.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: “Mãe, minha professora tem o cabelo azul!” - Sobre ensinar e aprender sendo uma profe alternativa

17 de abril de 2017

“Mãe, minha professora tem o cabelo azul!” - Sobre ensinar e aprender sendo uma profe alternativa

A frase que dá nome a este post foi proferida por uma aluna minha quando me descrevia para a sua mãe, e foi dessa maneira que a mãe pôde me reconhecer na reunião de pais. Essa é apenas uma faceta de ser uma professora alternativa. Fora os cabelos, tenho um visual relativamente “passável”, pois consigo esconder bem as oito tatuagens que tenho. Mas por que as tatuagens seriam um problema?

Em verdade elas não são; mas sempre que entro em um novo ambiente de trabalho, em uma escola em que ainda não estou familiarizada nem com os colegas de trabalho nem com os alunos, prefiro escondê-las, porque sei que o preconceito vem muitas vezes dos outros professores e das famílias dos alunos. É engraçado ver que os alunos não tem preconceito com tatuagens; pelo contrário, eles amam!

Mas enfim, em ambientes novos, nunca mostro as tatuagens de primeiro; espero conhecer bem os professores, conhecer bem as turmas pra depois ir mostrando aos poucos. A reação dos alunos é sempre positiva. Um dia encontrei na internet esta matéria aqui: "Desempenho dos alunos é melhor se o professor tem tatuagem" e fiquei bem feliz! Essas novas gerações estão vindo com bem menos preconceito do que seus pais e avós tinham com relação a isso. Às vezes ainda pego algumas pessoas que fazem parte da comunidade escolar me olhando torto, mas é minoria. Nas escolas em que trabalhei nunca me foi pedido para esconder os desenhos, mas alguns colegas meus de profissão já passaram por constrangimentos do tipo; em um dos casos, a diretoria da escola pediu que o professor usasse camisetas de meia manga, para que não aparecesse a tatuagem do braço. Ainda temos que lidar com isso, em pleno 2017. 

Trabalhinho escolar: releituras de retratos antigos
e mumificação (as góticas piram!)


Em relação às roupas, sempre que me arrumo pra dar aula, eu fico alguns minutos na frente do espelho me olhando e pensando se a roupa está “adequada”. Alguns anos atrás, quando eu era uma riot grrrrrl indignada, eu ficaria furiosa comigo mesma, pensando em “amenizar” o visual para trabalhar (sendo que eu procurei por uma profissão que não fosse me incomodar muito na questão estética). Mas como já escutei de tudo em relação às minhas roupas, e aluno é uma criatura que repara em ABSOLUTAMENTE TUDO que está bagunçado em você, ando evitando bermudas muito curtas (short nem pensar), saias muito curtas, vestidos muito curtos. Nunca fui uma grande fã dos curtos (só dos cabelos curtos) e não gosto quando adolescentes ficam cuidando o tamanho da sua roupa, e eles fazem muito isso. Ao mesmo tempo enfrento um dilema, pois não sei se é moralismo meu não querer ir trabalhar assim justamente pra não me incomodar com os comentários que podem surgir (porque tem dias que a gente simplesmente não quer responder nada!) ou se eu deveria ir assim mesmo e ser a louca problematizadora que responde à todo e qualquer comentário com uma aula (HAHAHAHAHA).

Quando comecei a dar aula: tinha escola que não me queria por lá!

Bem, essas são questões que eu tenho que lidar todos os dias. Seja na hora de escolher um colar (“coloco a caveira no pescoço? Ou Baphomet? Muito assustadora pra crianças?”), pentear (ou não) o cabelo, até a escolha do sapato (“será que ir de chinelo seria um pouco demais?”). Muitas coisas podem surgir aí. Uma vez uma amiga minha, também professora, me disse que não sabia se estava na profissão certa porque ela não tinha “jeito de professora”, se referindo àquelas imagens idealizadas de professoras perfeitas e meigas que só existem na ficção. Ora, mas qual é o jeito de professora? Ser professora também é ser plural!


Autora: 
Nandi Diadorim. Historiadora e professora na rede municipal de ensino no Rio Grande do Sul. Guitarrista em uma banda de punk rock. Cachorreira, gateira, vegetariana, feminista...em suma, a incomodação em pessoa.




Artigo de Nandi Diadorim em colaboração com o blog Moda de Subculturas. É permitido citar o texto e linkar a postagem. É proibida a reprodução total ou parcial do conteúdo aqui presente sem autorização prévia do autor. É proibido a cópia da ideia, contexto e formato de artigo. Plágios serão notificados a serem retirados do ar (lei nº 9.610). As fotos pertencem à seus respectivos donos; a seleção e as montagens das imagens foi feita exclusivamente para o blog baseado na ideia e contexto do texto.


