.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: Março 2017

28 de março de 2017

Moda Alternativa "Plus Size": Em entrevista, Nívia, estilista da marca Dark Fashion, desmistifica vários conceitos sobre este segmento de mercado

Alguns anos atrás fizemos uma matéria extensa sobre plus size quando o termo ainda estava começando a ser abordado no Brasil. De lá pra cá, sob pressão do empoderamento feminino apareceram roupas em tamanhos maiores em diversas marcas. Nossas colaboradoras Annah e Carolina abordaram o tema recentemente.

Assim como existem controvérsias sobre a estética alternativa ter se tornado mainstream (podemos chamá-la ainda de alternativa se existe o consumo de massa?), existe o debate sobre se o termo "plus size" inclui ou exclui. Quem é contra pede que o termo seja eliminado, pois mantém a separação. Quem defende, apoia o uso de forma educacional, pois devido à popularização deste é ficamos conhecendo mais sobre o mercado e "descobrimos" que existe esta imensa parcela consumidora.

No Brasil, existe uma marca alternativa que faz roupas maiores desde o começo. Nem todos se atentavam para este fato, por isso esta entrevista se fez necessária indo de encontro ao mais novo catálogo de fotos da loja, mostrando que tanto as meninas magras quanto as de tamanhos maiores podem sim usar as mesmas roupas!

Após dezenas de anos vendo a moda como algo "só para magras"  criou-se uma concepção alimentada pelo mercado de que plus size é algo difícil de fazer, algo anormal e que colocaria em risco uma empresa. Isso é uma tremenda enganação. O plus size é apenas uma gradação de tamanhos na modelagem de uma roupa, nada mais. É este tipo de desmistificação que Nivia, estilista da Dark Fashion conversa com a gente numa entrevista sincera, direta e com opiniões que se tornarão referência para aquele momento em que alguém vira e diz que plus size é "inviável" e "precisa ser mais caro". A designer de moda também conversa sobre a dificuldade de arranjar modelos para o editorial, tocando num ponto delicadíssimo que é a autoestima das meninas.

goth-fashion-moda-gótica

Há diversas reclamações de consumidores sobre o mercado plus size. Quais são as suas dificuldades como empresa pequena para atender esse público?
Nívia: Em relação à parte técnica nenhuma, pois como modelista, quando faço uma modelagem posso graduar ela em vários tamanhos, ou em casos mais especiais fazer sob medida, então acredito que é mais uma opção da empresa em atender ou não este público. Ou em muitos casos é falta de conhecimento em modelagem ou de não ter um profissional modelista para a execução deste trabalho.
A minha dificuldade enquanto loja virtual é mostrar através de fotos os produtos, mesmo com boas fotos, o cliente poderá não se sentir à vontade para fazer a compra e eu nunca consigo mostrar todo o potencial da peça, tem coisas que o cliente só perceberá quando ver a peça ao vivo. Inclusive, tive dificuldades para conseguir modelos para o ensaio plus size que fizemos, convidei algumas meninas que acabaram desistindo por vergonha, mas felizmente a Cintia topou, e espero que isso motive outras garotas também.



O consumidor brasileiro ainda é conservador e ligado aos padrões estéticos, o que muitas vezes atrapalha as marcas a tentarem trazer coisas novas ao mercado. Esse tipo de comportamento também se repete no cliente alternativo plus size?
Infelizmente sim, alternativo ou não, algumas pessoas têm estes preconceitos enraizados. Mas luto contra isso a algum tempo e incentivo minhas clientes plus para enviarem suas fotos e aos poucos vejo mudanças. Jamais deixei isso me influenciar, tanto que crio roupas pensando em todas, e no que sei que será mais usado. Mesmo sabendo que roupas mais sexies fazem mais sucesso, na prática é bem diferente, observo o que vendo mais e o que os clientes estão pedindo e não aquilo que faz mais “sucesso” nas mídias.


