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20 de fevereiro de 2020

A força visual do bustiê moldado: o torso feminino como segunda pele


Grace Jones de Issey Miyake

Um bustier de plástico rosa metálico vestido pela cantora Zendaya no Grammy 2020, causou alvoroço entre os seguidores de moda devido à força estética que essa peça representa. O modelo utilizado era uma versão que Tom Ford lançou em sua última coleção Primavera-Verão, homenageando os bustos de Yves Saint Laurent da coleção Inverno 1969 e de Issey Miyake para sua coleção de Inverno de 1980. Aproveitando esse momento de resgate histórico, vamos contar alguns detalhes dessa peça adorada nas mentes dos estilistas, que apresenta diferentes significados e até hoje chama atenção por onde passa. 


O resgate que Tom Ford fez na temporada passada, trouxe à passarela diferentes estilos: busto inteiro ou sutiã, nas cores rosa, verde, preto e marrom. A peça azul desfilada por Gigi Hadid apresenta uma assimetria no formato dos seios. As criações são feitas de plástico e homenageiam os modelos apresentados anteriormente por YSL e Issey Miyake.

Segundo o Museu Yves Saint Laurent, na coleção de Alta-Costura Inverno 1969, o estilista francês fez uma parceria com Claude Lalanne, escultora que tinha um trabalho voltado à natureza, com inspiração nas formas dos animais e plantas. Lalanne usa o corpo da modelo Veruschka, conhecidíssima nessa época, para criar moldes de seus seios e barriga - que depois viraram joias de cobre desfilados com dois vestidos de chifon, um preto e outro azul. 


Não seria a primeira vez que Tom Ford traria às passarelas influência desse busto. Nos anos 2000, quando comandava a moda feminina da própria marca YSL, veria-se uma atualização na coleção Verão 2001, com direito a piercing no mamilo, porém feita de plástico e modelo inteiro, igual  Miyake.


A criação de Issey Miyake é a mais icônica, inclusive na carreira do próprio estilista, pois muitas artistas gostaram e vestiram em suas apresentações. Fabricada para sua coleção de Inverno 1980, era feita de plástico em diferentes cores como azul, verde, vermelha e preta. Segundo o MET, o busto também fora moldado no torso de uma mulher e tinha como mensagem subverter a ideia de que roupas eram uma cobertura separada do corpo, revelando os detalhes dos contornos femininos e criando uma segunda pele que se transforma em um pequeno peplum de dobras de tecido nos quadris. Interessante que essa peça encontra-se atualmente no Museu de Arte da Filadélfia, mas antes rodou o mundo na exposição "Bodyworks" de 1983 a 1985. O modelo foi um estudo de Miyake na relação entre a forma do corpo e a roupa, e a roupa diretamente de volta ao corpo. 


A força visual e estética que essa peça apresenta é impressionante. Não à toa caiu nas graças de artistas como Grace Jones e Toyah Wilcox, que a vestiram diversas vezes, inclusive até hoje Toyah surge em apresentações com versões de outros designers.


Assim como Issey Miyake, plástico também foi o material usado em um dos figurinos de Barbarella, filme protagonizado por Jane Fonda. O modelo remete à Lorica segmentata, um dos tipos de armaduras dos Legendários romanos no século 1. O longa é de 1968, portanto anterior aos modelos de YSL, e foi desenhado pelo figurinista francês Jacques Fonteray.


Depois de Miyake houve uma profusão de criações de bustos, alguns de plásticos e outros ampliando as diversificações de materiais. Os que mais trouxeram o modelo nas passarelas foram Thierry Mugler e Alexander McQueen. 

Cara Delevingne para GQ Men.
Mugler Verão 1991

Os bustos de prata de Mugler transmitem a forma feminina remetida num corpo robótico. Em 1929, é visto no filme 'Metrópolis' um robô que exibia essa mesma imagem. Anos depois no figurino de "O Guarda-Costas' de 1992, Whitney Houston usa um busto parecido com o de Mugler. Atualmente o designer Xtian de Medici cria seus modelos de luxo cheios de cristais Swarovski feitos de acrílico cromado para coleção 'Paradise' de 2018.


Alexander McQueen deve ter sido o estilista mais fascinado, pois em quase todo o desfile via-se algum estilo dessa peça. Inclusive ele levaria o busto nas suas criações quando fez parte da Givenchy, na qual Gisele desfilou o modelo de couro vermelho abaixo. Certas peças ficaram tão conhecidas que acabaram fazendo parte da exposição em sua homenagem, "Savage Beauty". Lee também fez parceria com o designer de joias Shaune Leane e juntos criaram peças esculturais fazendo com que nem todos os modelos sejam considerados roupa e sim joias, igual Lalanne e YSL.

McQueen Verão 1996. O busto de plástico transparente possuía minhocas vivas dentro.
McQueen Verão 1997
Givenchy Inverno 1999
McQueen Inverno 1999 e Verão 2005. Os modelos lembram a prótese de coluna de Frida Kahlo (meio).
Colaboração com Shaune Leane.
McQueen Inverno 1999
McQueen Inverno 1999 e Inverno 2009
McQueen Verão 1997

Assim como McQueen, o premiado estilista turco-cipriano Hussein Chalayan também fez peças que se associam com o busto moldado. Em sua coleção "Ventrilogy" de 2001, apresentou modelos de resina de poliéster e de açúcar, este, quebrado com um martelo ao fim do desfile. Um ano antes, havia apresentado uma peça escultural que entrou pra história da moda, criado para a coleção "Remote Control", popularmente conhecido como 'vestido-avião'. Segundo o MET, o estilista quis representar a relação entre natureza, cultura e tecnologia. Outra peça do estilista foi o bustiê em madeira da coleção "Along False Equator" de 1995, o Metropolitam Museum sugere que o bustiê lembra "próteses médicas antigas, a elegância dos cascos dos barcos e o confinamento de caixões".


