em ABSOLUTAMENTE TUDO que está bagunçado em você, ando evitando bermudas muito curtas (short nem pensar), saias muito curtas, vestidos muito curtos. Nunca fui uma grande fã dos curtos (só dos cabelos curtos) e não gosto quando adolescentes ficam cuidando o tamanho da sua roupa, e eles fazem muito isso. Ao mesmo tempo enfrento um dilema, pois não sei se é moralismo meu não querer ir trabalhar assim justamente pra não me incomodar com os comentários que podem surgir (porque tem dias que a gente simplesmente não quer responder nada!) ou se eu deveria ir assim mesmo e ser a louca problematizadora que responde à todo e qualquer comentário com uma aula (HAHAHAHAHA).

Quando comecei a dar aula: tinha escola que não me queria por lá!

Bem, essas são questões que eu tenho que lidar todos os dias. Seja na hora de escolher um colar (“coloco a caveira no pescoço? Ou Baphomet? Muito assustadora pra crianças?”), pentear (ou não) o cabelo, até a escolha do sapato (“será que ir de chinelo seria um pouco demais?”). Muitas coisas podem surgir aí. Uma vez uma amiga minha, também professora, me disse que não sabia se estava na profissão certa porque ela não tinha “jeito de professora”, se referindo àquelas imagens idealizadas de professoras perfeitas e meigas que só existem na ficção. Ora, mas qual é o jeito de professora? Ser professora também é ser plural!


Autora: 
Nandi Diadorim. Historiadora e professora na rede municipal de ensino no Rio Grande do Sul. Guitarrista em uma banda de punk rock. Cachorreira, gateira, vegetariana, feminista...em suma, a incomodação em pessoa.




Artigo de Nandi Diadorim em colaboração com o blog Moda de Subculturas. É permitido citar o texto e linkar a postagem. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui presente sem autorização prévia do autor. É proibido a cópia da ideia, contexto e formato de artigo. Plágios serão notificados a serem retirados do ar (lei nº 9.610). As fotos pertencem à seus respectivos donos; a seleção e as montagens das imagens foi feita exclusivamente para o blog baseado na ideia e contexto do texto.


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10 de abril de 2017

Os padrões eurocêntricos de beleza e a moda alternativa/subculturas

Sempre me interessei pelo tema do etnocentrismo, principalmente ligado à moda. Como professora de adolescentes, seguidamente peço aos alunos pra que façam uma pesquisa rápida de imagens no Google com o tema “beleza clássica”. Vale a pena dar uma olhada. Seguem algumas imagens.

Liz Taylor
Audrey Hepburn / Brigitte Bardot

Audrey Hepburn, Brigitte Bardot, Liz Taylor, entre outras, sempre vão figurar como ícones de beleza clássica, cânones do que consideramos como mulheres belas. Bem, o que todas elas tem em comum? São brancas e possuem os cabelos lisos, ou no máximo, ondulados (como mandava a moda da época). Trazendo este padrão para os dias atuais, podemos acrescentar que estes padrões trazem modelos cada vez mais magras como um ditame a ser seguido.

Etnocentrismo é isso: quando um padrão físico muito específico (pele branca, cabelos lisos, ser alta e magra) é ditado como regra ÚNICA de beleza, ou seja, tudo que foge a este estereótipo é taxado como não belo, feio, estranho, esquisito. Uso também o termo específico “eurocentrismo” para designar este padrão, uma vez que são estereótipos europeus de beleza.
É claro que este eurocentrismo não está apenas nos padrões de beleza: é apenas mais um veículo de propagação deste sistema de ideias. O eurocentrismo se manifesta na maneira como geralmente enxergamos o mapa mundi (a Europa no centro é a representação planisférica mais comum do planeta, embora seja apenas mais UMA maneira de representar), como enxergamos e reproduzimos estereótipos sobre outros países e continentes que não a Europa ou Estados Unidos. É uma construção intelectual muito antiga, que remonta ao colonialismo europeu do século 16, que envolve a chegada e conquista da América e do nosso Brasil.