Há reclamações de lojas que vendem peças plus size mais caras que as peças P/M/G. Esse valor não deveria ser distribuído no orçamento da empresa assim como todos os outros gastos ao invés de ser cobrado apenas da consumidora que usa tamanho maior? Ou é justificável a venda de peças maiores por um valor mais alto?
Isso não é justificável de forma alguma, na minha visão é apenas falta de conhecimento. Quando se faz uma modelagem, para saber o consumo do tecido, você usa uma grade, por exemplo: P, M, G e GG, distribui os 4 tamanhos no tecido, e mede quanto deu o consumo do tecido para os 4 tamanhos e divide por 4, assim você terá a média de consumo para a peça independentemente do tamanho. Nesta mesma metodologia, aplico a distribuição dos outros custos agregados, como mão de obra e aviamentos, por exemplo. Cobrar a mais de quem usa um tamanho maior, ou sob medida, para mim é uma forma de exclusão social. Portanto, no meu caso, não acho justificável cobrar um valor maior por tamanhos maiores, tanto que nunca cobrei.



Agora temos as perguntas das leitoras enviadas através de anúncio em nossas redes sociais. Obrigada à todas (vocês estão linkadas) que se engajaram em participar! As meninas não sabiam as perguntas que nós faríamos, por isso alguns temas repetidos, mas é importante que cada uma delas tenha suas dúvidas sanadas, por isso mantive as questões semelhantes.

@mirock1983 A marca já começou trabalhando com plus size ou foi um mercado que estava crescendo e você resolveu apostar nele em conjunto com o de tamanhos "normais"? Quais as referências da marca para desenvolver modelos plus, quais as inspirações? 
Particularmente, não gosto muito do termo plus size. Uso porque é a forma como se convencionou chamar esse nicho. Como modelista, não vejo nada de sobrenatural em um tamanho maior comparado com um menor, são apenas tamanhos e fazer um P dá o mesmo trabalho que fazer um EGGG. Desde o inicio, já oferecia uma grade de 6 tamanhos do PP ao EG, mais o sob medida, e logo aumentei mais dois tamanhos: EGG e EGGG; deixando a nossa grade com 8 tamanhos. Não é necessários ter inspirações para isso, é só graduar mais a modelagem padrão. Acredito que deveríamos parar de usar termos como “tamanhos nobres” “tamanhos normais” e até “plus size” para definir as pessoas, como se quem usasse tamanhos maiores fosse anormal. Somos todos diferentes, com gostos diferentes, corpos diferentes e portanto usamos  tamanhos diferentes, simples assim.   

@lygia_cruz  Dizem que as marcas não trabalham com plus size porque dá prejuízo. Qual a experiência da marca quanto a isso?
É só falta de conhecimento. A maior parte dos donos de marcas alternativas infelizmente não tem formação em Design de Moda, não conhecem a fundo os processos produtivos (ou mesmo modelagem) e por isso tem esta visão limitada. E em alguns casos acredito que apenas usam isso como desculpa para não terem trabalho a mais.



@sailorrosenrot Como foi adaptar para o nosso clima e manter-se com um estilo próprio na marca? Tecidos, caimento e conforto foram pensados conforme as queixas de consumidoras insatisfeitas com a gama de variedades disponíveis no nosso país?
Aqui entra o conhecimento têxtil e uma questão de bom senso, é claro. Precisamos e queremos usar roupas bonitas e acima de tudo confortáveis e duráveis. Então, tento aliar tudo isto dentro das possibilidades que os fornecedores brasileiros nos oferecem em termos de tecidos, mais uma modelagem bem planejada pensando no nosso clima e também nas dicas valiosas que recebo dos clientes. Inclusive sempre peço esse feedback e procuro fazer algumas pesquisas para usar estas informações nas futuras criações. Já fui criticada por não fazer uma coisa ou outra, ou até mesmo de falta de criatividade por não fazer peças super elaboradas... Mas de que adianta fazer obras de arte que na prática ninguém irá usar? Isso foi mais no início, acredito que agora as pessoas já entenderam a minha proposta em relação a peças mais usáveis, e que criatividade mesmo é adaptar todas as referências alternativas que temos para fazer roupas para o nosso contexto e nosso dia a dia.