No desfile Outono Inverno 1995, Vivienne Westwood fez um vestido inspirado na Rainha de Sabá para coleção "Vive La Cocotte", o torso é marcado com o contorno feminino sobre um espartilho com contas de vidro. A peça esteve numa exposição de 2004 sobre a estilista no Museu Victoria e Albert. Um detalhe é que esta exibição destacava a pesquisa da inglesa sobre história da moda e como esta influenciava seu trabalho.


Certas criações tiveram como intuito potencializar a sensualidade ou até mesmo o erótico do corpo da mulher. Isso fez com que marcas alternativas voltadas ao fetiche também fossem influenciadas por esta forma. Repare que a parte de cima do vestido de látex vermelho de Dita von Teese feita pela House of Harlot lembra muito o bustier de Issey Miyake. A seguir, Kate Moss no macacão de bronze feito pelo escultor Allen Jones. Abaixo,  modelos de Mugler e McQueen. 

Mugler Verão 2008, Verão 1991 e McQueen Inverno 2002.

E claro, as criações do espanhol Cecilio Castrillo Martinez, que mistura o universo de fetiche, dark e terror com armaduras. Assim como McQueen, o designer é fascinado pela peça que sempre aparece nas suas coleções. Confeccionados em couro, tem até modelo para grávida.


Parece que o retorno do bustier moldado pode vir com força. Na coleção de despedida de Jean Paul Gaultier, aparecem diferentes criações, entre elas busto e barriga, remetendo a YSL em 1969, e o torso masculino, remetendo ao peitoral militar greco-romano, que já fora apresentado antes nas passarelas por Alexander McQueen.


Esse em específico tem os seios em formato de Bullet Bra, modelo que possui uma trajetória na carreira de JPG e que já contamos a sua história aqui no blog! Tem também o post do Cone Bra e o fetiche.


E olha como são as coisas: o modelo de Jean Paul Gaultier nos remete a outra criação de 1928, um figurino utilizado pela atriz Marion Martin inspirado em 'Aelita, A Rainha de Marte'.


Além de passear por parte da história do bustier moldado em forma de torso feminino, um dos intuitos desse post é que, quem sabe, as marcas de moda alternativa brasileiras façam as suas versões, pois esta é uma peça lindíssima, que exalta justamente uma das partes do corpo da mulher que traz tanta polêmica quando desnudados: os seios e os mamilos. Pode-se ver que não há necessidade de fazer formas padronizadas, é possível abrir a mente e criar a diversidade de curvas existentes. Quando fizemos os posts sobre o bullet bra (sutiã cônico), não havia nenhuma marca daqui fabricando o modelo. Logo depois, várias produziram inspiradas pelo post! Fica então o desafio para vocês, designers, criarem essa peça incrível às nossas superpoderosas mulheres.

ATUALIZAÇÃO 19/03/2020 - TEMOS BUSTO BRASILEIRO!

Alguns dias após esta publicação ir ao ar, a Isabela Itabayana (@trashqueen13) de Belo Horizonte, entrou em contato através do Instagram do blog pra dizer que ela criou um busto em sua coleção de TCC chamada Agnatha, nome de um tipo de peixe sem mandíbula, uma das primeiras criaturas na evolução. A peça também homenageia os bustos da moda, como os de Issey Miyake e Thierry  Mugler. Para a estilista a peça é relacionada com sangue se ligando com a questão a vida/morte; ao aquário (reservatório de água, aqui preenchido com sangue) e ao sensual, ao "fetiche da imobilidade causada pela peça sólida, ereta, imóvel (como aquelas ilustrações da Bizarre)", diz ela.
A peça foi feita à vácuo, Isabela também desenhou e produziu todos os itens da coleção (os óculos, os sapatos...). A estilista também trabalha criando peças em látex que estuda desde 2015 e complementam o busto e os looks na passarela. Não posso deixar de registrar minha admiração pelo trabalho dela e espero que logo a tenhamos como uma nova marca no mercado nacional!
Existem muitos bustos no exterior, chegou a ser até exaustivo fazer a curadoria de fotos para essa postagem tamanho o volume de produções lá fora, que maravilha é poder mostrar agora ao Brasil (e aos leitores do resto do mundo), que também temos uma versão nacional! E mais admirável ainda: vindo de uma marca alternativa e não de grandes nomes da moda!
Agradeço muito a Isabela pelo envio de um texto explicativo sobre seu trabalho e as fotos com as etapas da construção da peça. <3

O busto.

O processo de criação.

Esquerda e centro: fotos do desfile. À direita, a estilista Isabela/@trashqueen13.
   

