Destaques

9 de outubro de 2023

Comfy-Goth? Tudo virou um grande mercadão gótico? Parte da cultura alternativa se tornou um puxadinho neoliberal do mainstream? Pasme: são 14 anos de Moda de Subculturas!

Hoje o blog completa quatorze anos!
Quem aqui segue desde o começo? 😃

Se você chegou agora, seja bem vinda!! 
Se você não conhece a história do blog - que surgiu de uma comunidade do Orkut, te recomendo ler esse post, tá tudo explicadinho lá! [Subculturas e Estilo, a história que me trouxe até aqui]

Em determinado momento destes 14 anos o Moda de Subculturas passou a ser escrito por duas mulheres, não apenas uma. Porque quem causa separadas causa juntas também!

Ainda temos MUITA coisa a contar sobre subculturas, tribos e estilos alternativos, mas porque tudo anda tão lento por aqui??

Antes dessa pseudo-pausa com postagens super esporádicas, eu tinha tempo para pesquisar e escrever. Hoje estou terminando a segunda graduação! Quem estuda em universidade pública sabe como é ter de dar conta das leituras e fazer os trabalhos acadêmicos.

Se vocês estão mais velhas e querem estudar algo que gostam e tem essa possibilidade: estudem! Não pensem que estão velhas demais pra entrar pra uma universidade após os 30 ou 40 anos. Mulheres tem direito ao estudo há pouco mais de 100 anos no Brasil, a intelectualidade não era nosso direito, nosso lugar era o da submissão.

No primeiro dia de aula na universidade a professora disse: na medida que vocês se intelectualizarem, vão brigar com todo mundo. Vocês vão incomodar as pessoas, romper amizades, brigar com a família, porque o conhecimento transforma. Me dediquei a estudar matérias dos cursos de História, Antropologia, Ciências Sociais, Filosofia, Museologia, Ciências Econômicas, Relações Internacionais, Teoria Feminista e algumas outros cursos livres, fiz cursos de extensão e BUM! O que a professora disse se concretizou.

Esses últimos anos de (quase) ausência de conteúdo tem essa justificativa: depois de tanto estudo em tantas áreas complementares, eu finalmente acho que entendi muitas coisas do mundo! Entendi o que me incomodava. Entendi onde as subculturas e tribos urbanas se encaixam. Tanta coisa mudou apenas por eu ter estudado a fundo algumas questões, indo na origem! JOGUEI FORA muito do que não era meu. Tudo que eu estava reproduzindo por uma influência superficial. 

Na biblioteca sendo uma bibliófila alternativa.

Em 2020 eu estava QUASE virando adepta de peças retrôs mais sofisticadas mesmo eu NUNCA tendo me identificado 100% com o retrô por ter como referência estética a mulher conservadora submissa da década de 1950 (eu sempre fui mais para a rocker daquela década). Eu sei que existe o lema “seja retrô não seja retrógrada” - que concordo completamente! Mas na medida em que fui lendo sobre essa época percebi que não há mesmo como separar as coisas, não existe isso de ressignificar e descontruir, são falácias - tenta-se, mas a origem real sempre volta, é a raiz! Por isso tantos conservadores(as) estão inseridas nesta subcultura. Não é a toa, é a origem. É a história.

Eu estava tentando me encaixar num modelo estético associado a “mulheres adultas”, “mais velhas” e “femininas”. Eu era naquele momento uma “mulher adulta, mais velha e feminina”. Eu não queria usar minhas peças super góticas porque estava cansada de pensarem que eu tinha 20 anos. E as peças “adultas” da subcultura gótica são sensuais demais (nunca gostei de ser sensual) ou com volumes incompatíveis com certas atividades. Eu precisava de um estilo que representasse minha fase de vida. E daí no meio desse processo profundo de intelectualidade, questionamentos e auto reflexão, resgatei quem eu era antes de ser tão influenciada. E quem eu era na verdade eu sempre fui: a mulher que gosta de estilo & conforto.

Ao invés de peças justas e passos trêmulos no saltão de verniz, eu entendi que prefiro roupas confortáveis e estilosas que deixem meu corpo livre. E sim - continuo achando lindo o estilo vinil/verniz, mas percebi que não tem a ver comigo interpretar uma personagem sexy. E bom, quem viu a coleção Dark Glamour que lancei com a Dark Fashion, já percebeu ali algumas roupas confortáveis e atemporais [ se você não viu clica aqui pra ver as fotos: Dark Fashion - Dark Glamour]. Nesse processo se revelou pra mim a dificuldade em encontrar peças alternativas que aliam o diferente/criativo com o conforto.