@handmadebyraven Como são estudadas as modelagens? Tem modelos de prova? Qual a amplitude de grade de tamanhos da marca? Os corpos têm variedades de formas além de tamanho, alguns com mais ou menos busto, outros com mais ou menos quadril, além de alturas... não só em corpos gordos, como tbm os magros, isso é pensado na hora de criar, mesmo sabendo que é difícil pensar em todas as possibilidades? 
Inicialmente temos uma modelagem padrão com 8 tamanhos baseados na antropometria que parametriza uma média das medidas corporais. Isso é antigo e é o que usamos para a modelagem, e a maior parte das pessoas se encaixa aqui, salvo algumas exceções. Mas sabemos que é impossível padronizar, devido às diversas variedades corporais que possuímos, mais o advento de silicones e corpos modificados por musculação. De certo, temos o sob medida, onde a roupa é feita para cada corpo respeitando suas proporções. Como já temos uma modelagem padrão sempre a usamos como base na criação de novos modelos, sendo assim, nas provas de novas peças observamos mais a parte de caimento, conforto, recortes e demais detalhes. Algumas peças são feitas várias vezes até ficar como deveria, algumas são eliminadas e outras transformadas em relação ao desenho original, a modelagem acaba sendo a verdadeira criação do modelo.



@vultuspersefone Qual a motivação para fabricar roupas plus size? O que você acha do crescimento atual que tem havido com peças "sob medida"? Você acha que essa disponibilidade de fazer peças sob medida (que aliás, vejo como um bom retorno ao passado) fideliza ou amedronta as clientes (por terem medo de revelar medidas etc)? Sai realmente mais caro criar peças para plus size ou dá quase a mesma coisa?
Bom, a motivação é a mesma que tenho ao criar todos os produtos, tenho muito amor pelo que faço, e me sinto muito feliz ao saber que meu trabalho é útil e que pode levar bem estar para outras pessoas. Estou particularmente feliz com o aumento das clientes plus, o que mostra que estão perdendo o medo de usarem as roupas que desejam, e estão se amando mais, e se importando menos com o preconceito alheio. Acredito que isso abre cada vez mais o caminho pra outras garotas perderem o medo e se aceitarem como são. E não sai mais caro fazer peças plus size, como explicado em resposta anterior.


Oriana Bats Algumas marcas, apesar de terem seção plus size, tem pouca variedade de modelos, são peças praticamente iguais entre si, bem simples na modelagem. Você saberia dizer porque isso ocorre? Seria talvez um desconhecimento sobre este público e as possibilidades da modelagem?
Acredito estar relacionado ao medo que as próprias clientes tem em relação ao usar roupas mais justas, mostrar o corpo,  e todo aquele preconceito que já conhecemos  sobre “gordos terem que usar roupas tipo saco” pra não marcar... E também a falta de criatividade e noção de modelagem dos empresários em alguns casos. Mas acredito que isso está mudando principalmente em relação às garotas alternativas que são mais corajosas, e querem sim mostrar suas curvas e tattoos. Todas as mulheres são belas como são, algumas só precisam descobrir isso.



Carolina Você é do meio plus size? Se não, o que a inspirou a confecção de peças para esse nicho? Há estudo pra confeccionar as peças para esse público?
Não sou plus size, uso M, mas sou modelista, o que amplia minha visão sobre as roupas e os corpos, são apenas tamanhos diferentes, e não crio modelos específicos para o plus size, crio peças que acredito que podem ser usadas em todos os tamanhos, não há mágica nisso apenas estudo de proporção corporal, antropometria e matemática. A modelagem por outro lado é sim algo mágico, é um processo criativo, uma mistura de técnicas com instinto e amor, muito amor. É fazer em 2D imaginando em 3D. Ou direto em 3D como na técnica de moulage. Não tem receita totalmente pronta, só as bases de estudos para a modelagem e muita tentativa e erro, e a partir disso cada modelista desenvolve uma forma de trabalhar e de se expressar. E sobre trabalhar com esse nicho, acredito na igualdade dos mesmos direitos a todas as pessoas, e como designer de moda, minha primeira função é solucionar problemas em relação a roupas e identificar nichos que não estão sendo atendidos. Portanto, o que estiver ao meu alcance em relação a minha profissão para tornar a vida das pessoas melhores, com certeza eu o farei.