No século 16 a “desculpa” para a conquista de novos territórios era a catequização dos povos nativos, os indígenas, que segundo a lógica eurocêntrica, eram bárbaros, incivilizados, subdesenvolvidos e os europeus seriam os responsáveis pela sua salvação. No século 19, quando a desculpa religiosa não cabia mais, a ciência da época justificava o domínio europeu sobre a África e a Ásia defendendo uma falsa superioridade europeia sobre estes povos, que não por acaso, tinham a pele escura e seriam então “civilizados” pelos europeus, que fariam este grande favor a humanidade (tem ironia aqui, certo pessoal?).
Não precisamos ir muito longe para saber que essas ideias racistas, tidas como ciência na época, iriam nos levar ao nazismo e a outros genocídios no século 20, e sobrevive até hoje como ideologia de grupos extremistas, que carregam orgulhosamente a bandeira do eurocentrismo, inclusive no Brasil.

 Imperialismo: mapa da partilha da África entre as nações europeias


Imperialismo
O que tudo isso tem a ver com a estética alternativa? Bem, até meados dos anos 1960 o padrão eurocêntrico era o único aceito como “belo”, podemos tirar uma febre pelas atrizes citadas acima. A partir do surgimento da subcultura dos hippies, e posteriormente dos punks, estes grupos vão resgatar em sua estética alguns elementos dos grupos que foram dizimados pelos europeus na época da colonização e do imperialismo, especificamente das culturas indígenas.
Dos hippies podemos notar em suas vestimentas as influências claras das culturas indígenas norte-americanas, como as estampas coloridas, as roupas com franjas e acessórios com penas, fibras naturais e sementes. A ênfase que essa subcultura dava ao artesanato e ao “faça você mesmo” também retoma aspectos das culturas indígenas pré-colombianas.
Não houve apenas um ressurgimento da estética indígena, mas das suas religiosidades também. Os hippies buscaram uma quebra com a religião tradicional de seus pais, cristãs, e se apropriaram de uma religiosidade xamânica ou oriental, todas elas pré-colonização. A popularização dos filtros dos sonhos, um clássico na subcultura hippie, advém dessa retomada: seus poderes mágicos “filtrariam” os sonhos ruins daquele que o portasse.


Os punks tem como um dos seus símbolos mais fortes os cabelos moicanos, que possuem esse nome pois se referem ao povo indígena dos moicanos (mohawks, no original), um dos povos que mais resistiu ao colonizador europeu. Por esse motivo, os punks incorporam este corte como símbolo de resistência.



Por último, as subculturas incorporaram as tatuagens ao seu repertório. Por que as incluo aqui? Porque segundo a “pseudo-ciência” racista do século 19, tatuagens e modificações corporais seriam as marcas usadas por criminosos para se identificarem. Essa é uma afirmação racista também visto que tatuagens e modificações corporais eram muito utilizadas por povos nativos, tanto na América, como na Ásia e na África, e foram brutalmente condenadas pelo colonizador europeu. É uma pena ver que ainda tem gente que pensa que tatuagem é coisa de criminoso (ver pintura de Debret abaixo, caracterizando os “tipos estranhos das Américas”).

Modificações Corporais:
"Diferentes Nações Negras", de
Jean Baptiste Debret.


"Indígenas", pintura de Jean Baptiste Debret retratando os indígenas do Brasil.


Concluindo: algumas subculturas desconstroem os padrões de beleza etnocêntricos, sendo muitas vezes essa a sua razão de ser. Entretanto, ainda vemos alguns editoriais de moda alternativa que seguem fielmente o padrão de modelos brancas, magras e altas, embora isso venha mudando nos últimos tempos. Mais lamentável ainda é vermos alternativos sendo racistas, gordofóbicos e preconceituosos de maneira geral: me parecem que não compreendem suas próprias subculturas.



Autora: 
Nandi Diadorim. Historiadora e professora na rede municipal de ensino no Rio Grande do Sul. Guitarrista em uma banda de punk rock. Cachorreira, gateira, vegetariana, feminista... em suma, a incomodação em pessoa.