Adotei o hábito de observar as mulheres nas ruas e percebi que no dia a dia as roupas que elas preferem para fazer atividades diárias diversas são peças confortáveis, relaxadas, que permitem mobilidade. Mesmo as moças visivelmente alternativas escolhem peças confortáveis nestes casos.

Sempre vejo uma galera de Tóquio usando peças confortáveis ESTILOSÍSSIMAS e fico só pensando quando a gente finalmente vai ter essas opções... pra mim não tem essa de a peça não ficar "de subcultura" o suficiente, pois quem faz isso somos nós, com nossa criatividade.


Ignore o calçado da foto, o papo é sobre roupas confortáveis!
Podemos falar de calçados em outro momento.

O que realmente não permite a criação de peças confortáveis para as mulheres são ideias estereotipadas sobre o que é ser mulher. Além disso, a moda alternativa feminina (não somente no Brasil), reproduz conceitos muito idealizados sobre as mulheres e o estilo de vida que devem ter.

Tempos atrás fiz uma sequencia de stories e caixinha de perguntas e respostas no Instagram do blog, era sobre roupas soltas e "sobras de tecido". Dei vários exemplos de looks criativos e confortáveis! Até adotei um nome pro estilo que está faltando no Brasil: Comfy Goth! XD 

Story de março de 2023 no Insta do blog.


Também acho que hoje as lojas alternativas viraram UM GRANDE MERCADÃO GÓTICO. Se você quer algo estiloso fora disso, você não encontra (e sim eu AMO moda gótica, mas não sou tapada) ou melhor, encontra em loja de departamento. E se você não curte elementos fetichistas então: se ferrou. Você tem que ser a deusa plataformada no verniz vinil látex amarração brilhosa, mas espera! você também tem que ser aquela bruxa fada gótica esvoaçante! Ou a justíssima garota sexy do heavy metal! Os estereótipos permanecem porque a cultura do estereótipo permanece sendo ensinada para as gerações seguintes de mulheres alternativas.

Será que ser sexy bruxa fada trevosa no látex é só o que as mulheres alternativas podem ser? E todos aqueles estilos tão diversos que haviam nos anos 1990-2000 e todos aqueles estilos interessantes que apareceram no período da pandemia e parece que ficaram só no virtual?

Várias vão discordar de mim dizendo que está tudo ótimo. Normal, opinião cada uma tem a sua. Apenas lembro que todas nós, mulheres, somos condicionadas desde muito pequenas a aceitar o mínimo, a aceitar situações desconfortáveis fingindo que está tudo bem, a ter medo de abrir a boca e ficar vista como malvada, chata, de sermos excluídas do grupinho... Mulheres são educadas para a submissão e ao não questionamento, a agradar sempre e não ser "grosseira" - aqui entende-se por ser assertiva. Eu não tenho medo disso. Não tenho medo de ser sua malvada favorita.

O mais difícil desse meio da blogueiragem e mídias sociais é manter um pensamento autônomo, não se tornar um robozinho que replica o que os outros falam ou o que eles querem ouvir. E às vezes quando você não segue o pensamento único que todo mundo replica, vira "a chata" do rolê. Ser influencer hypada na internet pode significar se vender e às vezes até ludibriar os seguidores. Só que eu tenho uma ética pessoal e vivo a partir dela. 

Você não pode ser aberta ao questionamento se você se torna uma hiper influenciadora, pois o contexto desta atividade é o modelo mainstream. Isso fica evidente na medida em que mais meninas alternativas ao redor do mundo se tornam influencers: o tom delas muda, o personagem se sofistica, o questionamento, o pensamento crítico, o jeitão desafiador vai pra baixo do tapete, algumas ficam soando como bobocas, outras adotam o papel de burrinha ou a acolhedora de todos os oprimidos, outras viram a eterna garota sexy, outras se assemelham a influencers mainstream sustentando discursos elitistas, ostentando uma falsa burguesia, porém com roupas pretas. E você sabendo que elas não são realmente aquilo que mostram, que fazem porque precisam manter a influência. Sem exercer toda autenticidade e a potencialidade intelectual que são capazes ao se adaptarem ao sistema de mercado reproduzindo os estereótipos.