Direitos autorais:
Artigo original do blog Moda de Subculturas, escrito por Sana Mendonça e Lauren Scheffel. 
É permitido compartilhar a postagem. Ao usar trechos do texto como referência em seus sites ou trabalhos precisa obrigatoriamente linkar o texto do blog como fonte. Não é permitida a reprodução total do conteúdo aqui presente sem autorização prévia. É vedada a cópia da ideia, contexto e formato de artigo. Plágios serão notificados a serem retirados do ar (lei nº 9.610). As fotos pertencem à seus respectivos donos, não fazemos uso comercial das mesmas, porém a seleção e as montagens de imagens foram feitas por nós baseadas no contexto dos textos.

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3 de maio de 2016

A História do Movimento Riot Grrrl: punk e feminismo na década de 1990

Em 2016, o movimento Riot Grrrl completa 25 anos. A data vem trazendo novidades que resgatam a memória através de documentários, biografias e exposições, além dos grandes retornos de bandas da época. Para completar, no dia 9 de Abril foi instituído em Boston o "Riot Grrrl Day". 

bikini kill
Kathleen Hanna, Bikini Kill - 1992



O espírito
Apesar de ter nascido em 1990, o fato é que suas raízes se iniciam no punk setentista. Os homens esbravejavam ao mundo as injustiças que sofriam de uma sociedade capitalista e as mulheres queriam fazer o mesmo. Porém, não era só o preconceito da classe dominante que iriam enfrentar; o de dentro da subcultura também. De tantas bandas que poderiam ser citadas, cada uma com sua importância, uma em específica globaliza a inquietude: X-Ray Spex.

Quando Poly Styrene introduz a música "Oh Bondage! Up Yours!" dizendo a seguinte frase: "Some people think little girl should be seen and not heard, Oh Bondage! Up Yours!/ Algumas pessoas pensam que as garotinhas só devem ser vistas e não ouvidas, Oh submissão! Vai tomar no c*!", ali encontramos o espírito do que iria refletir quase 20 anos depois. E o que diferencia as duas gerações então? O feminismo. Mesmo com a segunda onda dos anos 60, as punks inglesas agiam conforme o que vivenciavam, não havia noção da ideologia. "Nos sentíamos naturalmente feministas sem falar sobre", revelou Ari Up, vocalista da The Slits. O Riot Grrrl chegou para unificar tudo.




Início
O cenário do rock nos anos 1980 não era nada favorável as mulheres, tanto no underground quanto no mainstream. No post As Mulheres no Heavy Metal, é debatido sobre o apelo sexual ser mais explorado pela indústria do que o talento musical. O pouco de liberdade que se tinha fez queixos caírem com Chrissy Amphlett do The Divinyls cantando "I touch myself", um hino a masturbação feminina. Parcerias como a de Annie Lennox e Aretha Franklin em "Sisters are doing it for themselves", seria um respiro perante ao machismo do mercado.

A mídia mainstream definia em suas capas o feminismo como morto, utilizava manchetes sensacionalistas sobre o julgamento de assédio sexual do caso Clarence Thomas e Anita Hill, enquanto ocorria o assassinato de 14 alunas na Universidade de Montreal, onde o atirador dizia: "quero as mulheres". Diante das atrocidades e opressões sofridas, o sentimento de revolta se aflora.

Revista Time de 1989.
A revista questiona: Existe futuro pro feminismo?


Punk Singer: Rebel Girl, You're the Queen of my World
Kathleen Hanna é uma jovem interessada em estudos feministas que procura desenvolver seu conhecimento por leituras de Kathy Acker, a arte de Jenny Holzer e Barbara Kruger. Iniciada no curso de fotografia da Faculdade Evergreen em Olympia, capital do estado de Washington, faz amizade com Tammy Rae que a apresenta ao rock de bandas como Sonic Youth e Pixies. A atração pela música fica cada vez mais forte.
Durante o período de estudo, uma amiga com quem dividia moradia sofre tentativa de estupro no próprio local, resultando em ferimentos físicos e psicológicos na vítima. Comovida pela situação, em 1989, Kathleen arma um desfile protesto na biblioteca da faculdade, onde vestidos estampam frases que narravam o episódio de violência, caminhando entre palavras de repulsa. O efeito repercute ainda mais em sua vida.
Hanna conhece o fanzine Jigsaw de Tobi Vail, a única garota que falava de feminismo e punk rock. Amigos dão a ideia de um “Revolution Girl Style Now!” (revolução ao estilo das garotas), com a intenção de fazer garotas tocarem instrumentos. Então em 1991, é lançado o primeiro trabalho do Bikini Kill, formado por Kathleen Hanna nos vocais, Tobi Vail na bateria, sua amiga Kathi Willcox no baixo e por último, Billy Carren na guitarra. Ali inicia-se um novo movimento que envolvia arte e política. 

bikini kill
O zine Jigsaw e a banda Bikini Kill

A cena dos shows punks tinha a plateia feminina suprimida pelos moshs e rodas punks, muitas eram agredidas e acabavam indo parar no fundo sem poder entreter-se direito. Quando Kathleen Hanna dizia: "girls to the front" (garotas na frente), isso nunca tinha ocorrido antes na música, marcando uma nova era onde as meninas iam para frente do palco, numa estratégia de segurança para evitar assédio e poderem curtir à vontade. Os homens podiam estar presentes, mas atrás, nunca dominando o ambiente. Punks tentavam afrontar as integrantes e por isso ter garotas na frente também era uma estratégia de segurança às musicistas não serem agredidas. A música não era um escape, era um fundamento. Elas cantavam com raiva, algo que não era comum mulheres das bandas fazerem.

Kathleen Hanna: "Todas as garotas pra frente! Não estou brincando."