Moda de Subculturas: Finalizando, há algo mais sobre esta experiência que queira nos contar que não foi perguntado? (espaço livre!)
São tantas coisas que não saberia por onde começar. Mas acredito já ter falado o principal nas respostas, e me coloco à disposição para qualquer um que queira saber mais ou sanar outras dúvidas pelo e mail nivialarentis@darkfashion.com.br, ou podem me adicionar no face (Nivia Larentis), como preferirem, fico grata em poder dividir o pouco que aprendi até hoje.
E pra fechar, acredito nas pessoas e em um mundo melhor, e isso só acontecerá o dia em cada um fizer a sua parte, sendo o melhor no que faz, não importando se você é designer de moda, médico, professor, mãe ou entregador de panfletos.... Todos nós somos especiais, e se cada um der o seu melhor teremos uma vida e um mundo melhor. Pois a verdadeira felicidade é fazer outras pessoas felizes, e que maneira melhor de fazer isto se não através do nosso trabalho?



Depois dessa fala maravilhosa da Nívia não tenho palavras pra finalizar o post, então deixo aqui os links pra vocês acompanharem a marca.
E digam o que acharam da entrevista!




Créditos
Modelos: Cintia Gunner e Sara Seibert
Maquiagem e Cabelo: Dani Pellá
Fotos: Gilce Galvão



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23 de março de 2017

A volta da Pochete e o que ela tem a ver com a Moda Alternativa

Quando pensamos em moda alternativa, logo nos vem à mente uma de suas características: a quebra de regras e a desconstrução do conceitos do senso comum. Quando decidi ser estilista, aprendi uma coisa muito importante: não ter preconceito com nenhum artigo de moda. O preconceito cria limite na criatividade, você nem sempre vai criar pensando em seu gosto próprio, e apreciando ou não uma peça, tudo volta! Renovado, claro. E sim, ela voltou: a pochete!

Em algumas subculturas como a Punk, as pochetes nunca saíram de cena.
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©3rd Generation Nation

Quando temos consciência que tudo na sociedade foi construído, incluindo o que devemos achar belo e o que não, o que devemos considerar elegante e o que não, percebemos como o preconceito com itens de moda é desnecessário. Mas o que caracteriza pessoas de mente alternativa é termos por hábito o senso crítico e o questionamento, então faz todo o sentido duvidar do que é dado como "certo" ou "elegante". Em subculturas como a hippie, punk, grunge e clubber, a pochete esteve presente ao longo dos anos. Os modelos atuais de pochete aparecem cheios de pitadas conceituais e alternativas

Pochetes conceituais da marca Poch me


A origem do que viria a ser a pochete vem do século 15 em bolsas penduradas nos cintos, braços, ombros ou na diagonal no peito. Mas foi devido à Maison Pourchet, uma fábrica de bolsas que existe há mais de 100 anos na França, que surgiu a variação atual do nome. Populares mesmo, só nas décadas de 1980 e 90 e mesmo naquelas épocas elas eram ridicularizadas por alguns. Atualmente, seu retorno teve ajuda dos Hipsters, do resgate da moda noventista e já pode ser considerada uma peça retrô

 "Hipster" e a pochete inspirada no clubber noventista.