Isso quando não aparecem as especialistas em discursos esquerdistas rasos copiados de influenciadores YouTubers. Parte da cultura alternativa se tornou um puxadinho neo/liberal do mainstream, progressistas liberais e pós modernos que juram ser esquerda radical numa bagunça ideológica sem precedentes. Dizem serem fãs de Marx, mas não identificam a presença do materialismo histórico nas minhas análises de moda alternativa, criticando-as.

A consciência de tudo isso me vez ver muita coisa de outra forma. Ver as subculturas, as modas alternativas com olhar mais afiado. Tanto mudou de 2020 para cá e mudou de forma tão profunda que EU AINDA NÃO CONSEGUI transformar essa mudança em textos. Sentar e escrever. São muitas coisas fervendo o cérebro. Quase como “iluminações”.

A faculdade de moda nunca me ensinou a pensar! O que estudei em moda era muito interessante, mas não provocava incômodo, pelo contrário, colocava o incômodo na curiosidade, nas “bizarrices” risíveis.

Subculturas e tribos influenciam a história da moda e são influenciadas por ela, assim como influenciam e são influenciadas pela moda mainstream. Mas as coisas que eu aprendi nestes últimos anos complexificam tanto essas questões que está difícil pra mim elaborar o pensamento complexo de forma simplificada.

O maior legado do blog nestes anos todos, acho que o principal, foi tratar a moda alternativa com seriedade, sempre respeitando a história das mais diferentes tribos, subculturas e estilos, mesmo daquelas que não tenho a mínima identificação e/ou que são problemáticas. E nunca tratar as seguidoras como trouxas influenciáveis, incapazes de pensar por si. Sempre considerei minhas seguidoras super espertas e inteligentes!

Parando por aqui nesta cartinha de aniversário, senão vira um livro!
Podem comentar o que quiserem!
Sana




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5 de outubro de 2023

Literatura: Romance Gótico "O amor vai nos separar" de Milton James

Em 2015, um casal gótico me contatou perguntando se eu queria postar sobre o casamento deles, eu topei! Esse casal era Milton James e Morgan LeFey. Recentemente Milton me contatou e me contou que escreveu um livro! 

Me mandou de presente "O amor vai nos separar", um romance gótico cheio de referências a história de bandas e subculturas, além é claro, de uma história de amor entre jovens! Eu recebi o livro impresso! É lindo! Se você se interessar, o livro está a venda em versão ebook na Amazon (clica aqui)

Muito obrigada pelo livro Milton, eu adorei que enquanto acontece a cronologia dos eventos de amizades e romances, ocorre também a cronologia de bandas, músicas e subculturas, ótimo pra quem ainda não conhece esse processo passar a conhecer. Segue detalhes da história:


O fio condutor deste livro é a descrição das experiências de um jovem que buscava incessantemente descobrir o sentido da sua vida e que procurava ter uma relação afetiva baseada em um amor verdadeiro. Ao longo de sua vida, envolveu-se com algumas pessoas em relacionamentos apaixonantes, ao mesmo tempo em que se identificou com filmes, músicas, poesias e com a filosofia e a estética do movimento pós-punk, o qual foi fundamental para a afirmação de sua personalidade.


Clique aqui ou na imagem para acessar o livro.
 

O autor conduz o relato das vivências que proporcionaram transformações na vida desse jovem, na efervescência cultural da cidade de São Paulo, nos anos 90, período com bastante influência cultural dos anos 80, que refletiram nas expressões artísticas e comportamentais da época. Nesse contexto, em que transcorre esse movimento de subcultura minimalista, o jovem Caim é o protagonista dessa história intensa e cheia de percalços.

O romance é acompanhado por uma trilha sonora específica, fundamental para o contexto desta história. A leitura desta obra pretende entreter e emocionar, estimulando a imaginação enquanto induz à reflexão sistemática sobre a vida, moldada pelas experiências que formam nosso caráter.

