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9 de fevereiro de 2022

A sofisticada cooptação da cultura alternativa pelo mainstream através de artistas como Anitta e Luisa Sonza ( + Cultura da Pornificação)

Nos últimos dias, circularam algumas notícias envolvendo a relação entre mainstream e cultura alternativa. Os temas são:

1. Anitta: Lançou clipe cheio de referências ao rock, gótico e cultura pop. Anitta foi emo quando adolescente e logo depois se lançou como artista do Funk. 

2. Luisa Sonza: Apareceu com roupas inspiradas na cultura hard rock e usando marcas alternativas nacionais e internacionais. 

3. Moda terror: Um post da FFW sobre uma "trend alert" de halloween fora de época foi bastante compartilhado. Ao que parece muitos alternativos curtiram por se sentirem representados.



Moda Mainstream x Moda Alternativa

Quando lancei o blog em 2009, havia o diferencial de mostrar a relação entre moda alternativa e moda mainstream. Foi isso que fez o blog ascender e se tornar um sucesso, era uma abordagem diferente. Eu mal falava de história das subculturas, isso veio depois. 

Ao longo destes 12 incansáveis anos por diversas vezes apontamos que a cooptação da estética alternativa/subcultural pelo mainstream é uma forma de despolitizar e, em alguns casos, enfraquecer o potencial revolucionário dos grupos alternativos.

Isso não é pensamento aleatório da minha cabeça, existem autores, teóricos e publicações que falam deste processo que ocorre há décadas. Quem acompanhou no twitter uma thread sobre Wokeísmo do perfil Pensar a História sabe do que falo. 

A melhor forma de você conter a rebeldia juvenil revolucionária é oferecendo produtos que a faze sentir "representada" e acolhida, aceita socialmente. E se assim se sentem, qual o motivo de lutar contra o sistema


Caso a caso

1. Anitta:

Fez um clipe com influencia e visual do rock, do gótico e da cultura pop americana. Usou marcas, roupas e visuais que carregam símbolos da cultura alternativa e de algumas subculturas. 

Em 2019 lancei um zine sobre o estilo Dark Pin-up, nele eu trago uma teoria sobre a origem desse estilo e aponto uma característica fundamental: o uso de ícones do terror americano. 

Quem é da área de Museologia ou de História, estuda Memória. Estuda-se quais são os tipos de memória e como elas se formam. Existe uma que se chama memória afetiva. Anitta, para conquistar o público americano investe em ícones de memória afetiva daquele país: ícones da cultura pop. E já que vivemos num mundo que a cultura americana domina nosso imaginário e nossos gostos, mexe também com a memória afetiva dos que aqui vivem, pois nosso imaginário é colonizado por esses ícones.

Isso não é a toa, é estratégia. As pessoas aceitam muito melhor o que lhes trás boas lembranças.


Se a cooptação é boa ou ruim? 

Depende muito se você encara a cultura alternativa como algo político ou não. 

Depende se você tem uma percepção politica, social, econômica liberalizada ou de raiz/revolucionária. 

Depende como é sua filosofia de vida: seu discurso é coerente com sua prática? Ou isso pouco te importa?

Depende qual o espaço você abre em sua vida para a contradição.

Cada um terá suas respostas.


2. Luisa Sonza:

Apareceu usando roupas inspiradas na cultura hard rock e usando marcas alternativas nacionais e internacionais.

Não é novidade nenhuma que artistas do pop quando querem soar "diferentes" usam peças alternativas (a gente também fala há uma década sobre isso). A moda alternativa tem sempre uma novidade criativa ou algum clássico atemporal que serve ao mainstream.

A questão da Luísa é um pouco mais complicada e de difícil abordagem em stories.  Luísa é conhecida por ser, enquanto artista, uma mulher hipersexu4liz4da e objetific4da.

Luísa apareceu usando uma blusa da banda KISS e um shortinho escrito na bund4: "piss", em português significa 'mij0'. Luísa está cada vez mais pornificada.



Não é de hoje que mulheres alternativas reclamam de serem objetificadas e fetichizadas.

E numa cultura cada vez mais pornificada isso tende a ser naturalizado.

Por que criticam-se tanto as "pirigóticas", mas aceita-se uma mulher adulta pornific4da com símbolos alternativos que leva a fetichização da estética das mulheres alternativas a um público muito mais amplo? 