No mainstream lá por 2009, Marc Jacobs já sinalizava um interesse da moda pela peça, mas o momento que deu impulso ao seu retorno foi o desfile de primavera da Chanel em 2014:



Logo em seguida, postamos na Fanpage sobre este desfile e no dia 25 de setembro daquele ano, levantamos uma enquete sobre o retorno da pochete, que trouxe comentários que vão do amor ao ódio à peça.

https://www.facebook.com/modadesubculturas/photos/a.450325195010321.100445.207882219254621/764814843561353/?type=3&theater

https://www.facebook.com/modadesubculturas/photos/a.450325195010321.100445.207882219254621/779758258733678/?type=3


Na época, diversos sites de moda trouxerem como pauta as pochetes da Chanel, de lá pra cá, a atual coleção (foto à esquerda) ainda tem pochete!



Logo a seguir diversas celebridades apareceram usando a peça cuja opinião pública desacreditava sua volta.
Kylie Jenner / Rihanna / Sarah Jessica Parker / Kourtney Kardashian / Fergie

Versões elegantes no Street Style em 2016.
Fonte

Até o roqueiro Jared Letto tem sua preferida.


As pochetes e o universo alternativo
Várias marcas de pochetes as produzem de forma artesanal ou em pequena escala, só isso já as caracteriza como alternativas. Outras marcas estão ligadas em questões sociais, produzindo através de reaproveitamento de tecidos, uma das variações da moda sustentável e do slow fashion que evita criar mais lixo e desperdício. Alguns modelos atuais tem formatos conceituais, tanto que foram super usadas com fantasias de carnaval.

As pochetes da marca Dai Bags

As peças com glitter que foram sucesso no carnaval da Agora Que Sou Rica.

Sua vantagem é a liberdade que dá ao portador, para mulheres que vivem enredadas em bolsas, as pochetes dão braços livres quando precisa-se carregar coisas ou se divertir num festival. Somos ensinadas que ser elegante é se equilibrar em saltos altos e segurar a bolsa no antebraço, comportamentos que simbolicamente expressam fragilidade e movimentos deliberados, talvez por isso muitos acham "deselegante" uma mulher de pochete, porque ela quebra algumas exigências sociais, como a de sermos "#barbiezinhas".

 Peças artesanais da marca punk 3rd Generation Nation Shop

Em versões visualmente mais agressivas (e mais potencialmente vistas como "feias") as pochetes são parte da cena punk, heavy metal e crust. Mas o espírito faça-você-mesmo não morre e a aplicação de spikes é uma opção pra incrementar um modelo básico.

No topo, modelos à venda na loja Sourpuss.
Loja Sourpuss / Reprodução / Etsy

Casal em Harajuku.
©site Tokyo Fashion


É bem verdade que as pochetes podem virar moda de massa, como viraram as bolsas em formato de concha, mesmo assim não é uma peça unânime no gosto popular. Os alternativos estão aí pra mostrar que não existe certo e errado na moda. E nem bonito nem feio. O que existe é individualidade e cada um pode usar o que quiser :D

@The Goblin Queen


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14 de março de 2017

Capitão Fantástico, a subcultura hippie e a “vontade de fugir daqui”

No último fim de semana, assisti ao filme Capitão Fantástico. Para não entrar muito em detalhes e acabar dando spoilers para quem ainda não viu (visto que é um filme que estreou no cinema há pouco tempo), vou colar aqui uma breve sinopse que retirei do site Wikipédia:

Em meio à floresta do Noroeste Pacífico, isolado da sociedade, um devoto pai dedica sua vida a transformar seus seis jovens filhos em adultos extraordinários. Mas, quando uma tragédia atinge a família, eles são forçados a deixar seu paraíso e iniciar uma jornada pelo mundo exterior - um mundo que desafia a ideia do que realmente é ser pai e traz à tona tudo o que ele os ensinou”.


Quem assistiu e curtiu o filme Na Natureza Selvagem, de 2007, com certeza irá gostar muito de Capitão Fantástico. Eu definiria este último como uma espécie de continuação do primeiro. Bom, vou parar por aqui senão vou falar demais e estragar o filme para quem ainda não viu, mas posso dizer que são filmes que levantam questões muito interessantes, como a busca do “eu” em meio à sociedade de consumo.