O livro está disponível no formato ebook, 

clique na imagem para adquirir o seu:

   



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28 de junho de 2023

Loja Vudu lança estampa celebrando lésbicas + Stormé DeLarverie: a revolta de Stonewall + Lésbicas no Brasil

A loja Vudu me convidou para divulgar uma camiseta em homenagem ao amor lésbico neste dia do Orgulho! 🌈

A Edição Limitada da estampa This Could Be Us but you Prayin tem três modelinhos: T-Shirt, Baby Look e moletom!  É uma capetinha seduzindo uma mocinha recatada. 🌈👹

Clica aqui pra acessar na loja




Hoje, 28 de de junho, é o dia do Orgulho.

Você sabia que uma mulher lésbica, negra e butch começou a revolta de Stonewall?

"Foi uma rebelião, foi um levante, foi uma desobediência aos direitos civis

 – não foi um maldito motim." —  Stormé DeLarverie 


Stormé DeLarverie (1920-2014) foi uma mulher lésbica, racializada, butch (lésbica desfeminilizada) e de aparência andrógina. Cantora, também faziaa apresentações como Drag King, uma arte performática da subcultura lésbica. DeLarverie foi uma das lésbicas que estava presente no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque em 1969, num confronto coma polícia que reprimia os homossexuais lá presentes. Ao ser abordada com truculência, sangrando pelos golpes, ela teria gritado: “Por que vocês não fazem alguma coisa?”, resultando num embate de revolta de outras lésbicas e gays contra os policiais. Essa é a origem da data de hoje.
Stormé era Drag King, em sua arte vestia figurinos masculinos e se maquiava. Com sua aparência andrógina inspirou muitas lésbicas a adotar as confortáveis roupas masculinas nas ruas (porque sabemos que roupas femininas não são confortáveis, sendo muitas vezes objetificadoras). Ela trabalhou como segurança em bares lésbicos, tinha porte de arma e fazia patrulha voluntária como "guardiã das lésbicas no Village", agia quando via alguém sendo intolerante, abusando ou intimidando lésbicas. Ela também viveu no famoso Hotel Chelsea de Nova York [Vocês podem ler a história dela no blog Um Outro Olhar]

Stormé no meio de duas fotografias suas: uma feminilizada e outra desfeminilizada.

É muito comum que publicações recentes apaguem lésbicas do protagonismo histórico da luta de Stonewall. Isso é resultado de muita misoginia patriarcal que não reconhece que mulheres lésbicas possuem agência, especialmente as insubmissas e que não respondem aos ideais de feminilidade.

Aqui no Brasil, uma manifestação lésbica no Ferro´s Bar é conhecida como o Stonewall brasileiro.
Em 19 de agosto comemora-se o Dia do Orgulho Lésbico: Em 1983, o Grupo Ação Lésbica Feminista (Galf) foi proibido de vender o jornal ChanaComChana (1981-87) no Ferro´s Bar em São Paulo. O dono do bar chamou a polícia para reprimir e impedir a reunião das lésbicas e a venda do jornal. Lá era o local que comunistas e lésbicas se reuniam para debates e organização política. Como resposta, Célia Miliauskas, Elisete Ribeiro, Luiza Granado, Míriam Martinho e Vanda Frias acompanhadas da ativista e antropóloga Rosely Roth, que leu um manifesto contra a censura e exigindo respeito, já que elas eram as principais clientes do bar. 

Já o dia 29 de agosto, é o Dia da Visibilidade Lésbica, surgido para homenagear o 1ª Seminário Nacional de Lésbicas (SENALE), que ocorreu na data em 1996. O seminário visava discutir organização coletiva, saúde, visibilidade e exclusão lésbica além de projetarem políticas públicas. 

O Brasil é um dos países que têm os piores índices em relação ao assassinato de mulheres lésbicas, como informa o Dossiê sobre o Lesbocídio no Brasil, com dados entre os anos 2014 e 2017. Entre 2000 e 2017 o número de assassinatos de mulheres lésbicas aumentou cerca de 96%. Do total de casos, 83% foram cometidos por homens, expondo a lesbomisoginia  e o lesboódio e o silenciamento da mídia ao falar deste tema. 

É bem legal ver loja Vudu desenvolver essa estampa em referência a lésbicas, uma subcultura tão invisibilizada e silenciada seja pelo mainstream seja pelo próprio discurso da sigla GBT+.  

Não consigo nem lembrar de uma marca alternativa brasileira que tenha pensado em homenageá-las com estampas, ilustrações ou pôsteres. Esse é o tipo de arte que só se vê em marcas especificas ao público lésbico. Nós somos contra o Pink Money e sei que não é o caso da Vudu, marca artesanal que acompanho há anos e se engaja genuinamente na visibilidade. 