Qual o impacto desse tipo de estética e mensagem simbólica em crianças e jovens fãs da cantora? 

O perfil @recuseaclicar trata sobre o impacto da pornografia na mente e na sociedade. Vale a pena visitar.



É importante que se saiba que artistas pops e influenciadoras mulheres também ajudam a colocar a mulher como um seres desumanizados. Mulheres também fazem esse trabalho. Mulheres também desumanizam outras mulheres e a si mesmas. 

Mulheres são capazes de dissociar partes de seu corpo. Isso é sintomático de como mulheres são educadas para serem o objeto de olhar e não, a pessoa que olha. 

A estética que Luisa Sonza adotou mostra claramente como mulheres são divididas na sociedade machist4: a pública e a privada.

A estética que Luisa Sonza adotou mostra claramente como mulheres são divididas na sociedade machist4: a pública e a privada.

Observe na imagem ao acima símbolos que comunicam a cultura da pornografia.


Story que publiquei no Instagram do Moda de Subculturas 



Moda Alternativa

Existem brasileiras cantoras de rock, de metal, de música gótica, existimos nós, mulheres alternativas: somos nós que sustentamos as marcas alternativas. Somos nós que estamos aguardando ansiosas toda nova coleção. Somos nós que divulgamos, no boca a boca, na indicação.

As mulheres do rock, sempre questionadoras, desafiantes, insubmissas, que usavam e ainda usam esses visuais do rock/metal/gótico não tem espaço na mídia dominante. A mídia se utiliza de artistas pop, moldadas ao mercado, sem poder questionador e as veste com visual rebelde. Enquanto as questionadoras estão lutando pra sobreviver no pequeno espaço que lhes resta, sempre tendo que provar capacidade.

Um artista pode dar visibilidade e trazer novos cliente, mas a fidelidade quem dá somos nós. 

Sem a consumidora alternativa uma marca deixa de ser alternativa. 

A moda alternativa tem suas próprias demandas e as demandas de seus consumidores.

A moda alternativa não precisa ser validada pelo mainstream. 

Nós não devemos reconhecimento ao mainstream.

Nós não devemos nada a eles. 

É o mainstream que precisa da moda alternativa.

Eles é que nos devem muito. 

Nos devem nossa história. 

Nos devem tudo que nos roubaram e enriqueceram com nossa criatividade.


A moda mainstream nos colonizou.

A moda mainstream nos colonizou.

Eles conseguiram o que queriam: nos dividiram, nos esvaziaram, nos cooptaram, colocaram o discurso deles sobre o nosso. 

Símbolos das subculturas podem ser muitos vendáveis. O mainstream lucra horrores, ganham status de cult, de lançadores de tendências. 

Aí você vai ver seus irmãos e irmãs alternativas e estão todos fodidos no underground. Vivem como classe trabalhadora. Por vezes precarizados. Por vezes trocando trabalho por produtos. Produzindo trabalho intelectual de graça.

Alguns deles e delas se disfarçam com a projeção de um estilo de vida burguês, porque ser pobre é um estigma.


A moda alternativa ainda existe? 

Até quando será possível falar de uma "moda alternativa" se tudo logo se torna mainstream?

Como é que o alternativo vende tanto no mainstream mas as pessoas alternativas são praticamente inválidas fora dele?


3. Moda terror: 

Um post da  FFW sobre uma "trend alert" de halloween fora de época foi bastante compartilhado. Ao que parece muitos alternativos curtiram por se sentirem representados.

Aqui retorno ao que escrevi nos stories anteriores: a cultura pop americana está inserida na cultura alternativa e, a cultura alternativa não precisa ser validada pelo mainstream. 

Se alternativos se sentem "representados" ou "validados" por umas blusinhas de terror vindas de grifes, olha sinceramente, é jogar a História Alternativa fora. 

Alternativos não precisam serem validados por ninguém. Aliás o propósito era justamente desenvolver um contaponto à aceitação social.

O propósito de ser alternativo era mostrar que as instituições, o sistema e sua coerção social que nos dirige à validação e aceitação, fossem quebrados.

Mas ao que tudo indica o pensamento liberal pós moderno se tornou o cavalo de troia da cultura alternativa.