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11 Comments

  1. Oi, Nandi, adorei teu texto e me identifiquei com ele. Virei professora de artes em uma escola privada de POA nesse início de ano e todos os dias em que me visto, me pego pensando sempre na roupa "adequada" à ocasião. Acabo tendo uns dilemas de estar perdendo minha identidade por isso, porque não tenho tatuagens, mas costumo me vestir bem alternativa, com camisetas de bandas de rock, saias, caveiras, tênis e tenho um cabelo bem bagunçado, que tinha mechas roxas, mas que agora já estão saindo, virando loiras. No início das aulas, ainda estava um pouco roxo e os meus aluninhos perguntavam: "Sôra, o teu cabelo é roxo?". Eles realmente adoram isso, mas as pessoas mais velhas (alguns professores, pais, freiras) noto um certo preconceito. Fico pensando até que ponto temos que abrir mão de sermos nós mesmos por conta de um trabalho?

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    1. Oi Carolina!
      Isso é muuuuito complicado! Pois faz parte da nossa profissão (ser professora) colocar muito de nós mesmas no nosso trabalho! A maneira como nós pensamos o mundo, as nossas áreas de conhecimento, a educação, caminham junto com a maneira como nos expressamos e nos apresentamos para os outros, seja através de roupas, tatuagens, etc. Mas eu sempre fico com dois corações, como coloquei no texto. Quero muito passar uma imagem positiva, de que é possível ser educadora e alternativa (muitos acham isso impossível), mas as vezes me pego "suavizando" o visual. E agora?

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  2. Muito bom o texto e super me identifiquei! Que bom que aos poucos o público alternativo está conquistando todas as áreas de trabalho, e é ótimo que as próximas gerações já têm menos preconceito.:}

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    1. Oi Manoela!
      Sim, a recepção dos alunos é sempre ótima. Com certeza teremos uma geração com menos preconceito por aí....=)

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  3. Muito interessante!
    Como tu mesmo mencionou, o preconceito esta na cabeça dos mais velhos, essa nova geração esta sim sabendo lidar melhor e agir naturalmente com as diferenças; isso é o que nos faz ser únicos!
    Trabalho no comércio em uma cidade do interior com tradições enraizadas e percebo uma dificuldade de aceitação de certas pessoas quanto ao jeito que me visto e me apresento -sinto isso inclusive da minha mãe, mas se não for por nós, quem vai começar a abrir essas portas?
    São pequenos passos, de formiguinha talvez, mas em frente sempre! <3

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    1. Oi Isla!
      Por isso que é importante que os alternativos apareçam cada vez mais, em diferentes áreas de trabalho.....temos que mostrar que somos bons no que escolhemos fazer,e dar bons exemplos pra essa gurizada que tá vindo aí! ;)

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  4. Adorei o texto! Trabalho em um colégio privado, mas não como professora, sou a mocinha do xerox hahah não tenho tanto contato com os alunos, até evito na verdade, mas as vezes não tenho muito como fugir disso... minhas tatuagens são bem visíveis, os alunos do fundamental 2 e do médio adoram, os da educação infantil e fundamental 1 ficam bem curiosos, alguns perguntam, põem as mãos e tudo haha mas tenho medo mesmo são dos pais dessas crianças, evito ao máximo ser vista por eles, pois parecem ser bem conservadores... as colegas de trabalho levam de boa tbm, a patroa já implicou e não quer que eu faça mais, mas sembre desobedeço e apareço com mais uma hahah
    meus piercings eu escondo, não trabalho com eles a mostra, e na questão das roupas, uso uniforme, então não tem como fugir... as vezes carrego na maquiagem, mas isso tbm nunca me deu problemas...
    Que essas crianças não herdem esse preconceito bobo que alguns adultos ainda têm...

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    Respostas
    1. Oi Nayara!
      Acredito que essas crianças não herdarão esses preconceitos não. É uma geração completamente diferente dos pais, e como você mesmo percebe, eles simplesmente ADORAM tatuagens, piercings, cabelos coloridos.....Alguns alunos meus já apareceram com os cabelos azuis no mesmo tom que os meus, e fiquei pensando se algum pai não ia vir reclamar que eu estava sendo uma "má influência" para os seus filhos, mas isso nunca aconteceu HAHAHAHAHHAHA. Acredito que caminhamos para uma maior aceitação da estética alternativa.

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  5. E com batom preto , wwwwooooaaaaaauuuuuu .

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Ah! Cara isso sempre existiu em todas as profissões, não são só as professoras que tem esse pequeno "trabalho" em mostrar uma aparência diferente da que possui. Minha mãe mesmo sempre falou que colocar piercing e tatuar o corpo era complicado em questão de arrumar emprego e, em curtas palavras, "ser aceito socialmente" (como se em algum momento eu realmente quisesse algo do tipo). Onde trabalho também já teve disso, no entanto, apareci com o cabelo meio esverdeado e não reclamaram nada dele, nem mesmo do corte. Em algum momento tudo isso tem que parar!

    Até mais! O/
    Karolini Barbara
    womenrocker.blogspot.com

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