Junho é mês do orgulho e agosto é mês das lésbicas, aproveitem pra garantir a estampa antes que saia de produção! Vamos mulherada! 

Clica aqui pra acessar o link da blusinha e compartilha com as amigas L/B!




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19 de abril de 2023

A estética futurista distópica do CYBERGOTH

 Os cybergoths borram a divisa futurista entre o artificial e o humano. O visual se utiliza de referências cyberpunks, ravers, rivetheads e fetichistas. Ao contrário dos góticos tradicionais que se inspiram na literatura de terror, eles buscam na ficção científica o cenário distópico do futuro da humanidade, arrasado por desastres nucleares, biológicos e vírus ameaçadores.




Em 1977 H. R. GIGER, um artista visual suíço, criou uma coleção de pinturas chamada Necronomicon, tais pinturas o inspiraram a criar em 1979 a criatura cinematográfica Alien. Suas pinturas e esculturas biomecânicas são consideradas por alguns como o primeiro conceito ‘cybergoth’.

Voltemos uma década antes quando o mundo vivia a guerra fria, as primeiras viagens espaciais e a ascensão do plástico. Em 1967 estreia o filme Barbarella com figurino futurista. Naquele momento roupas em plástico eram uma das maiores novidades da indústria do vestuário, uma verdadeira revolução.

Avancemos agora, até o ano de 1984 quando William Gibson, lança seu primeiro romance chamado ‘Neuromancer’, este estilo literário distópico passaria a ser conhecido como Cyberpunk. Confrontos sociais contra corporações ou governos; humanos com implantes robóticos marcam essa literatura. O cyberpunk como gênero literário acaba gerando uma subcultura homônima. O termo cybergoth é cunhado nessa época como título de um conto de Bruce Bethke escrito em 1980 e publicado em 1983, e só se torna conhecido após a publicação de Gibson.



É da década de 1980 também a popularização da música eletrônica e das raves. Os adeptos destas subculturas se vestiam com roupas estampadas e com cores vibrantes, se inspiravam em personagens de animes e usavam calçados com imensas plataformas.

Da música eletrônica surgirá também os Rivetheads, os ‘góticos industriais’ com seus trajes escuros e de influência militar. Já a cena Cybergoth se desenvolve na Europa conforme os DJs começaram a misturar rock gótico com música eletrônica. Gavin Baddeley em seu livro ‘Goth Chic – Um guia para a cultura dark’ (2002), diz que o surgimento do Cybergoth enquanto subcultura, não pode ter sido anterior a 1995, embora suas raízes possam ser traçadas no começo dos anos 1980. Desta forma, Cybergoth é uma subcultura que deriva do cyberpunk, raver, rivethead e gótico. Ouvem e dançam estilos musicais como eletro-goth, darkwave, synthpop/future pop, EBM, dark-electro e industrial.
 


No final dos anos 1990 são incorporadas as sonoridades trance, tecno e electro. Em termos culturais, filmes como Blade Runner, Metropólis e Matrix, os quadrinhos Tank Girl e os animes Ghost in The Shell e Akira, também os influenciam. Naquele período de final da década de 1990, os cybergoths contrastavam de forma extrema com os góticos românticos [veja este post em nosso Instagram].

Enquanto os góticos românticos se inspiravam no passado, romantizando o século 19, os cybergoths visavam o futuro e os resultados catastróficos dos avanços científicos para a humanidade, um futuro distópico pós apocalíptico, arrasado por desastres nucleares e biológicos através de vírus ameaçadores. A sociedade idealizada é militarizada, com ciborgues e androides e muitas máquinas. Tudo isso irá se refletir na escolha estética do vestuário da subcultura.

A Estética Cybergoth

Os góticos têm predomínio da cor preta no visual, já os cybergoths misturam o preto com cores fluorescentes por influência dos ravers e dos clubbers. A principal diferença entre os dois grupos é o marcante elemento futurista no cybergoth, com o uso de muito vinil (PVC) adornado com placas de circuito ou de aço, sugerindo que o indivíduo é parte de uma máquina. As roupas também podem sugerir que alguma cirurgia para implante de chip ou de circuitos foi implantada no corpo.