Na Natureza Selvagem (2007)  


Capitão Fantástico (2016)

Um tema muito caro para várias subculturas é justamente o sentimento de não se encaixar nesta sociedade, estar deslocado, ser um estranho neste planeta. Frequentemente, a maioria das pessoas não entende seu estilo de vida, observam-te com preconceitos, fazem piadas e, em alguns casos mais graves, partem até para violência física. Ou seja, às vezes, você literalmente tem vontade de “sumir” do mundo. Alguns lidam bem com esse estranhamento vindo dos outros (confesso que teve época em que eu achava até engraçado), outros não. Neste caso, não me refiro apenas ao preconceito estético, mas também à intolerância em relação às suas ideias e visões de mundo; intolerância e preconceito estes que, muitas vezes, vêm da sua própria família. Este tema é bem abordado no filme, o que nos impulsiona à reflexão.

Capitão Fantástico e o estranhamento... 

Além disso, um tema comum nos dois filmes é o projeto para viver um novo estilo de vida, uma sociedade alternativa, bem ao estilo da subcultura hippie. Embora nenhum dos dois filmes fale diretamente sobre esta subcultura, é fácil encontrar elementos dela, como, por exemplo, a busca por uma vida na natureza, a fuga da sociedade de consumo, a construção e a criação de todos os objetos necessários à sobrevivência, a obtenção natural de alimentos (por meio do cultivo e da caça), além de viver de acordo com as suas crenças mais profundas.

Na Natureza Selvagem: a sobrevivência em meio à natureza

Embora tenham muitas semelhanças, elas param por aí, porque Na natureza selvagem fala sobre uma história real (recomendo muito o livro que deu origem ao filme, de mesmo nome, escrito por Jon Krakauer) enquanto Capitão Fantástico é uma história ficcional. Quanto às questões estéticas, Na natureza selvagem é bem mais amenizado na comparação, embora tenha alguns elementos chaves na história, como, por exemplo, o cinto usado por Chris, que representa uma linha do tempo de sua própria vida e da sua jornada em meio à natureza.


Já Capitão Fantástico apresenta uma estética bastante alternativa, com uma exteriorização do estranhamento dos personagens em relação ao que é considerado “normal”. O visual das irmãs mostra claramente uma influência hippie:

Em suma, os dois filmes são claramente influenciados pelos escritos de Henry David Thoureau (1817 – 1862), célebre escritor norte-americano, ícone da não-violência, do anarquismo do século XIX e da volta à natureza. Só para ilustrar, a abertura do texto clássico “A desobediência civil” é uma crítica aos governos instituídos:
Aceito com entusiasmo o lema “O melhor governo é o que menos governa” e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente. Levado às últimas consequências, este lema significa o seguinte, no que também creio: “O melhor governo é o que não governa de modo algum” e, quando os homens estiverem preparados, será esse o tipo de governo que terão. O governo, no melhor dos casos, nada mais é do que um artifício inconveniente (...).
 
Em resumo, o trecho fala da inutilidade do Governo na vida dos cidadãos e explora a ideia de se viver independente dos governantes, pois estes tiram as liberdades básicas das pessoas; além de desobedecer às regras impostas pela sociedade. Em outro livro, Walden ou "A vida nos bosques", podemos ler o seguinte trecho:

       “Fui para os bosques porque pretendia viver deliberadamente, defrontar-me apenas com os fatos essenciais da vida e ver se podia aprender o que tinha a me ensinar, em vez de descobrir na hora da morte que não tinha vivido. Não desejava viver o que não era vida, a vida sendo tão maravilhosa, nem desejava praticar a resignação, a menos que fosse de todo necessária. Queria viver em profundidade e sugar toda a medula da vida, viver tão vigorosa e espartanamente a ponto de pôr em debandada tudo que não fosse vida, deixando o espaço limpo e raso; encurralá-la num beco sem saída, reduzindo-a a seus elementos mais primários, e, se esta se revelasse mesquinha, adentrar-me então em sua total e genuína mesquinhez e proclamá-la ao mundo; e, se fosse sublime, sabê-lo por experiência, e ser capaz de explicar tudo isso na próxima digressão. Porque me parece que muitos homens estão terrivelmente incertos, sem saber se a vida é obra de Deus ou do demônio, e têm concluído com certa sofreguidão que a finalidade principal do homem aqui na terra é "dar glória a Deus e gozá-lo por toda a eternidade."