"Todos os rapazes, sejam legais uma vez nas suas vidas. Vão para trás, para trás, para trás."


O movimento
Em 1991, as bandas Bikini Kill e Bratmobile se mudam para Washington DC. Instaladas na capital americana, Jen Smith (Rastro!/ The Quails) e Tobi Vail criam o zine Riot Grrrl da qual na primeira leva, conta com escritas de Kathleen Hanna, Allison Wolfe e Molly Neuman. Junto ao zine, começam a fazer reuniões de ajuda para mulheres desabafarem abusos que sofriam, oferecendo palestras e atividades de artes. 

Riot Grrrl é uma garota assertiva, resoluta, com engajamento político em questões feministas. Os vários “Rs” do Grrrl, são ideia de Tobi Vail que lembram um som gutural que remete à raiva, à garotas raivosas. Na tradução literal: "garotas amotinadas" ou "motim de garotas": “She´s a grrrl she can do anything she wants" (ela é uma garota, pode fazer o que quiser); "every girl is a riot girl" (toda garota é uma Riot Grrrl)”

Inspirada pelos acontecimentos nessas reuniões, Kathleen Hanna escreve o Manifesto Riot Grrrl na segunda edição do fanzine Bikini Kill, edição conhecida também por 'Grrrl Power'.

 Página do zine contendo o Manifesto escrito por Kathleen Hanna
kathleen hanna
Segue tradução de trechos selecionados:
PORQUE nós devemos assumir os meios de produção parar criarmos nosso barulho.
PORQUE vendo nosso trabalho como sendo conectado com as vidas reais e as políticas das nossas amigas é essencial que entendamos estamos impactando, refletindo, perpetuando ou ROMPENDO com o status quo.
PORQUE nós não queremos assimilar o padrão de outra pessoa (garotos) de o que é e o que não é.
PORQUE nós estamos interessadas em criar formas não hierárquicas de ser E fazer música, amigos e comunidades baseadas em comunicação + entendimento, ao invés de competição + bom/ruim categorizações.
PORQUE nós odiamos o capitalismo de todas as formas e temos como nosso principal objetivo compartilhar informações e nos mantermos vivas, ao invés de dar lucros sendo legal de acordo com os padrões convencionais.
PORQUE eu acredito com todomeucoraçãocabeçacorpo que garotas constituem uma força revolucionário que podem, e irão, mudar o mundo de verdade. 

O blog Cabeça Tédio fez uma ótima tradução do Manifesto, peço que acessem esse link pra ler por completo. 

Algumas bandas Riot Grrrl: Bikini Kill, Bratmobile, Heavens to Betsy, Team Dresch, Excuse 17, Huggy Bear, Slant 6, Skinned Teen, Emily's Sassy Lime, 7 Year Bitch, Jack of Jill e Sleater-Kinney.


Feminismo e Política
O Riot Grrrl Convention aconteceu em meados de 1992 e reuniu mulheres de toda a América para discutir temas como identidade sexual, autopreservação, racismo, consciência, abuso doméstico, como sobreviver a abuso sexual e assuntos que se encaixavam ou não na comunidade punk. Lá apoiavam umas as outras e trocavam ideias sobre empoderamento feminino. Muitas das participantes acabaram criando novos movimentos Riot em suas cidades espalhando as ideias feministas por todo o país.


Kathleen Hanna queria que as garotas se tornassem donas de seus corpos, ela repudiava o que chamou de “fascismo corporal", quando as meninas são chamadas de “inapropriadas”. Usando o DIY do punk para empoderamento, encorajando mulheres a resistir e subverter a dominância do que a sociedade construiu como "feminilidades”, ajudaram a combater os gender roles no punk, dando autoestima às garotas. Levavam em conta o mantra feminista: "o pessoal é político" – frase que combate a cultura do estupro, da heteronormatividade, o direito ao próprio corpo e outras questões femininas de esfera política. O corpo absorve e reflete as informações do ambiente no qual está inserido, assim, pode ser considerado um índice das mudanças em curso na sociedade.

Usando o corpo como tela para palavras de protesto.

A atitude de Kathleen traz à memória a obra de Barbara Kruger.
Seu corpo é um campo de batalha

Zines
Com raízes na cultura dos zines (revistas feitas à mão com recortes e colagens), o Riot Grrrl inspirou mulheres a escreverem e se auto-publicarem. Em 1993, zines como Girls Germs, Satan wears a Bra, Girly Mag e Quit Whining se tornaram os primeiros do movimento. Segundo Johanna Fateman do Le Tigre, os zines eram um instrumento pré-internet para a formação de cenas locais.

bikini kill satan wears a bra girl germs

Para ajudar na distribuição destes zines, Erika Reinstein e May Summer criaram o Riot Grrrl Press na primavera de 1993, arrecadando fundos para comprar fotocopiadoras e computadores. Ocorre uma revolução de zines de garotas sem precedentes na história! Agora elas tinham uma produção e distribuição de uma mídia feminina independente que fazia com que tivessem controle sobre suas próprias imagens e também combatia a apropriação midiática do movimento, podendo chegar a uma grande audiência sem ter de se render à imprensa mainstream.

Os zines, como mídia alternativa, faziam o que a mainstream não fazia: empoderava garotas e ensinava feminismo. Vejamos algumas páginas:

"Com licença ♥ Oi, eu apenas queria dizer que eu não vou *sorrir *agir como burra *esconder meu corpo *fingir *mentir *ficar quieta por você. Tudo que faço, faço por mim e não vou mais deixar você rir de mim, tirar sarro de mim, me assediar, me abusar ou me estuprar. Porque sou uma garota e eu e minhas amigas não temos medo de você."