Teve quem saiu por aí dizendo que estéticas subculturais são mortos vivos que sempre voltam pra assombrar. Mas essa frase está contida em um post nosso! É uma frase da historiadora Valerie Steele para a exposição Dark Glamour de 2008! A gente sabe muito bem quem consulta nosso conteúdo e nos invisibiliza. 

Nós já falamos do terror na moda mainstream diversas vezes, como no post do desfile da Moschino em 2019. Pena que nossos posts não são compartilhados como os do FFW não é mesmo? 

Quem dera tivéssemos tanto apoio e celebração quanto os sites mainstream.



Essa é outra luta dos perfis alternativos que não se rendem ao discurso liberal pós moderno: a luta contra a falta de memória, a manutenção da história alternativa, a disponibilidade em manter o contato entre os conhecimentos das gerações anteriores e os conhecimentos das novas gerações, a honestidade e a coerência entre pensamento e ação.

E sobre o terror, tão aclamado:

enquanto o discurso clássico e reproduzido é que ele é uma forma de lidar com a dureza da realidade ou de instinto de sobrevivência,  vocês já observaram quem sempre são as maiores vítimas?  Vítimas de serial killers, vítimas de acusações de bruxaria ou de estar possuído por demônios? Você sabe a resposta.

Dica: até matam os homens, mas as vítimas, o demônio é a mulher.




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29 de março de 2019

Estampa de fogo na Moda (Fire Flame Print)

A estampa de fogo virou moda mesmo! O seu retorno tem sido de, no mínimo, uns sete anos. Foi vindo aos poucos, em acessórios, roupas, num desfile ou outro até que pegou força de vez e hoje encontra-se em tudo, inclusive em produtos de beleza. Essa estampa possui uma história que une a moda mainstream e alternativa, o que é perfeito para o resgate de memória que a gente adora fazer aqui no blog.

Violet Chachki 

David Bowie, na segunda fase do alienígena Ziggy Stardust, criou em parceria com o estilista japonês Kansai Yamamoto o figurino com estampa de fogo que ficou consagrado na gravação ao vivo da apresentação "1980 Floor Show", de 1973. Esse modelo acabou se tornando um dos inúmeros looks icônicos de Bowie, sempre presente em exposições. A criação veio antes do também conhecido cabelo cor de fogo do artista, mostrando que sua influência continua firme na elaboração de tendências contemporâneas.



Na virada de 70 para década de 1980, a guitarrista Poison Ivy fazia o palco pegar fogo com as chamas estampadas em seu short curtíssimo. Nesse mesmo tempo só que do outro lado, Thierry Mugler incendiava as passarelas de Alta Costura com suas criações no desfile 'Les Infernales' de 1988. Em 1992, a estampa retorna no famoso motorcycle corset vestido pela modelo Emma Sjorberg no clipe 'Too Funky" de George Michael.

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Poison Ivy

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Corset fogo da coleção 'Les Infernales' e a versão motorcycle no clipe 'Too Funky'.

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A chama da Harley Davidson pela Made My Bunny.

O 'motorcycle corset' é inspirado nas motos da Harley Davidson. A companhia, que tem as chamas em seu logotipo, lançou motos e acessórios com a estampa. Por isso nos anos 1990 não se via só em roupas. O 'fogo' havia se espalhado em todo o tipo de produto, e ganhou força ainda mais com a revista Thrasher que também tem desenhado em sua logo chamas de fogo. O skate era um movimento em ascensão, e a revista junto com a Harley Davidson propagaram a estampa no underground e conseqüentemente, na moda alternativa.

Anthony Kieds no VMA de 1995.

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A bateria de Igor Cavalera no Sepultura.

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Marilyn Manson trouxe a maquiagem que tem sido muito copiada atualmente!

Nos anos 2000 a estampa permanece acesa pelas marcas alternativas, o mais interessante é que não foi muito na moda feminina e sim na masculina. O retorno mesmo ao mainstream veio com as famosas sandálias de chama da coleção Primavera\Verão 2012 da grife Prada. Isso já faz sete anos, mas como esses acessórios fizeram - e continuam fazendo - muito sucesso entre as celebridades, então volta e meia alguém aparece usando o calçado fazendo com que outras marcas apostassem de vez no desenho que está perdurando até hoje!

