.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: Não sou mais tão estranha...

30 de dezembro de 2009

Não sou mais tão estranha...

Tenho pensado sobre essa espécie de "moda" atual de ser alternativa.
Quando eu era adolescente na década de 1990, no interior do Estado de SP,  eu era considerada muito estranha pelos meus colegas de escola e vizinhos. Tão estranha a ponto de alguns colegas de sala me olharem de lado e nunca, em anos estudando juntos, sequer terem falado comigo, tinha poucos amigos na sala de aula, apenas aqueles os que ninguém mais queria ser amigo, era difícil cair na mesma sala de alguém "alternativo", era raro encontrar os rebeldes. Eu era "estranha" ao ponto de as pessoas cochicharem, me apontarem na praça principal da cidade e até mesmo me pararem e perguntarem como eu ousava andar daquele jeito.

O que havia de errado comigo? Segundo eles: roupas escuras, chamativas ou que eu costurava ou customizava, cabelos tingidos, unhas com cores diferentes que eu mesma fazia em casa pois não havia esmaltes ultra coloridos à venda, maquiagem - que nem era pesada perto das que se usam hoje - no máximo um lápis/sombra escura e um batom.

Mas, do fim dos anos 1990 pra cá, algo mudou. E foi a Moda, foi o modo como ela fez as pessoas enxergarem as subculturas.

Hoje, se eu sair na rua igualzinha ao jeito que eu saía no final dos anos 90 em minha adolescência, vão dizer que minha roupa é básica e "nada de mais, é só um estilo". Hoje, muitas pessoas me param na rua perguntando que marca é tal coisa que estou usando porque elas querem uma igual. As pessoas não me consideram mais "estranha", mas sim "diferente", só que num sentido positivo.

Ser estranho, ser diferente, não choca mais em lugar nenhum, nem na cidade do interior onde cresci e nem nas escolas! Hoje, ninguém deixa de ser amigo, de conversar com o outro na sala de aula porque ele se veste diferente, ao contrário é muito cool ter um amigo diferente na escola. É cool se gótica, é aceitável ser headbanger. Há grupinhos de pessoas "diferentes" nas escolas que se juntam e se fortalecem. Na minha época não tinha isso, era você se juntar aos excluídos e bizarros da sala ou ficar sozinha.

Os tempos mudaram, e eu vejo toda essa mudança passar na frente dos meus olhos, relembro o que vivi e tudo que briguei pelo direto de ser como eu sou, insistindo no meu jeito, provando a todos que não era uma fase e nem que eu era um caso perdido. Provando que posso ir vestida do jeito que eu quiser em todos os lugares porque o que me destacará não serão minhas roupas e sim a personalidade, educação e cultura. Educação essa que aprendi insistindo em ser uma "lady" mantendo a compostura mesmo ouvindo coisas desagradáveis.

Eu amo a Moda. Amo a influência e as mudanças que ela provocou na minha personalidade e na minha vida. Mas eu nunca gostei da futilidade da moda, do efêmero. Sempre fui contra isso. Contra as pessoas comprarem roupas apenas por estar na moda e sairem todas iguais na rua, com o mesmo tipo de sapato, com o mesmo tipo de vestido, o mesmo tipo de bata, sem um mínimo de personalidade.
E agora eu vejo a moda alternativa influenciando a moda efêmera, peças que antes eram bizarras, horríveis, estranhas, hoje são objetos de desejo de todo tipo de gente comum que quer parecer descolada, que quer parecer alternativa, que quer se destacar na multidão, pessoas que tem ânsia de serem chamadas de "diferentes" e "originais", porque hoje em dia ser "diferente" e "original" é ser popular e ter muitos amigos nas redes sociais.

Aceito e acredito na democratização da moda, mas tenho receio da banalização da moda alternativa, de sugar a moda alternativa pra ter lucro, já que a moda efêmera está esgotada de ideias. Mas por outro lado, um tanto quanto contraditório, admito, adoro poder entrar em qualquer loja, da mais cara à mais barata e poder encontrar peças e acessórios do estilo que eu gosto, inspiradas em subculturas. Dá um gosto de liberdade, de democracia na moda.

Tudo isso porque embora as lojas alternativas nacionais sejam boas, elas ainda são distantes de seu público: não estão fisicamente em todas as cidades, algumas ainda caem no estereótipo adolescente, vendem roupas importadas ao invés de produzirem novidades, não estão com roupas de todos os segmentos e somos obrigadas a buscar o que falta em outras lojas. Então, quando a moda alternativa nacional falha, nos obriga a consumir nas lojas "normais".
Viver de moda alternativa é difícil nesse país, eu sei. E com a popularização da moda de subculturas, imagino que dever ser mais difícil ainda pros lojistas alternativos porque a concorrência agora não é apenas das lojas alternativas, mas das lojas mainstream também.

Essa nova geração de jovens alternativos, que não sofreram o estigma de serem "estranhos" e sofrerem abusos por isso, hoje tem a facilidade de encontrar tudo à mão, tudo fácil, e assim podem montar seus visuais sem limitações. Claro que ainda hoje há preconceito mas vejo que a atitude do observador é diferente daquela época. É bom quem está descobrindo a própria personalidade poder ver uma peça alternativa e pensar: "eu gosto disso" e acabar buscando as origens daquilo e se descobrir parte de uma subcultura.

