.Moda de Subculturas - Moda e Cultura Alternativa.: Os recentes casos de racismo, machismo e intolerância no Heavy Metal

5 de fevereiro de 2016

Os recentes casos de racismo, machismo e intolerância no Heavy Metal

Durante toda essa semana muito se falou do caso de racismo protagonizado por Phil Anselmo. Seu gesto remete ao chamado White Power, que não é só racista com negros, é xenófobo, anti-semita e no Brasil engloba preconceito à nordestinos, punks e LGBT's.

Sites têm feito ótimos artigos sobre o caso, que me fez lembrar do porquê me identifiquei com o mundo do Rock: foi por causa de seu viés transgressor, um espaço onde o establishment era contestado e questionado. Um lugar onde se questionava a cultura dominante. Mas parece que algumas pessoas estão na cena alternativa, se declaram fãs de rock, mas não questionam nada, apenas reproduzem padrões, conceitos retrógrados e pensamentos prontos. Perderam a rebeldia. Essa é uma palavra aliás, que nem se ouve mais, ficou guardada na gavetinha dos anos 90.

João Gordo, do Ratos de Porão, que "deixou de ser punk" em 1986 devido à misturas sonoras em sua banda, recentemente declarou para o site G1 que "moleques seduzidos pela direita ficam nesse discurso de 'nazi papagaio', que tudo o que escuta ou lê na internet, pega e compartilha. A visão do brasileiro comum hoje em dia é a visão de um cara racista, nazista, intransigente e ignorante. E sem escolas fica mais complicado". Essa frase do Gordo é forte e polêmica, mas ele é o tipo de artista que há anos combate fascismo, racismo e preconceito abertamente. Uma atitude de permanecer fiel ao viés contestador e transgressor do rock, traços que as recentes gerações, ao se tornarem conservadoras, perdem. Pois não há como ser conservador e transgressor ao mesmo tempo. O conservador defende o status quo, e se uma pessoa dentro da cena rock está defendendo o status quo, se torna apenas um "papagaio" do pensamento de massa.

A one woman band Amalie Bruun, responsável pela banda Myrkur, que faz um som black metal atmosférico também sofreu intolerância recentemente. A artista, que canta, toca guitarra e baixo nas gravações e não usa corpse paint tem relatado experiências sexistas e recebido ameaças de morte de algumas pessoas que acham que o que ela faz não se encaixa no "extreme black metal". Fiquei pensando o quão incômodo não é para pessoas extremas e elitista, que uma mulher componha, toque todos os instrumentos de uma banda e misture sonoridades?  Eles a veem como uma afronta ao ponto de ameaçá-la de morte? Até que ponto está indo a intolerância pela liberdade artística dos que fogem aos padrões? A linha conservadora do Heavy Metal se incomoda com inovações sonoras, como não esquecer das tretas com o “nu metal”? Artistas destas bandas costumam ser chamados de “modinha”, “posers” e até mesmo de “viados” (!!)...


Fonte: MONDO Muerto

Unindo machismo, racismo e intolerância, decidi abrir espaço pra duas blogueiras alternativas que acompanho, a Gabriela e a Marcela. Elas costumam também postar textos críticos em seus blogs e já frequentaram a cena rock/metal. Seguem seus depoimentos sobre intolerância:


Gabriela, autora do blog Madessy
"Às vezes me sinto um pouco deslocada em meio a cena. Parece que ser negro e ouvir metal é um problema. Não dá para ser o dois ao mesmo tempo. Quando você diz que ouve metal para um branco, ele se assusta com a afirmativa e chega até duvidar dos seus gostos, como questionar a minha camiseta de banda, por exemplo. Ou melhor, solta aquela clássica "nossa, mas você tem cara que ouve um pagode". Agora se você diz a mesma coisa para outro negro, ele diz que você deveria escutar algum estilo musical que fosse da "cultura negra". Mas o que dói é lembrar que essas pessoas mal sabem que o Rock está inserido na cultura negra. Se hoje existe o heavy metal e todas as suas ramificações, agradeçam aos negros do blues e deixem de achar que o Rock foi feito pelos Beatles ou por Elvis Presley. Sabemos que muito das inspirações de grandes nomes do heavy metal provem de artistas negros que não tiveram o mesmo reconhecimento. É triste ter que afirmar isso o tempo todo. As pessoas tem que aprender que o rock tem suas raízes negras e que nada o mudará. Portanto, quando alguém quer questionar meu gosto musical, mando abrir um livro ou pelo menos dar uma pesquisada na internet sobre música. Simples assim.