No fragmento acima, o autor defende a ideia de viver a vida de uma forma mais natural, em meio à natureza, longe dos governos e da sociedade de consumo, onde as pessoas poderiam ser quem elas realmente são, sem máscaras. Em síntese, é a mesma abordagem que os dois filmes citados defendem.

Enfim, encerro com a bela música de Eddie Vedder, Society, escrita para o filme Na natureza selvagem, que define bem o clima da produção:




OBS: Tanto a Desobediência civil como Walden são obras de domínio público e podem ser acessadas livremente pela internet.







Autora:
Nandi Diadorim. Historiadora e professora na rede municipal de ensino no Rio Grande do Sul. Guitarrista em uma banda de punk rock. Cachorreira, gateira, vegetariana, feminista...em suma, a incomodação em pessoa. 

Revisão textual: Valéria O´Fern



Artigo de Nandi Diadorim em colaboração com o blog Moda de Subculturas. É permitido citar o texto e linkar a postagem. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui presente sem autorização prévia do autor. É proibido a cópia da ideia, contexto e formato de artigo. Plágios serão notificados a serem retirados do ar (lei nº 9.610). As fotos pertencem à seus respectivos donos; a seleção e as montagens das imagens foi feita exclusivamente para o blog baseado na ideia e contexto do texto.


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12 de março de 2017

Crescer é abandonar o estilo alternativo?

Minha mãe e minha avó vêm me dizendo há um tempinho que já está na hora de eu começar a usar sapatos de salto e variar mais meu guarda roupa, porque já sou uma mulher e estou para entrar no mercado de trabalho. Quando comentei de uma professora minha ter sido punk quando jovem, já tacaram uma espécie de indireta: “Com o tempo a gente vê que não dá certo ser assim no meio da sociedade” – palavras aproximadas da fala original.

À medida que crescemos, é normal que seja cobrado de nós atitudes mais maduras como arrumar o quarto, ajudar nas tarefas de casa, ter responsabilidades para com nossas coisas e por aí vai. Beirando a adolescência, temos que deixar de ser criança; beirando a vida adulta, temos que ser ainda mais maduros e deixar de ser adolescente. Porém, é nesse ponto em que quem tem um estilo de se vestir diferente é cobrado para deixá-lo e ser mais “como os outros” – como se os pais não tivessem pegado tanto no pé assim antes pelo fato de serem jovens e de terem esperanças de que isso fosse apenas uma fase.




Mas até que ponto somos velhos demais para fazer algo? 
O que de fato nos torna adultos?
Copyright (c) Annah Rodrigues


Conheço pessoas com mais de trinta anos que ainda leem mangás e HQ’s, coisas altamente associadas, no pensamento popular, a um público bem mais jovem; têm idosos que praticam esportes radicais ou que continuam trabalhando com a mesma intensidade de quando começaram, rejeitando a aposentadoria. Todos eles fazem aquilo que querem, por mais que os julguem por seus atos e os pressionem a se adequar às normas – como agir e fazer coisas mais “adequadas” à sua idade.

A auto expressão através da vestimenta é uma maneira poderosíssima de mostrar quem somos, como nos sentimos e do que gostamos – e isso não tem idade. Visto-me como me visto pois as opções que a grande mídia me oferece não me apetecem. Se eu compro roupa em lojas comuns de departamento, garimpo com todas as minhas forças até achar algo que seja mais a minha cara ou que permita uma customização. No colégio, sentia-me deslocada no meio das outras garotas por não me identificar com aquilo que elas gostavam e até meus doze, treze anos, era praticamente a minha mãe que escolhia minhas roupas. Tomar uma atitude e fugir do convencional foi o jeito de eu me afirmar do jeito que eu sou.