Artigo de Nandi Diadorim em colaboração com o blog Moda de Subculturas. É permitido citar o texto e linkar a postagem. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui presente sem autorização prévia do autor. É proibido a cópia da ideia, contexto e formato de artigo. Plágios serão notificados a serem retirados do ar (lei nº 9.610). As fotos pertencem à seus respectivos donos; a seleção e as montagens das imagens foi feita exclusivamente para o blog baseado na ideia e contexto do texto.


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3 de abril de 2017

ROCKABILLY BRASIL: O primeiro registro em livro sobre a cena nacional

Escrito por Eduardo Molinar, Rockabilly Brasil é o primeiro registro em livro da cena Rockabilly nacional. Publicado de forma independente, é das poucas obras disponíveis sobre as subculturas brasileiras.

subcultura-rockabilly


Eduardo Molinar é um jornalista de apenas 22 anos que escuta rockabilly pelo menos desde os 8 anos de idade. Por muitos anos usou o estilo sem saber que aquilo era rockabilly, até que descobriu que existia toda uma subcultura. De um rockabilly solitário no interior do Rio Grande do Sul viu que existia mais um monte de gente como ele no Brasil todo, e decidiu escrever o livro ao perceber a falta de registros oficiais sobre a cena nacional.


"Mas afinal, o que é Rockabilly?" 
Esta é uma das perguntas que Eduardo mais ouviu na vida especialmente quando contava a alguém que estava escrevendo um livro sobre o tema. Segundo ele, a forma mais fácil de fazer os leigos entenderem é citar Elvis Presley, afinal todos conhecem o Rei do Rock, que é um dos responsáveis pelo surgimento do primeiro subgênero do Rock n Roll.

subcultura-rockabilly


"Se você quer ter uma conexão com o movimento Rockabilly, não digo que precisa falar bem, mas não pode falar mal do Elvis"
- Rick n roll

O livro tem linguagem super acessível, não sendo necessário ter conhecimento prévio sobre a subcultura. Começa com uma introdução com a história do Rockabilly na Inglaterra e Estados Unidos, explicando o surgimento do som, da nomenclatura e citando artistas pioneiros como Eddie Cochran, Gene Vincent, Carl Perkins, Buddy Holly e Billy Fury, abordando desde seus primórdios em meados da década de 1950, a sobrevivência do estilo no underground nos anos de 1960 para tomar novo fôlego a partir do fim da década de 1970 com um revival do estilo, o Neo Rockabilly, que trazia bandas como Stray Cats, Polecats, Levi and the Rockats e a mistura sonora de punk com rockabilly.  Daí parte-se para 19 capítulos sobre os pioneiros no rockabilly no Brasil e quem fez parte da cena até os dias de hoje. Nestes capítulos unem-se depoimentos dados exclusivamente para Eduardo Molinar e fotos de época cedidas pelos entrevistados.


subcultura-rockabilly


Quem hoje tem a faixa de 20 anos, ao ler o livro pode ter a experiência de saber como era ser parte de uma subcultura ou de um movimento alternativo numa era pré internet. A dificuldade que havia para conseguir escutar um som, ter um lugar para se divertir e encontrar pessoas semelhantes. Passa-se a compreender do porquê de algumas brigas, gangues e a interação dos rockabillies com outros grupos do underground brasileiro como punks, carecas, góticos e headbangers. Imagine uma época em que novos grupos surgiam e você não fazia a mínima ideia de quem eles eram, uma época em que as informações eram precárias, seria normal rolar um pouco de receio sobre o outro, não é?


O livro é um documento muito importante não apenas sobre a subcultura mas também sobre uma época e suas pessoas. A facilidade que temos hoje de acesso à informação e de interação com semelhantes é imensa, muitos de nós não fazemos ideia do que o pessoal "das antigas" passou pra manter uma subcultura viva, quando vemos que houve muita luta e resistência para que hoje tais cenas ainda se mantivessem ativas, nos faz pensar o quanto devemos ser gratos pelo esforço que aquele pessoal fazia. Dentre estas pessoas, está Eddy Teddy, o primeiro a articular o movimento Rockabilly no Brasil com sua banda Coke Luxe e a fundação do Clube Rockabilly, um local para escutar o som, se reunir e encontrar discos. Há também Eric Von Zipper pertencente à uma das gangues, a Ratz, um dos pioneiros na organização de festas.