Outra marca estética é a presença de desenhos, faixas, cabelos e maquiagens em cores como rosa choque, laranja, roxo, verde e azul, sensíveis aos raios ultravioletas produzidos pelas blacklights dos clubes, que fazem todos esses elementos brilharem no escuro. Estas cores são usadas em detalhes, contornos e sobreposições com preto. O visual cybergoth é marcadamente tecnológico e artificializado. É o responsável por trazer cores – fortíssimas – à subcultura gótica. 




O Cybergoth não é um estilo menos feminilizado que o Romantic Goth ou menos sensual que o gótico fetichista devido aos elementos militarizados e rostos de mulheres ocultos por máscaras de gás ou respiradores as aproximando de androides, pelo contrário, a estética mantém as características estéticas de objetificação dos corpos femininos que existem em outros estilos góticos e alternativos. As roupas femininas possuem um grau de exibição corporal através do uso de saias curtas, acessórios de pelos e materiais brilhantes, característicos da moda fetichista presentes em espartilhos e lingeries, por exemplo. Nas imagens abaixo é possível observar como o traje masculino e o traje feminino mantêm os corpos masculinos cobertos e com peças confortáveis e os corpos femininos com peças mais restritivas e curtas, mantendo o padrão vigente na sociedade.



Uma das marcas de roupas que ajudou a lançar a estética cybergoth no mainstream foi a britânica Cyberdog fundada em 1994. Foi ela que ajudou a definir o visual quando produziu peças com listras reflexivas, detalhes em neon, bolsos secretos, vinil (PVC) em cores brilhantes e eletrônicos reais inseridos em camisetas.

Peça da marca Tripp NYC


No Canadá, a loja Plastik Wrap desenvolveu tecidos de alta tecnologia feitos para serem usados nas pistas. Outra loja que contribuiu para o visual foi a americana Manic Panic que produz ainda hoje tinturas de cabelo em cores neons e maquiagem que brilha no escuro. Também na América, a marca Tripp NYC oferecia calças bondage e/ou de pernas largas com detalhes neon para os homens. A cor preta predomina como base para as cores brilhantes, bastante evidente nas camisetas pretas com estampas fluorescentes de símbolos de desastres químicos e biológicos. O preto também  remete ao militarismo, é a cor dos governos totalitários fascistas de meados do século 20.

Macacão da loja Cyberdog, desenhada pelo proprietário da marca,
explora referencias de ficções científicas intergalácticas.


Sobre os acessórios, eles são bastante exagerados tendo referência em animes ou romances de ficção científica. Ambos os sexos fazem uso dos mesmos acessórios: gargantilhas, correntes, algemas, adornos de cabelo sintéticos - que são uma característica marcante. Assim como as ‘furry leg warmers’ polainas peludas. Equipamento militar falso, botas de plataformas altíssimas, goggles (óculos de proteção) e máscaras de gás ou médicas: tudo pode ser adornado com grandes spikes, remetendo à agressividade e distanciamento social.


As botas cybergoth costumam ter saltos altos e plataformas;
canos altos e placas personalizáveis. Esta da marca Demonia 
possui detalhes refletivos na cor rosa.


Principais Elementos da Moda Cybergoth

CYBERLOX, também conhecido como “tubular crin”, é uma extensão de cabelo artificial que remente à animes e personagens de ficção científica. Fitas são costuradas em formatos tubulares disponíveis em diversas cores e tamanhos. Podem ser costuradas nos falls.

FALLS, também chamados de ‘dread falls’ ou ‘synthetic falls’. São a característica mais marcante do estilo Cybergoth. Recebem esse nome pela forma que ‘caem’ da cabeça. São extensões aplicadas ao cabelo, sendo cabelos naturais, sintéticos ou materiais como lã ou tubos de plástico em cores neon ou sensíveis à luz ultravioleta (UV). Podem ser embaraçados como os dreads.

DREADS ou ‘dreadlocks’ é o processo de emaranhar o cabelo de forma que eles pareçam cordas. Vistos comumente em adeptos do Rastafari. Os Cybergoths o usam em material sintético e em cores brilhantes.




SYNTHDREADS ou ‘dreadlocks sintéticos’, são extensões de rabo de cavalo em cores brilhantes.

MEIAS CALÇAS, se os góticos asusam na cor preta, os Cybergoths as preferem em tons neon.