Sobre a cena se tornar cada vez mais preconceituosa, percebo que muita gente está se inserindo neste meio sem entender muito bem qual é o seu significado. As pessoas não entendem que a "cena alternativa" tem esse nome não pela estética em si, não é só visual que conta, você também tem que pensar diferente e agir diferente. As cenas alternativas possuem uma visão vanguardista do mundo em geral. Se você se veste como um headbanger, todo no visu, mas tua cabeça é tipo daqueles velhos conservadores chatos, de que adianta fazer tudo isso? Você soa contraditório."

Marcela Ziemer, autora do blog Cinderela Smile
“É um assunto muito delicado, mas que não deveria ser, e que as atitudes que envolvem tal assunto jamais sejam abafadas. Comecei a frequentar a cena aos 15 anos, sou de uma cidade do interior conservadora. No começo não notei como era bastante elitista, machista e atrasada, até que aos 16 anos conheci um S.H.A.R.P. que me explicou como as coisas funcionavam. Vi como as pessoas se comportavam, e não compreendia do porque de tais posturas e posicionamentos, ninguém dizia nada, ninguém se projetava contra.
Aos 18 anos comecei a frequentar um local na cidade, reduto de nacionalistas, alguns me tratavam bem, outros me aturavam por conta da minha amiga, que era do padrão estético ideal no qual estes idolatravam. Ouvia coisas do tipo ''Ah você tem o rosto muito bonito, mas pena que você é Negra" ou "Sou racista mesmo, só converso com você por conta dos seus traços Europeus (?) e porque você é uma negra inteligente." Fora que na mesma época fui seguida na rua por um careca. Daí eu lhes pergunto: Porque diabos ainda ficamos quietos diante de tal postura? Não é algo que está correto.


O fato que ocorreu dias atrás, não diz respeito apenas sobre um movimento de supremacia racial, mas também ao assassinato de milhões de pessoas. Chacinas cometidas por um ideal confuso, que muitos romantizam. Muitos que ''apoiavam'' (assistam documentários sobre,é interessante) e faziam tal gesto naquela época, era pelo medo de ser morto, e não por apoiar seu amado ditador. Não podemos nos deixar levar por tal posicionamento, por conta do status de quem o fez e medo de repreensão. Ninguém merece morrer ou ser ofendido por ter determinada genética, eu sinceramente acho estúpida essa divisão de raças. Nem que seja ''uma piada interna'', não há graça em tal atitude mesquinha, e maquiar o racismo usando ''brincadeira'' como desculpa, é idiota.


Muitos reclamam que a cena aqui no Brasil anda morrendo, mas os poucos que possuem uma postura coerente são retalhados, e admito que parei de frequentar muitos lugares por conta disso, e sinceramente porque tenho medo. Não apoio muitas posturas de militantes chamados ''Africanistas'', mas também não apoio o que acontece na cena Metal, pois ouvi e presenciei coisas desagradáveis só pelo simples fato de'u eu ser negra. Não era por conta de'u ser magrela ou pouco atraente, mas era bem explicito que era por causa da cor da minha pele. Enquanto muitos deixarem passar e tratar isso como ''liberdade de expressão'', a impunidade vai reinar e o preconceito e intolerância vão permanecer. E para quem apoia tal conduta ultrapassada, não é porque as mulheres que abrem a boca para opinar são feias, invejosas e mal comidas, e muito menos os rapazes são gays ou virgens, nem tudo gira em torno da sexualidade! Mas quem abre a boca para opinar, está cansado de ser vitima, seja diretamente ou apenas como testemunha de tais atitudes toscas e imaturas."


Acho fundamental desconstruir o preconceito que negros não podem ser parte ou ouvir Metal. Seja pela origem negra do Rock, seja pela livre escolha da pessoas ouvirem o que ela se identifica. Lembrei dessas falas do Katon W. De Pena, vocalista da banda Hirax que diz que não ver negros na cena pode ser intimidador, mas ele ia aos shows de metal e encontrava desajustados como ele. Também já postamos sobre os Headbangers de Botswana, vale a pena a leitura, a história deles é incrível!! E pras meninas se inspirarem, tem Alexis Brown da banda Straight Line Stitich. Go Girls, Rock on!!

 



Concluindo
Surpreendentemente houve repercussão do caso Phil Anselmo entre os artistas, pois vivemos uma era em que artistas andam silenciosos, sendo comum a gente não saber o que alguém que a gente admira realmente pensa sobre as coisas.
Sabemos que nossos ídolos não são de pedra. São humanos com suas próprias histórias de vida, algumas vezes bem complicadas, vindas de lares violentos ou famílias desfeitas, suas vivências os levaram a visão de mundo um pouco mais obscura. Não podemos depositar toda nossa energia neles assim como não devemos seguir ao pé da letra o que eles fazem/dizem. Tirar os artistas de um pedestal é necessário. É difícil fazer isso, mas torna mais fácil uma abertura ao debate já que nossa mente não fica cegada pela idolatria.