Flyer de festa do Rock n Roll Clube do Brasil

O foco é na cidade de São Paulo, onde a cena nacional melhor se desenvolveu  especialmente nas décadas de 1980 e 90, quando havia muito interesse da mídia em retratar estes jovens que se reuniam em clubes como Hoellish, na Praça Roosevelt. Molinar relembra pessoas como Brando, que tinha esta apelido por andar igual ao ator Marlon Brando; o lendáro Johnny Luva, um "ícone do Rockabilly" sempre bem vestido e de topete; assim como  Jeff Billy  do motoclube Molambos e Ivan Tupello do Clube do Rock 1957 em São Caetano. Aliás, a rivalidade histórica de São Paulo com a Grande ABC também tem espaço, Rick n Roll, por exemplo é um dos protagonistas no movimento Rocker no ABC, o subúrbio operário onde surgiu diversas bandas de punk rock favoreceu o surgimento do rockabilly. Rick foi o famoso criador do Campeonato de Topetes em 1988, mesmo ano da novela da Globo chamada Bambolê que trouxe um personagem Rocker. Como habitual, a grande mídia não soube retratar corretamente a subcultura e isso é um ponto muito bem abordado ao longo do livro.

livro-rockabilly-brasil
Interesse da mídia pelo grupo: Matéria na revista Manchete em 1991 / Reprodução

Várias gangues ajudaram a manter firme o estilo no Brasil, como a Ases do Rock´n´Roll, a The Rebels 50´s... é complicado julgar a existência de gangues, pois além de aquela época ser um período de pouca informação, o que podia gerar brigas de rua, por outro lado é por causa das gangues que houve união e resistência no underground. Yé da Gang The Dogs 1954, por exemplo é um dos rockers mais respeitados por punks, góticos e carecas.

Para mim, pra você ser um rocker tem que gostar do visual, da música, dos carros, da decoração... é um conjunto de elementos. Dizer que é rocker é fácil, ser é outra coisa."
- Manero, da gangue The Rebels 50s.

As gangues de meninas também tem seu espaço, é bem legar ver como elas se vestiam e se comportavam com muita atitude junto aos meninos. O livro não esquece do surgimento das recentes pin-ups, como Angie Honeyburst que participou do concurso de Pin-ups do Viva Las Vegas.

livro-rockabilly-brasil
Revista Manchete, 1991 / Reprodução
À esquerda, Angie Honeyburst e à direita Carta do Clube do Rock 1957 à Rede Globo

Pra quem quer começar a ouvir ou conhecer rockabilly, o legal é que ao longo de todo o livro são citados bandas e artistas, assim como filmes, bares, festivais nacionais como o Rockerama Festival e o Big River Festival. Também cita pontos de encontro como a  Barbearia 9 de Julho, de Anderson Nápoles que cansado de ter seu cabelo cortado errado, decidiu oferecer este serviço, afinal barbearias sempre foram locais cultuados pela subcultura e  nada melhor do que um rocker ter o cabelo cortado por outro rocker, assim nada pode dar errado no topete! 


E depois de tanta história, vem uma finalização maravilhosa que se compõe de 36 páginas de fotos e imagens de jornais e revistas sobre a cena! Muitos relatos ficaram fora do livro, mas o autor garante que este não é seu último livro sobre Rockabilly, é apenas o primeiro!

Embora o rockabilly seja muito inspirado no passado, a subcultura acompanha a passagem do tempo, adaptando roupas e estilo de vida ao mundo atual, observamos isso quando vemos as misturas sonoras com outros estilos musicais.


Como adquirir?
Por ser uma publicação independente a forma de adquiri-la é através do próprio autor, Eduardo Molinar, para isso acesse a página Rockabilly Brasil no Facebook e entre em contato para pedir seu exemplar.

Se você já leu o livro, nos conte o que achou!




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Artigo das autoras do Moda de Subculturas.
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