ÓCULOS DE PROTEÇÃO mais conhecidos pelo nome de GOGGLES, não são usados nos olhos mas na testa. Vários modelos são estampados com símbolos de desastres nucleares ou biológicos e podem receber adesivos ou spikes através da customização.




MÁSCARAS possuem influência de anime e mangá. Podem ser customizadas com spikes, pinturas e símbolos. De acordo com o site Gothic Fest as máscaras de gás são uma simbologia a um futuro apocalíptico, de fim dos tempos alinhado à perigos de radioatividade e risco biológico. A imagem cyber com máscaras foi bastante comentada durante os anos de pandemia de Covid-19, tendo virado até meme.



Meme surgido em março de 2020.


LENTES DE CONTATO em tons de olhos artificiais (como branco) ou com desenhos (símbolo de risco biológico, caveiras, estrelas, círculos), oferecem um visual robótico e artificial.


POLAINAS DE PELOS: chamadas em inglês de FURRY LEG WARMERS, são feitas de pelos sintéticos coloridos ou estampados (por exemplo em listras) vestidos por cima das botas e tem sua origem na cena raver europeia.



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12 de março de 2023

A história da subcultura Blitz Kids/New Romantics (originariam a subcultura Gótica)

 Em 1978, os primeiros punks começam a perder o interesse na cena na medida em que a subcultura ia tomando novas formas com a chegada dos adeptos da classe trabalhadora...


... Isto abre caminho para que surja outro movimento jovem, posteriormente conhecido mundialmente como "New Romantics". Estes jovens tinham background punk, apreciavam exibicionismo e deram início a um movimento alternativo com foco no vestuário.



Toda terça à noite num bar chamado Billy´s, localizado no porão de um clube chamado Gossips, um grupo de estudantes da Central Saint Martins College of Art, incluindo punks da primeira geração e fãs de soul, se uniam para a chamada “Bowie Night”, organizada pelo ex-punk, cantor e hostess Steve Strange e o DJ Rusty Eagan. A noite acontecia sem muita divulgação, atraindo cerca de 50 jovens excêntricos obcecados por glamour, num momento em que Londres vivia uma época de vacas magras e descontentamento econômico.

Em fevereiro de 1979, a “Bowie Night” se muda para um local chamado Blitz, em Covent Garden, num bar decorado com pôsteres da segunda guerra mundial onde os frequentadores gostavam de imaginar que o local reproduziria a Berlin da república Weimar (período anterior ao regime nazista) mostrada nos filmes Cabaret e O anjo Azul. A festa se mantém nas terças-feiras, o som era eletrônico com Kraftwerk e Giorgio Moroder além de muito Bowie na trilha sonora, que deu à festa o apelido do cantor. Steve Strange, vestido como pierrô ou com um casaco imitando a Gestapo, controlava a porta. Só entrava quem estava extravagante e pavoneamente vestido, caracterizando a partir daí, o que se tornaria uma subcultura focada em estética - mais do que outra coisa - os clientes do Blitz não queriam apenas dançar e sim, exibir seus visuais.


Havia atração por trajes exóticos, um ecletismo sem regras que ia desde a inspiração nos revolucionários franceses do século 18, passando pelo romantismo e indo até o Glam de David Bowie, só que tudo isso misturado. Esse era uma aspecto interessante no grupo: o interesse por moda histórica, buscando referencias ora barrocas ora vitorianas, mas sempre atualizados para a época em que vivam. Além disso, outra característica marcante eram as estéticas com androginia e cross-dressing, realçados através de maquiagem.

Com a exigência de um visual chamativo, os jovens se viravam em criar seus próprios trajes, fossem eles vindo de bazares de caridade, desmontados, customizados, costurados e recriados pelos estudantes de moda que frequentavam o local. Além de estilistas, os frequentadores do clube queriam ser cantores pop, escritores, fotógrafos, maquiadores, cineastas... Por isso a escolha de andar como obras de arte ambulantes. Para eles a palavra "poser" não era um xingamento, era um orgulho, ser um dândi, ter a preocupação com a aparência acima de todas as coisas era a lei, fosse num visual vitoriano, num retrô de 1930 ou no simples uso de tecidos extravagantes.