Coleção Primavera\Verão 2012 da Prada.

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Bota da marca Vetements e da brasileira Louloux.

As plataformas gigantes da Space Island e YRU.

Tênis Converse e Vans.

Os saltos altíssimos da Pleaser Shoes e Heels Bangers.

A perfomance de Katy Perry no Super Bowl de 2015 lembrou os figurinos de show do Elton John.

Nas passarelas: desfile Moschino e Asger Juel Larsen.

Roupa de látex em Kim Kardashian e Rita Ora de Meat Clothing.

No streetwear da Tokyo Fashion.

Blusão da parceria Kill Star + Rob Zombie e Vestido da Kreesville 666.

A estampa de fogo também é neon e colorida! Jaquetas Sugar Pills CLTH.

Gorros Cyber Space Shop.
O Verão nas peças de moda praia da Jade Clark.
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Óculos escuros com glitter da Opening Ceremony.
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Óculos 'Meteor' da marca Jillian Zhong.

No Brasil, encontra-se peças na loja @Reversa.

E os acessórios da marca @SarahRottenStore.

Em tempos de modismos, a estampa de fogo resolveu bater o pé e manter sua firmeza. Pelo visto permaneceu na hora certa, se observarmos a situação no mundo, principalmente política. E assim, até o bordão cearense vem ganhando a notoriedade que merece: "Pega fogo cabaré!"



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23 de agosto de 2016

O estilo de Elke Maravilha

"Cada um chama atenção como pode, não é, querido? Eu boto uma caveira aqui [ela aponta para o acessório que usa]. O que significa a caveira? O inexorável. Daqui a pouco, eu vou ser assim. Para eu me lembrar. E é uma caveira bem-humorada, porque ela tem uma florzinha; é rock and roll, que eu adoro; é o inexorável mesmo."


O estilo de Elke Maravilha era só dela. Parece algo óbvio a se dizer – afinal, todo mundo tem algum estilo. Só que no seu caso, a estética se desenvolveu de tal forma que se tornou única, sendo a irreverência e seus sinônimos um dos poucos adjetivos a defini-la. Gostando ou não, a artista não passava despercebida. “Comigo as coisas potencializam”, diria.

Assim como Bowie, Elke era também uma colecionadora. A diferença perante o cantor inglês estava em suas inspirações voltadas à sua própria história. A origem russa e alemã encontravam-se facilmente nas vestimentas e adornos. A infância na cidade de Itabira-MG, fomentou sua paixão pela cultura negra da qual costumava transmitir pelos penteados e acessórios. Na juventude, resolveu conhecer o mundo e trouxe em sua bagagem de conhecimento referências de países que logo seriam composição de seus looks e maquiagens, como o Teatro Kabuki do Japão. E vejam só, referência igualmente para David Bowie.

O uso de chifres era simbólico:
 Elke é o animal sagrado dos vikings, o alce, o símbolo da nutrição. 

Tudo era influencia para Elke. Tudo tinha um significado. E ela os interligava através do misticismo. A Mãe Natureza lhe guiava desde pequena as perguntas e respostas sobre a vida, aprendizado que viria de seu pai. Era comum o uso de analogias com animais quando questionada sobre algum comportamento seu ou do ser humano. O estudo de religiões, culturas, tribos e o ocultismo seria forte presença também em seus diálogos. Explicaria certos fenômenos da humanidade pela Astrologia antes mesmo de ser modismo. Aliás, o que ela não fez antes de ser moda? "Eu já usava a estética punk antes do punk gostar dessa própria estética", diria a Antônio Abujamra. 

Colar feito de muiratinga:
 galhos de árvore que nascem em formato de falos. 

Várias entrevistas tentaram desvendar a moda de Elke. Poucos conseguiram ir a fundo. No vídeo abaixo, seu ex-marido, Sacha, diz que por muito pouco Elke não cai no burlesco, no ridículo. Ótima observação: o que faz uma pessoa com estilo extravagante não virar uma fantasia de carnaval? Muitos irão apontar que é a essência. E de fato é um fator importante, mas não sei se suficiente. Elke afirmava que gostava de aparecer, ser comparada a uma árvore de natal não era uma ofensa, pelo contrário. A estética casava perfeitamente com sua personalidade. Mas tinha algo a mais. Quando alguém se destaca visualmente, é natural que chame a atenção e nessas horas o que você tem a dizer também se sobressai. Se a roupa e a fala não se encaixam, automaticamente aquela estética se esvazia por não ser real, podendo chegar a interpretação arrogante do “querer aparecer por aparecer”. É uma linha muito sutil.