Seria bom se finalmente a cena Heavy Metal começasse a reconhecer e falar de seus tabus, já que sempre houve uma negação destes temas. Há tanta coisa boa que o Heavy Metal trás aos seus ouvintes - como vemos no ótimo documentário Global Metal de Sam Dunn - que seria uma pena calar-se de novo e não colocar o dedo nestas feridas. Chega a ser louco como um estilo musical que canta tanto sobre guerras não quer falar sobre suas próprias guerras internas, e talvez o HM precise morrer de forma bem Gore/Deathgrind pra voltar atualizado com o século XXI. Um "nu (novo) metal" literalmente!


O documentário Global Metal mostra como o gênero se tornou mundial
sendo possível unir
diferentes religiões, raças e etnias.




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6 Comments

  1. Post muito bom! E um adendo: muito difícil conversar e fazer amizades decentes no meio dessa galera que se acha o alto nível do escalão da cena. Um loop eterno de patriarcalismo, homofobia, machismo, preconceito por condição social, xenofobia, racismo e etc.

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  2. Obrigado por ter dado abertura para opinar!Fui atrás das referências que você apresentou, e já coloquei a Myrkur na minha lista de artistas!

    PS:Teve um caso com a esposa do Will Smith,ela tinha uma banda de Metal (boa aliás),mas não consigo recordar onde e porque ocorreu o fato!

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  3. Esse texto elucida questões muito fortes. Durante a adolescência, fiz parte da cena punk/metal, mas, conforme fui crescendo e me aprofundando em outros gêneros, percebi o quanto aquela postura "masculina", bruta, suja e preconceituosa de muitas pessoas que se diziam "roqueiras" e "revolucionárias" era enojante (aqueles seres irredutíveis que se acham grandes transgressores e "diferentões" excluídos da sociedade por vestirem preto e passarem a noite bebendo na calçada do bar). Na época, muitos ainda me recebiam com certa estranheza por eu dizer que meu gosto musical era muito híbrido - eu amava metal, mas isso não me impedia de amar samba. Se eu disser que gosto de heavy metal hoje em dia, estarei mentindo. E deixei de gostar por inúmeras razões, dentre as quais estão as mencionadas no seu texto. Tenho para mim que essa galera Paleolítica da cena metal não sabe nada a respeito da verdadeira essência do rock. O rock nasceu para propiciar catarses, libertações. E atitudes fascistas jamais serão libertadoras.

    Parabéns pelo texto!

    - Rafaella

    http://imperioretro.blogspot.com

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  4. É bem complicado, Sana... É isso não é só no HV, pode ter certeza!
    Sabemos que nem todas subculturas são contestadoras, algumas realmente possuem valores conservadores e pensamentos tradicionais. Mas o problema é que essas posturas tem ganhado cada vez mais terrenos em subculturas que são ou deveriam ser mais libertárias.
    E como a "geração Y" consome e vive as subculturas de um modo diferente, pode ser que muitas vezes a pessoa sinta-se atraída somente pela estética. Ou seja, o visual muda mas a atitude não. É como eu sempre digo: o visual é alternativo, o pensamento é padrão!

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  5. É bem complicado mesmo. Uma cena ou "subcultura" que viria para quebrar padrões, está impondo vários. Não deveria ser assim, a ignorância e intolerância está acabando com as pessoas e até mesmo com grupos que vêm para quebrar tabus. Fazer parte de algo que acredita e ver que até mesmo isso está sendo poluído pelos maus da sociedade é complicado. Mas, se ainda estamos aqui discutindo e quebrando tabus então estamos a frente e podemos mudar o futuro. Ainda existe alguma esperança, mesmo que pequena.

    Beijos
    Karolini
    http://womenrocker.blogspot.com.br/

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  6. Sabe, o mais triste é ver que esse tipo de atitude não são casos isolados. Quando eu comecei a frequentar a cena alternativa aqui de BH eu não percebia essas coisas, pois eu ainda tinha a visão meio fechada em certos assuntos, mas hoje, olhando pra trás, eu percebo o quanto esse tipo de coisa acontecia e acontece. Precisamos sim discutir esse assunto sempre que houver abertura e quando não houver a gente cria a oportunidade, pois muitas pessoas, muitas vezes, deixam de ir a shows e eventos exatamente por causa dessas pessoas mentes fechadas que estão na cena sem entender seu real motivo. Como eu já disse muitas vezes e também foi dito na matéria, de nada adianta a pessoa estar toda no visu se ela continua com a mente do tamanho de um grão de arroz, reproduzindo todo tipo de preconceito que a grande massa perpetua. Ser alternativo vai muito além das aparências. É uma desconstrução diária.
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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