A moda é poderosa, dizem ser a indústria mais poderosa do mundo, pois ela molda o comportamento de milhões de pessoas no mundo todo. A moda é libertadora, mas ela também pode destruir a significação de uma peça, banalizar, tornar uma estética ordinária, corriqueira, sem sentido nenhum. E é isso que eu receio: o esvaziamento de significados.

Acompanho essa influência da estética alternativa na moda efêmera avidamente, como vocês podem ver nas postagens do blog, porque eu quero fazer parte disso e quero ver onde isso tudo vai parar e no fim, poder dizer que sobrevivi e que vi a moda alternativa se readaptando, se inovando e novamente se diferenciado e se distanciando cada vez mais da moda fútil.
E eu continuarei lutando pelo meu direito de ser novamente uma estranha na multidão.

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9 Comments

  1. Se hoje eu vivo umas situações chatas,por conta do meu jeito de se vestir,nem consigo imaginar como era a 20 anos atrás !

    Tá ficando comum encontar bolsas/calças/blusas com rebites,pirâmides.

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  2. É verdade, vestir-se de maneira incomum, ser uma pessoa incomum tornou-se normal e até louvável. Difícil é notar quem é realmente verdadeiro e quem é fake, aqueles que usam apenas porque virou moda. Uma vez alternativo, sempre alternativo.

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  3. Fui adolescente no final da década de 90 em uma cidade do interior.
    20 anos atrás? Basta pensar nos punk e como eles eram marginalizados.
    Era isso mesmo, ser alternativo era ser marginalizado...

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    1. Hoje o preconceito é bem menor, mas ainda muito existente. Moro no litoral, e me identifiquei com a subcultura gótica. Não só estética, mas literatura, cinema, música, arquitetura, ideias e filosofia de vida. Na escola, basicamente o que eu uso de "estranho" é uma gargantilha lisa de tecido feita por costura, dois anéis pouco chamativos, um casaco preto e sombra preta minha pele é clara naturalmente já fui chamado por adolescente de minha escola de bruxa, vampira, e chegaram a perguntar se eu praticava magia negra ou se eu fazia o mal

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    2. Quando ando na rua com um corpete todos param e olham para mim em tom de reprovação já ouvi várias vezes isso passa

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  4. nossa, gostei muito desse post. O que você falou, de ser adolescente, alternativa e morar em uma cidade pequena é igualzinho o que eu passo atualmente.

    Muitas pessoas me tratam como se fosse uma louca, dizem que sou adolescente e que logo isso vai passar e que depois da faculdade vou ser mais madura...

    Ás vezes me pergunto: ser madura é se vestir como todos? É usar tudo que é tendência? É esquecer tudo que eu passei e começar a bancar a "boa moça"?...

    Sobre essa propagação da "Moda Rock": tem o lado bom e o ruim. O bom é que os acessórios e vestimentas ficam ao nosso alcance, porém ainda existe discriminação...

    Para finalizar: você falou tudo, exatamente tudo que eu pensso, por isso gostei muito desse post...

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  5. Não sei exatamente pq, mas sempre tive essa vontade de ser estranha, e essa era uma das coisas que me atraiam no rock quando eu tinha uns 12,13 anos. Além de "rockeira" eu sou otaku e reamente naquele tempo eles eram beeem raros (e olha que nem faz tanto tempo assim). Hoje os dois viraram modinha, e ao mesmo tempo que é legal ter muita gente que conhece as coisas que você gosta e não fica olhando com uma cara de o que é isso quando você fala que tá viciado em Rhapsody of fire (entre outras coisas), é ruim ver as coisas banalizadas como estão. Ver que tem um monte de gente que agora é "igual a você, ou pior, que acha que é rock (ou que é otaku no meu caso) mas na verdade não conhece nada, é só um poser.

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  6. eu acho exatamente a msm coisa,meu pai acha q isso de eu amar roxo e preto é estranho,e me chama de miss vampira vamp(akela vampira do episódio de terror do pica-pau),mas eu me acostumei,pois sempre fui nerd e sempre mesenti estranha e nunca gostei de rosa,mas nunca me vesti de acordo(só umas poucas vezes..),então vaiudarpouca coisa,mas onde eu morovc é taxada por qualquer coisa q vc vista,fale,com qm vc anda,de td msm qvc faça.e vc pode ser taxada de td.isso é qmedeixa ingnada!!!!!!mas td bem,pois inguém pode fazer nada a respeitode algo q diz respeito somente a mim e aspessoas q verdadeiramente gostam de mi e me aceitam:quem eu sou,o q faço,visto e etc.!!então q se dane!!

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  7. Sei exatamente o que é isso. Minha prima, que antes achava tudo que eu usava repugnante (sério, de me tachar de "rebelde" por causa de camisas pretas e surradas)hoje pega tudo meu emprestado. Trágico. Concordo que não ser olhada como algo repulsivo é positivo, mas se ver esvaziado de sentido e de discurso pode ser pior, ver algo que te emancipava e te dava voz se tornar uma outra forma de silenciar é muito incomodo, mas esse não é o fim, o alternativo tem a força de resistir e se adaptar, são tempos de mudança. É necessário tentar tirar o melhor disso, buscar conhecer mais, criar a partir do que o mainstream nos oferece e do que temos acesso do alternativo, usar essas vertente a favor da moda. Nem xiita alternativo e nem clone, apenas ser o que te toca.

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