"Nunca deixe eles te silenciarem. Garota você é sensacional, o que você tem a dizer é importante. É relevante. Você é inegável, você é capaz, indescritível, revolucionária. VOCÊ É UMA LINDA."

feminismo
"Lute de volta - Mulheres não desejam ser estupradas. Ninguém pede pra ser estuprada! Mulheres devem ser capazes de andar na rua sem serem assediadas! Mulheres desejam respeito! E nós vamos conseguir!"
feminism
A cena já chamava atenção da mídia que andava atiçada devido ao Grunge. Pela proximidade de ambas subculturas, os holofotes de Seattle refletem nas Riot, só que o efeito surte em uma matéria com falsas informações no jornal USA Today e Washington Post. Irritadas pela repercussão mentirosa, em protesto iniciam um apagão na mídia por distorcerem a cena. Tal engajamento persiste até o final do Bikini Kill, em 1997.


Festivais Feministas
É criado o festival L7's Rock for Choice, organizado pela banda L7, que aconteceu de 1991 a 2001 e tinha como objetivo divulgar e arrecadar fundos para os movimentos de liberdade de escolha sobre o aborto (Pro-Choice).

Ed Vedder, entusiasta do feminismo, escreve Pro Choice em seu braço
durante a apresentação da música Porch no MTV Unplugged
.

No evento de 1993, a banda L7 arma um desfile protesto semelhante ao que Kathleen Hanna havia feito na faculdade. Elas percebem o viés cultural e a força da ligação Rock + Moda tem, utilizando-as como ferramenta política de suas ideologias, visão muito parecida com as Sufragistas nas primeiras décadas do século XX.


Já no ano 2000, é criado o Ladyfest na cidade berço do movimento Riot, Olympia. Independente, sem fins lucrativos, unia bandas, DIY, ativismo, straight edge e tinha como objetivo aumentar a visibilidade das mulheres na cena indie e underground juntando com ideias feministas do movimento Riot.


Kurt Cobain
Enquanto há o debate controverso sobre homem ser denominado de feminista ou pró-feminismo, em documentários colocam Kurt como seguidor da ideologia. Inclusive no Punk Singer, falam que o músico saiu da arte-punk feminista. Ao estourar o Grunge no mainstream, sendo o principal alvo o Nirvana, tudo que acerca o grupo fica em evidência. Kathleen Hanna era grande amiga do cantor, que se apaixonou por Tobi Vail e o introduziu ao estudo feminista. Mesmo após a separação, Kurt continuaria presente fazendo seus protestos contra misoginia em letras de música ou discursos. Ele também participaria do evento "Mia Zapata Benefit" em homenagem a cantora do The Gits, Mia Zapata, estuprada e morta após sair de um bar em 1993.

Panfleto anunciando show das bandas Nirvana e Bikini Kill.
Havia forte amizade entre Kurt e as meninas.

Se a baterista Tobi Vail namorou Kurt, vale relembrar que Kathleen Hanna está por trás de uma das maiores músicas de rock de todos os tempos: Smells Like Teen Spirit. Kathleen pichou a frase na parede de seu quarto, inspirando Kurt a escrever a canção. Legal como as minas feministas se interligam com uma icônica música grunge, né? 

A parede pichada por Kathleen Hanna. Falamos mais dessa ligação aqui.


Riot Grrrl vs Grunge Girls
O assunto mais polêmico! Houve um desentendimento no Lollapalooza de 1995 quando Courtney encontrou Kathleen Hanna nos bastidores do show do Sonic Youth e lhe deu um soco. O motivo até hoje é controverso. Alguns dizem que Hanna fez comentários negativos sobre Frances, outros afirmam que não havia absolutamente nada entre as duas. Quem sabe Love tinha ciúmes da relação de Hanna e Tobi Vail, ex- namorada de Kurt? Não há uma conclusão. Mas uma coisa é certa: as cenas eram contemporâneas e as garotas grunge feministas interagiam com a cena Riot Grrrl, pois Seattle e Olympia eram cidades próximas, uma amostra são as bandas L7, 7 Year Bitch e Babes in Toyland que ficam entre as duas subculturas.

Direções opostas, mas havia semelhança nos sentimentos
"As mulheres são o futuro do rock n' roll. Pegue algumas guitarras!" - Courtney Love


As Riots e a moda
O Riot Grrrl é considerado o primeiro grupo feminino (ou predominantemente) da história ocidental do street style, já que poucos homens eram permitidos a participar e acabavam sendo mais "decorativos" do que ativos. Elas usavam a feminilidade de forma provocativa, subvertendo os estereótipos de feminino. Nas bandas Riot de Olympia, predominava um visual retrô de influência anos 1960 com um mix da moda mainstream do momento (mostramos aqui), como baby looks e saias evasê com coturno ou all star. Usavam também roupas de segunda mão, t-shirts, moletons, tatuagens, piercings. As Riots eram muito diversas esteticamente porque o movimento era focado em música e no feminismo e não tanto numa moda específica. Utilizavam a indumentária como forma de protesto, se a regra era ser "#bela, recatada e do lar", elas subvertiam usando minissaias, vestidos curtos e lingerie. Estética bem similar ao que as The Slits faziam em 1970!