Alguns de seus frequentadores eram o DJ Jeremy Healey, a cantora Sade; Karen Woodward do grupo Bananarama; a modelo e DJ Princess Julia. Gery Kamp e Tony Hadley músicos da banda Spandau Ballet; Martin Degville e Tony James da Sigue Sigue Sputnik; Jeremy Healy da Haysi Fantayzee; os cantores Billy Idol e Peter “Marilyn” Robinson, Theresa Thurmer, Melissa Kaplan, Isabella Blow. Estilistas que se tornariam famosos como o chapeleiro Stephen Jones e o professor universitário Iain R. Webb. Mas talvez um dos mais famosos seja Boy George, personagem marcante pela adoção de estereótipos estéticos de feminilidade.


O grupo se autoproclamava o “cult with no name” ou “o culto sem nome”, embora tenham recebido nomenclaturas como New Dandies, Romantic Rebels e Blitz Kids, uma matéria na revista Sound os chamou de New Romantics - associando-os ao new wave e o culto a poetas românticos, este foi nome que pegou popularmente. Com a atração midiática, o próprio David Bowie visita o clube e seleciona parte dos frequentadores para participar da filmagem do clipe da música “Ashes to Ashes” lançada em agosto de 1980. Na época, os Blitz Kids procuram um novo som para representá-los e adotam sintetizadores, isso pode ser ouvido nas bandas Visage, de Steve Strange, na Spanadu Ballet e na Ultravox.



O movimento acabou tornando-se vítima do próprio sucesso, o clube fecha em outubro de 1980 quando as bandas Spandau Ballet e Visage lançam seu primeiros singles, "To cut a long story” e “Fade to Gray”. Logo, as bandas synth pop associadas ao new wave como Bananarama, Yazoo, Blancmange, Thompson Twins, Frankie Goes to Hollywood e o Culture Club de Boy George entraram nas paradas de sucesso do Reino Unido e do mundo.


Em 1981 Steve Strange abre outro clube, o Club for Heroes hospedando festas nas terças e quintas. Naquele mesmo ano, a estilista Vivenne Westwood lança sua The Pirate Collection – Clothes For Heroes, de atitude rock e inspirada nos revolucionários do século 18. Trazia peças que lembrava uma espécie de “pirata romântico” sendo um dos modelos o cantor Adam da banda Adam and the Ants que fazia um som mais guitarra do que sintetizador, tendo a música “Prince Charming” se tornado o mantra do movimento que naquele ponto que já havia se tornado uma festa a fantasia onde todos estavam convidados. Steve Strange ainda abriria o clube Hell, com festas nas noites de quinta-feira no Mandy's Club, na Rua Henrietta em Covent Garden, trabalhando com Boy George.



Pelo estudo em arte, os Blitz Kids possuíam a atitude de quebrar barreiras estéticas e comportamentais, colocando o visual conceitual típico de passarela nas ruas. Estilo era a substância e ser poser significava ser verdadeiro ao movimento. A subcultura começa a desaparecer em 1981, mas deixa de herança além do Synth Pop, o poder da moda, da estética como autoafirmação da criatividade.

Os trajes influenciados por períodos históricos, especialmente a moda romântica do século 18 e 19 com a imagem do dândi decadente, as camisas de poeta (com gola V, babados e rendas), ombros marcados, peças soltas, longas saias e maquiagem de forma livre, se refletiram num desfile realizado por Stephen Linard sob o tema "Neon Gothic". Os amigos de clube posavam como modelos mortalmente pálidos, com roupas de inspiração vampiresca e acessórios religiosos.



Quando os Blitz Kids foram absorvidos pela cultura jovem mainstream, surge a necessidade de um novo movimento underground. Assim, em 1982, no mesmo prédio onde dois anos antes ocorriam as festas “Bowie Nights”, surge o Batcave nas noites de terça-feira, hospedado pela banda Specimen e que receberia a transformação destes jovens apreciadores de androginia, maquiagem e teatralidade histórica que foi grande influência para artistas de bandas como Siouxsie & The Banshees, The Cure e The Damned, que herdaram dos Blitz Kids a liberdade de expressar suas individualidades de forma única e através da música que produziam. Os Blitz Kids trouxeram o vestuário exuberante, o Punk trouxe o niilismo, o Glam a recusa em aceitar as regras tradicionais, estes três elementos unidos ao interesse no “lado negro” convergiram no Batcave nos primórdios do que viria a ser a cena gótica musical que se tornava mais orientada para a estética, começando ali o diálogo entre gótico e moda que persiste fortemente ainda hoje.



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