Um estilo fora do comum infelizmente acarreta em reações que fogem ao controle: de elogios à violência física ou verbal. Elke passou pelos mesmos perrengues que todo alternativo vive, e comentaria sobre: “Perguntam-me como criei este estilo, este visual que me caracteriza. Digo que sempre busquei compor este jeito, claro que não era assim como agora, pois hoje a coisa é mais abrangente, com o tempo venho me descobrindo muito mais por dentro e colocando o que descubro para fora. Costumo dizer que sempre fui assim, só que com o tempo estou piorando! Na realidade, sempre fui um trem meio diferente, sabe? Ainda adolescente resolvi rasgar a roupa, desgrenhei o cabelo, exagerei na maquiagem e sai na rua... Levei até cuspida na cara. Mas foi bom porque entendi aquela situação como se estivessem colocando-me em teste. Talvez, se meu estilo não fosse verdadeiramente minha realidade interior, eu teria voltado atrás. Mas sabia que nunca iria recuar. Eu nunca quis agredir ninguém! O que eu quero é brincar, me mostrar, me comunicar”.

Ter nascido com o espírito transgressor fez com que Elke quebrasse qualquer barreira de preconceito. Tem gente que pode não acreditar, e por mais que seja chocante a se pensar, existe sim uma retaliação violenta da sociedade diante do que ela considera diferente, mesmo que a pessoa tenha alguma posição de privilégio. Por que é necessário coragem para usar o que se gosta? "Acho tão gozado precisar de coragem para isso. As pessoas têm coragem de matar, né? Tem coragem de umas coisas estranhíssimas, e não tem coragem de se enfeitar!", questionaria surpresa. 

Para muitas mulheres a maquiagem pode ser uma prisão, porém Elke a transformou numa forma de expor quem realmente era. 
Uma verdadeira lady drag. Mais uma vez saindo a frente do tempo. 

À medida que os anos foram passando, contrariando aqueles retrógrados pensamentos de que “é só uma fase”, “você não está velho demais para se vestir assim?", a evolução de Elke não ficava só no físico. Era também uma constante transformação espiritual e mental. Esse era talvez um dos motivos de não ficar ultrapassada, algo que detestava. "Se a gente não quebrar estruturas enrijecidas, quebrar velhas estruturas, doa a quem doer. Doa a gente, doa a quem doer. A gente não tem possibilidades de novas...possibilidades. Nem dentro nem fora da gente, né? É a tal coisa, ficar velho é muito bom, mas ficar antigo é problema, ficar ultrapassado é problema"

Chegando ao mundo no dia 22 de Fevereiro, setenta e um anos depois, em 16 de Agosto, Elke deixava o nosso plano menos colorido. Ali também finalizava um de nossos projetos: entrevistar e conhecê-la pessoalmente. Mas seus pensamentos eram tão fortes que mesmo de longe nos alcançaria. Entre acordos e desacordos sobre suas opiniões, uma delas nos instiga até hoje a reflexão: "Temos uma liberdade sim, a de escolher a prisão que a gente quer ficar". Por fim, um último desejo: que a exposição Elke Quântica Maravilha retorne e percorra outras cidades do país. Diante de tantos retrocessos, o Brasil precisa respirar mais Elke. 


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16 de março de 2016

Joseph Corré e a queima de 5 mil libras de acervo da história do Punk!

Joseph Corré, filho de Vivienne Westwood com Malcolm McLaren, está dando o que falar na mídia britânica. A repercussão se deve a recente declaração de que irá queimar todo seu acervo Punk, uma coleção estimada em cinco milhões de libras. A reação polêmica é motivada por sua indignação perante ao que se transformou a subcultura nas últimas décadas.
 

No dia 26 de Novembro, será comemorado os 40 anos do álbum Anarchy in the Uk, dos Sex Pistols. A data também marca o início do movimento punk na Inglaterra, o que vem gerando uma série de manifestações culturais em todo o país. Só que isso não tem agradado a todos. 