Bikini Kill: o uso de vestidos com ar retrô anos 60 ou que acompanhavam a silhueta do momento eram frequentes. Sendo curtos, usados com botas ou tênis.


O uso de saias era habitual, vale lembrar que no rock, pra se igualar aos homens, muitas mulheres optavam por usar calças ou o extremo oposto, as fãs de Hard Rock apostavam na clássica minissaia justíssima com apelo sexual, e as Riot quebram isso, vestindo saias curtas mas evasê ou de pregas e/ou com meia calça, fazendo da peça divertida, provocativa e empoderadora no palcoOs tecidos, estampas e formato das camisetas equivalem à moda dos anos 1990, nas baby looks ou t-shirts.
 

Bratmobile: também um exemplo da mistura do retrô sessentista com o estilo alternativo da época com blusa baby look, estampa de bicho e até blusa em vinil usada com calcinha e meia calça colorida com arrastão por cima.


Sleater-Kinney: dentre as três, a banda que tinha um visual mais anos 90, com saias usadas com meia calça e botas e peças clássicas/atemporais.  
 

Há de se falar sobre a maquiagem, pouco usada ou não elaborada. Naquela época, estar bem maquiada era uma obrigação social às mulheres, assim, não usando maquiagem ou a usando de forma desleixada, elas desafiavam as convenções de beleza exigidas. A ideia de uma feminilidade padronizada produz efeitos negativos na autoestima das adolescentes e elas queriam quebrar isso. 

Tobi Vail

As Riots queriam tomar o poder dos seus corpos que havia sido entregue à objetificação sexual e regras de comportamento. Em uma sociedade que ojeriza o pêlo corporal da mulher, elas passam a não se depilar e exibir sem receio. Quando Kathleen cantava de sutiã ou calcinha à mostra, era um modo de dizer que aquele corpo tinha uma dona e que nenhum homem tem direito a invadi-lo (abusar ou estuprar), e não haveria imposições da indústria sobre como deveria ser sua estética e a forma de expor sua sexualidade.



O som
A música surgiu como uma extensão do protesto feminista das Riots. Sendo punks, seguiram o lema "faça você mesmo" aprendendo a tocar os instrumentos sozinhas. Elas queriam mostrar que Rock também era para mulheres e incentivá-las a montarem suas bandas. 

"Temos raiva da sociedade que diz: garotas são burras, garotas são más, garotas são fracas."

Até hoje é difícil encontrar mulheres bateristas, esse é um dos maiores dilemas para quem quer montar uma banda só de meninas. Inclusive tal questão é destacada no documentário Hit So Hard da Patty Schemel.

Duas minas no comando da batera: Molly Neuman e Tobi Vail

Allison Wolfe
Bratmobile


Musas femininas (e feministas), influências e referências
Kim Gordon, baixista da banda Sonic Youth, era admiradora do movimento e se tornou amiga das garotas do Bikini Kill. Ela cita muito a experiência em sua autobiografia, A Garota da Banda.

 "Estou grávida de uma menina. Espero que ela seja uma Riot Grrrl" 

Kim convidou Kathleen para participar do clipe "Bull in the Heather". Era na fase em que o Bikini Kill mantinha o apagão na mídia. Gordon achou que seria um jeito de trazer a cantora ao mainstream como forma de provocação, mesmo arriscando Hanna a sofrer retaliação do meio Riot.


“Mulheres são anarquistas e revolucionárias naturais, porque elas sempre foram consideradas cidadãs de segunda classe, tendo garra pra criar seu próprio caminho. Quero dizer, quem fez todas as regras de nossa cultura? Os homens - homens brancos da sociedade corporativa. Então por que uma mulher não pode se rebelar contra isto?" - Kim Gordon

Joan Jett: é considerada a musa inspiradora do movimento. Em 1994, Jett produz em sua gravadora e faz backing vocals para um single da Bikini Kill, enquanto que sua banda The Blackhearts trás faixas com Kat Bjelland (Babes in Toyland), Donita Sparks (L7) e Kathleen Hanna. Nas fotos, Jett com Bikini Kill e Kathleen Hanna.



A decadência
“Precisamos nos fazer visíveis sem usar a mídia mainstream como ferramenta. A mídia corporativa cooptou e trivializou um movimento de garotas raivosas que poderia ser verdadeiramente ameaçador e revolucionário. A mídia distorceu as visões de nós mesmas criando hostilidade, tensão e inveja num movimento supostamente sobre apoio de garotas. Numa época que Riot Grrrl se tornou a próxima tendência, precisamos tomar de volta o controle de nossas vozes.”

A mídia mainstream as tornou um espetáculo, o foco saiu do feminismo e autoprodução para o senso de moda punk. Muitos as consideravam apenas jovens que queriam chamar a atenção. O movimento decai em 1997 quando a mídia tenta desacreditar e apagar jovens feministas da cena política e passou a jogar umas contra as outras e a criar tramas sexistas. Com o tempo as meninas foram marginalizadas na cena que se tornou hostil e até perigosa para elas.


Girl Power
A palavra "girl power" promovida pelos zines Riot para superação de abusos e violência, encorajando mulheres a formar bandas e experimentar com música foi cooptado pelo mainstream. O caso mais famoso é o do grupo Spice Girls, que esvaziou do termo seu significado original - para as Spice, o “girl power” era focado em moda e romance heterossexual onde a mulher dominava o relacionamento. Sendo populares, nunca disseram que o termo teve origem no movimento Riot Grrrl. Hanna chegou a dizer numa entrevista que a diferença entre o feminismo das Riot e o das Spice Girls é que o das inglesas era um produto, marketing.