Talvez as pessoas pensem que, sendo a rebeldia relacionada à imaturidade – ou seja, aos jovens, sem ser no sentido pejorativo – , logo o conservadorismo casa melhor com a maturidade, o que justifica exigências de mudança para quem está adentrando a vida adulta. Mas não seriam a autonomia e a forma consciente de enxergar o mundo que nos faz pessoas mais maduras? Como o modo que somos por fora interfere nisso?

Não, vó, não quero usar salto no dia-a-dia – até porque conheço as calçadas da minha cidade. E sim, mãe, meu chefe pode exigir trajes mais discretos, mas nem por isso eu vou me deixar absorver pela massa e me vestir como meus colegas de trabalho – ser adulto tem muito mais a ver com cabeça do que com aparência. 


Leia também: 
Adultos em Idade Produtiva - Criatividade tem limite de idade?
Subculturas não tem idade: Adultos que adentram no mundo alternativo 



Autora: Annah Rodrigues
Estudante de Design e técnica em Multimídia aspirante à ilustradora. Uma colcha de retalhos ambulante: gosta desde rock e cultura alternativa até coisas de época e animes. Usa sua introversão e sentimento de (des)encaixe para refletir sobre coisas aleatórias nas horas vagas e desbrava aos pouquinhos a cena independente de São Paulo. 
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11 de março de 2017

Qualidade e Engajamento no Moda de Subculturas (Pesquisa)


Ao contrário da pesquisa anterior, que visava conhecer o leitor, esta é uma pesquisa que busca conhecer nossos pontos fracos e colher informações para tentar melhorar nosso conteúdo e engajamento*. Críticas à respeito dos temas (construtivas e educadas, claro!) são bem vindas.
Esta pesquisa ficará no ar tempo determinado.
 

*Engajamento é:
- Envolvimento do leitor (se o leitor clica nos links, se tira um tempo para ler os artigos).
- Participação/Interação nos comentários (blog, face, instagram, twitter, tumblr etc)
- Se confia no conteúdo do blog e nas marcas que o blog divulga, etc.

5 de março de 2017

Coney Island Mermaid Parade: o Desfile das Sereias

Desde 1983, ocorre anualmente o Coney Island Mermaid Parade, um tradicional desfile de fantasias criado por Dick Zigun, no emblemático bairro praiano de Nova Iorque. A parada reúne milhares de espectadores na Avenida Surf à espera do Rei Netuno e da Rainha Sereia passar com sua comissão formada por cerca de três mil componentes enfeitados com trajes dos mais extravagantes possíveis que os seres do mar podem representar. 


Via Daily News

Segundo o site, o evento não possui fins étnicos, religiosos ou comerciais e tem como inspirações o Festival da Água na África Ocidental e os teatros de rua da Grécia e Roma Antiga. A celebração faz parte do circuito Coney Island USA, um movimento de preservação da cultura popular norte americana, e inclui também o Burlesque at the Beach, com shows de burlesco e vaudeville; Coney Island Circus SideShow, com apresentações de freakshow; Coney Island Film Festival, festival de filmes; e outras atrações que fazem o feriado de Verão da famosa ilha sacudir no mês de Junho. 













Fotos: Reprodução


A lembrança do desfile nova iorquino veio após o Carnaval 2017, onde um tema que se sobressaiu foram as Sereias - com direito a diversos tipos de fantasias e até blocos especializados - mostrando que o sereismo não é um modismo, ele chegou com força e promete ficar de vez, afinal, o Brasil possui o maior litoral do mundo, qualquer assunto que envolva o universo aquático contém possibilidades de muito sucesso. E não deu outra!

Quem sabe no futuro a gente não tenha algum Bloco de Carnaval tão conhecido como o Mermaid Parade é em Nova Iorque. Criatividade e inspiração não nos falta, né?



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