Em comunicado a imprensa, Joe, como é conhecido, mostrou irritação ao saber que certas instituições acadêmicas foram financiadas para promover eventos em homenagem ao dia. Sua desconfiança é ainda maior ao saber que o grande alvo da contra-cultura, aprova a comemoração. "A Rainha oferecendo a 2016, o Ano do Punk, sua benção oficial é a coisa mais assustadora que já ouvi", diz.

O artista inglês Jamie Reid foi quem criou o mais icônico single da era punk: uma imagem da Rainha feita pelo fotógrafo Cecil Beaton estilizada pelo anarquista

De fato é realmente estranho quando se conhece a história da subcultura. Foi na Inglaterra que o Punk se aliou de vez com a política pois o país enfrentava uma recessão econômica que afetava diretamente a classe operária. Os jovens estavam desempregados e sem visão de futuro, enquanto os ricos comemoravam o Jubileu de Prata da Rainha Elizabeth II com grande ostentação. O No Future era uma realidade amarga e assim o Rock e o Anarquismo surgiram como uma luz no fim do túnel. Anti-monarquistas assumidos, uma afronta na época, transformaram a Família Real na fonte de deboche deles. 

Na imagem de 1977, Debbie Juvenile, tentando levantar Vivienne Westwood caída no chão, e outros punks sendo presos na festa que os Sex Pistols promoveram ao single "God Save the Queen" no mesmo dia que Londres comemorava o Jubileu de Prata da Rainha.
Via Daily Mirror

Interessante é que Corré enxerga pontos semelhantes entre 2016 e 1976 (ano em que o punk explodiu). "Um mal-estar geral tem estado agora entre o público britânico. As pessoas estão se sentindo adormecidas. E com o adormecimento vem a complacência. As pessoas não sentem que eles têm mais uma voz. A coisa mais perigosa é que tenham parado de lutar por aquilo que acreditam. Desistiram de correr atrás. Precisamos explodir toda essa merda mais uma vez", declara. 

Joé que criou a marca Agent Provocateur, convoca que outros também o acompanhem e destruam suas coleções no dia da comemoração. Não sabe ao certo se ele realmente terá coragem de queimar, afinal é um acervo histórico. Talvez seja só uma atitude extrema para resgatar o questionamento de uma ideologia perdida por sua cooptação. "Fale sobre a cultura alternativa e punk sendo apropriada pelo mainstream. Em vez de se falar num movimento de mudança, o punk se tornou a porra de uma peça de museu ou um ato de tributo.", desabafa. 


 ***

A fala de Joe é uma boa deixa pra gente refletir
sobre nossa própria relação com a cultura alternativa, com o desrespeito à história das subculturas, com a venda de suas estéticas
amenizadas pelo mainstream e até mesmo sobre o desinteresse da geração jovem por culturas de rebeldia. O legado da estética punk é tão grande que vai de pulseiras-gargantilhas de spikes, harness/arreios, mistura de estilos diferentes num mesmo look, customização, maquiagem exagerada... quem nunca fez uso desta herança, não é mesmo? 
Embora tenhamos muitos artigos sobre a apropriação das subculturas pelo mainstream, deixo aqui alguns que consideramos mais aprofundados, quem se interessar, é só dar um clique:
- Subculturas Alternativas: Elas Ainda Existem? (Parte 1)
- Subculturas Alternativas: A Monocultura (Parte 2)
- Subculturas e o conceito de individualidade (parte 1) - A liberdade de escolha! 
- Subculturas e o conceito de individualidade (parte 2): A autenticidade é uma moeda poderosa.
- Subculturas e o conceito de individualidade (parte 3): O revivalismo nostálgico 
- "O Heavy Metal é muito mais do que uma estampa em lojas de departamento"
- O que é Gótica Suave e porquê este estilo (ou termo) incomoda os góticos?



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15 de maio de 2015

A Edição de Maio da Elle e Diversidade na Moda: Bonito é ser diferente?

Tem se comentado com muito entusiasmo na web sobre a "revolucionária" e "inovadora" capa da revista Elle deste mês de maio. A capa é espelhada e reflete a pessoa que segura a revista.