Este zine é considerado o primeiro
registro Riot Grrrl do termo "Girl Power"

Em sua autobiografia, A Garota da Banda,
Kim Gordon fala sobre o "Girl Power":

"No final do dia é esperado que as mulheres sustentem o mundo, não que o aniquilem. É por isso que Kathleen Hanna, do Bikini Kill, é tão incrível. O termo girl power (poder feminino) foi cunhado pelo movimento Riot Grrrl, que Kathleen Hanna liderou nos anos 1990. Girl Power: uma frase que mais tarde seria cooptada pelas Spice Girls, um grupo criado por homens, cada Spice rotulada com uma personalidade diferente, lapidada e estilizada para poder ser comercializada como um perfil feminino falso. Coco [filha de Kim] era uma das poucas meninas no jardim de infância que nunca tinha ouvido falar delas, e essa é uma forma do poder feminino, dizer não à comercialização das mulheres!"

Curiosidades:
Em 2015 as Riots doaram zines, jornais, imagens, material pessoal para a Fales Collection na New York University’s Bobst Library para um arquivo histórico do Movimento Riot Grrrl.

Se hoje é comum ver mulheres em bandas de rock, há 20 anos a ideia de jovens meninas sendo protagonistas de bandas e de uma cena inteira foi algo realmente novo e radical!

Embora tenha havido mulheres na cena punk desde a década de 1970 - Siouxsie Sioux, Joan Jett, Patti Smith, Chrissy Hynde - o Riot é considerado o movimento que mais frequentemente creditou e trouxe punk e feminismo juntos. 

A palavra “Grrrl” entrou oficialmente para o Dicionário Oxford em 2001 como sendo um ativismo feminino de engajamento punk e diversas formas de produção cultural.

Se quiser saber um pouco mais sobre o feminismo na década de 1990, leia nosso post sobre a Revista Sassy e também o filme “The Fabulous Stains”, o qual influenciou Tobi Vail.

"Acho que toda garota deveria ganhar uma guitarra no seu aniversário de 16 anos."


Hoje com a banda The Julie Ruin, Kathleen Hanna aparece nas fotos abaixo com a baixista Kathi Willcox em 2015; com Joan Jett em 2013 e abaixo, no palco observem que Hanna, aos 46 anos, ainda mantém o estilo de usar "lingerie" com meias calças e Kathi um vestidinho, mostrando que ambas mantém o estilo pessoal da época Riot.

Joan Jett 2013 e The Julie Ruin 2015



O Movimento Riot Grrrl no Brasil
No Brasil, a banda Dominatrix capitaneada por Elisa Gargiulo é uma das maiores referências do movimento que chegou por aqui em 1995. Elisa organizou seis edições nacionais do LadyFest. As bandas Riot brasileiras usavam os primórdios da internet pra se divulgar, produziam zines e shows. Havia resistência de conhecidas bandas punks nacionais (com integrantes homens) com as meninas, chegando haver situações de extremo machismo e hostilidade com as jovens. Assim como no exterior, no Brasil havia a estimulação da rebeldia, da libertação de padrões corporais e ideais de beleza assim como o engajamento feminista.
Quero aproveitar e dizer: se algum de vocês, leitores (as), tem guardado algum zine Riot nacional dessa época, entra em contato com a gente, adoraríamos dar uma olhada (poder ser por fotos!) nessa relíquia! ;D

Para a revista Trip, Elisa Gargiulo declarou sobre o LadyFest: "A importância dessa festa é que ela divulga cultura feminista autogestionada. E a função da cultura feminista, assim com das Marchas das Vadias, é demonstrar um estilo de vida pra fora do patriarcado, rompendo com mitos como a rivalidade entre mulheres, o clássico "mulher não sabe tocar instrumentos", entre outras babaquices. A grande mídia e as corporações oferecem apenas um estilo de vida pras mulheres (e exclui da categoria 'mulheres' as de pele negra, as trans, as lésbicas etc). Eventos culturais feministas provam que existem milhões de mulheres ao redor do mundo vivendo experiências felizes e inspiradoras pra fora dessa lógica capitalista patriarcal"

Algumas bandas brasileiras: Cosmogenia, Kaos Klitoriano, Bulimia, Lava, Mercenárias, Menstruação Anárquica, Anti-Corpos, No Steriotypes, Cosmogonia, Letty, Trash No Star.


"Punk Rock não é só pro seu namorado",
da Banda Bulimia é um dos hinos Riot nacionais

♪♫ O que te impede de lutar? O que te impede de falar? Pare de se esconder
Você não é pior que ninguém / Punk rock não é só pro seu namorado /
Você sempre quis tocar / Você sempre quis andar de skate / Você que sempre quis quis quis /
Você não é um enfeite!
Punk rock não é só pro seu namorado / Faça o que tiver vontade / Mostre o que você pensa
Tenha a sua personalidade / Não se esconda atrás de um homem ♪♫
"Punk Rock não é só pro seu namorado" foi lindamente ilustrado por Jéssica Lisboa, acesse aqui pra ver.