A capa diz:
"#Você na Capa"
"Assuma seu rosto, corpo e sua idade com orgulho"
"Menos tendência, mais estilo"

Mas a capa não é tão inovadora assim, em 1999, na virada do milênio, a Vogue UK publicou a seguinte edição, capa espelhada com os seguintes dizeres:

O futuro começa aqui.
"O novo corpo"
"As novas roupas"
"A nova você"

E por que falamos disso no Moda de Subculturas?
Por um motivo muito simples: o respeito à diversidade nos interessa!
Nós fomos um dos primeiros sites/blogs nacionais (incluindo mainstream) a fazer post sobre como a terceira idade está sacudindo o mundo e sobre moda plus size alternativa. Nós já falamos de alternativos com deficiência, albinos e sobre moda andrógina. E em 2010, cinco(!) anos atrás, já alertávamos sobre a moda estar em busca da diferença.

Uma moda e uma mídia mais representativa e inclusiva interessa a todas nós. 
Pois, querendo ou não, ser alternativo não é ser totalmente excluído da sociedade, é viver em paralelo à ela. E ser idoso, ser deficiente, ser andrógino não pode ser visto como cidadãos de segunda categoria!

Bonito é ser diferente?
Foi interessane a Elle Brasil ter colocado Ju Romano, uma linda blogueira plus size (numa pose que lembra a de Beth Ditto para NME de 2009), Magá Moura (que nós já entrevistamos) e outras seis mulheres fora do padrão em suas capas para tablet. Mas isso também nos levantou o questionamento: por que na capa para tablet e não na capa que vai pra banca?

Todos sabemos que a versão tablet será acessada por uma porcentagem pequena de leitores. Revistas são pagas por anunciantes e pensamos: será que os anunciantes estão prontos pra colocarem plus sizes, idosas, albinas, andróginas e alternativas como representantes de seus produtos nas capas de revistas de Moda??
Capas precisam ser aprovadas por anunciantes, ser aprovadas por empresas de moda, ser aprovadas por editores, capas que chegarão aos rincões deste país e farão a mulher comum do interior se identificar com o que vê. Numa capa espelhada, ela se refletirá. Vai achar legal e vai querer comprar pra se divertir em casa tirando fotos e fingindo ser ela na revista. Mas sentirá uma mudança real do mercado? Ela entrará numa loja e encontrará roupas pro seu corpo? Ela não enfrentará preconceito por usar uma estética diferente?

 Juliana Romano, Andreza Cavali e Magá Moura nas capas para tablet
Elle Brazil may 2015


De 1999 pra cá, o desejo não foi alcançado.
Será desta vez que o mercado mudará? Ou aceitar a diversidade é apenas mais uma trend? Assim, a Elle nos levanta novamente aquele debate que, se moda faz parte de um sistema capitalista, como saber se o "diferente" é mais uma jogada de marketing ou uma real mudança de mercado? Revistas que sempre castraram mulheres dizendo como elas deveriam ser, o que deveriam usar, que produtos de beleza disfarçarão sua idade, qual maquiagem a deixará com aparência rejuvenescida, agora dizem para elas se libertarem de tudo isso que promoveram?!

No documentário Fabulous Fashionistas que é sobre mulheres idosas com estilo, foi perguntado à um editor de moda sobre a abertura do mercado aos mais velhos e ele disse que essa "aceitação" é passageira. Isso nos deixou intrigadas, pois ele - diante do cargo que ocupa e como inglês, que é mais aberto as diferenças do que nós - mostra que o sistema vai ainda demorar muito para mudar a mentalidade.

A diversidade está na moda, isso é fato. Mas é difícil saber se a indústria da Moda mudou mesmo ou se está apenas curtindo a onda do momento, por isso ainda observamos com cautela. Temos receio de falar que o sistema da Moda tá mudando, porque em se tratando dela, tudo pode ser cíclico, a não ser que a população realmente fique em cima. Preferimos então apontar marcas que já nascem com esse conceito ou citar pessoas que isoladamente ou em grupo estão fazendo a diferença do que dizer que "a Moda" está fazendo tudo isso.
A moda vive do novo... Quando um "novo" surge, o antigo é deixado de lado. Torcemos para que o "bonito é ser diferente" não seja mais uma trend, seja algo palpável, duradouro e de fato, sentido na pele, no dia a dia.


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