Experiência pessoal de uma das autoras desta postagem:
Eu (Sana) conheci o Riot Grrrl em 1997 quando o caderno Mais! do Jornal Folha de SP trouxe um especial sobre a história do Movimento. Ler aquilo mudou a minha vida. Eu já gostava de rock e já tinha pensamentos feministas, mas não sabia que aqueles pensamentos se chamavam "feminismo". A partir do momento que eu descobri que haviam outras garotas com o mesmo pensamento e que aquilo tinha um nome, pude nortear todo o resto de minha adolescência, me tornando desde então mais consciente sobre a cena rock/metal para as mulheres e questionado nosso papel na sociedade.

Mesmo eu sendo novinha, a matéria me marcou tanto que guardei o jornal. Quando hoje o releio, percebo algumas falhas, logo na capa elas são chamadas de Bad Grrrls (garotas más), mas já alertava pro pioneirismo: "desencadeia uma onda feminista inédita formada por adolescentes que protestam por meio do rock...para criar uma subcultura revolucionária". Esse jornal trouxe a história de todas as ondas do feminismo e foi aí que conheci as Sufragistas e também foi meu primeiro contato com a imagem de Bettie Page! A matéria tem 5 páginas (na foto abaixo, apenas 2) e já mistura grunge com Riot, arte e cultura pop. Notem o visual da banda Kit Kat Club na capa: vestidos retrôs, meia, tênis, coturno, como as Riots americanas.


Empolgada, fiz um zine Riot, depois talvez poste sobre ele aqui no blog :)

Considerações finais das autoras:
♀ Este artigo tem foco nas bandas fundadoras do Movimento, em parte pela dificuldade de encontrar material escrito e de imagens, mas existiam diversas outras e diversos outros tipos de engajamento! 

O documentário Punk Singer não deve ser levado como a única verdade dessa cena. O filme homenageia uma das criadoras, Kathleen Hanna, mas é preciso lembrar que o Riot se espalhou pelo país e pelo mundo. Cada menina, de cada cidade, moldava as pautas de acordo com sua localização. Muitas bandas ficaram no underground devido o apagão que fizeram na mídia, sendo necessário pesquisas mais profundas para encontrá-las. "Eu não era a líder de tudo, existia um monte de grupos diferentes que se reuniram em todo o país e em diferentes partes do mundo. Eu não tinha conexões com eles. Não tínhamos celulares ou internet. Como eu era supostamente a líder se embora eu não pudesse me engajar com todas essas pessoas?", relata Hanna em entrevista.

Há controvérsias sobre como classificar o Riot Grrrl. Embora haja ideologia + música + moda tornando-as uma subcultura, elas não seriam tribo de estilo pois o foco não era em moda. O uso mais comum é como sendo um "movimento de cultura juvenil", mas as próprias Riots não se assumem como um movimento. Optamos por usar no texto tanto 'subcultura' quanto 'movimento' pois não dá pra saber se essa falta de nomenclatura correta tem a ver com os poucos estudos sérios dedicados à elas, que falo a seguir.

Exceto por livros específicos lançados em tempos recentes, os livros sobre subculturas ou tribos (inclusive os publicados no fim da década de 1990) ou não citam as Riot, ou dedicam apenas um parágrafo à elas. Isso me intrigou muito durante o processo de pesquisa: por que um movimento juvenil feminino e feminista tão importante, mal aparece nos livros sobre cultura juvenil, subculturas e tribos urbanas? Isso se torna ainda mais bizarro quando percebemos a imensa influência das Riot entre bandas femininas e cantoras do rock surgidas posteriormente e até os dias de hoje. O lado bom é o atual resgate do movimento em documentários e livros escritos por mulheres que estudaram ou participaram da cena no passado.
É muito importante que a participação das mulheres no Rock não seja mais apagada da história e nem menosprezada como costuma ser. Então pra gente que é fã de Rock, se os livros 'sérios' as esquecem, é um imenso prazer ajudar a manter viva a memória destas meninas que meteram a cara no patriarcado, berraram com raiva, tiveram atitude e foram ativistas para os direitos das mulheres.


E finalizamos com a opinião de Kathleen Hanna
ao ser indagada se o Riot Grrrl ainda vive:

"Eu realmente não quero que o Riot Grrrl viva porque não me interessa fetichizar algo que já aconteceu. Estou interessada em mulheres que desejam fazer algo mais interessante do que nós fizemos, e que vão desafiar e criticar o que fizemos; e através dessa crítica venham com algo muito melhor. É isso que me anima, e não fan sites com fotos das bandas Riot Grrrls."

Então #ficadica da Hanna: criar algo que seja tão mais interessante do que o Riot Grrrl!
Contamos com o girl power de vocês ;D

Não deixem de comentar a postagem, dizerem o que acharam. ♥

Leia também:
O Riot Grrrl como referência: do rock ao pop dos anos 90 à atualidade

Para escrever este artigo, estudamos algumas fontes citadas abaixo, mas a ideia, formato de post e escrita foram elaboradas por mim (Sana) e pela Lauren em conjunto. Assim como os zines Riot, nosso blog é uma mídia independente feita por mulheres e precisamos de apoio pra continuar nossas pesquisas. Compartilhar e divulgar é permitido, sendo esta a forma mais justa de reconhecer e agradecer nosso trabalho. Obrigada e compartilhem o link se curtirem a matéria! ♥

Direitos autorais:
Artigo original do blog Moda de Subculturas, escrito por Sana Mendonça e Lauren Scheffel. 
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