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3 de janeiro de 2016

As mulheres e o Rock


“Eu sou Miss Mundo, alguém me mate
 Me mate, pílulas, ninguém se importa, meus amigos…?
Eu sou Miss Mundo, me assista quebrar e me assista queimar
ninguém está ouvindo meus amigos
eu faço minha cama onde deitarei
 eu faço minha cama onde morrerei”.
(Miss World – Hole)




 
A capa do álbum “Live through this”: Uma miss, aparentemente linda e emocionalmente instável.

Desde 2013 um amigo paulista que conheço há muito tempo havia me colocado em um grupo de mulheres bonitas do metal, grupo muito famoso que não postarei o nome aqui, mas quem participa ativamente do facebook deve saber. Eu nunca me achei bonita, por isso acho legal quando acham e às vezes até entro na onda, embora acreditar seja outra coisa. Conheci muita gente legal no grupo e outras pessoas nem tanto. Cheguei a ter fotos na página oficial (e ainda tenho). 
Mas algo começou a me incomodar no grupo esse ano, a falta de aceitação e respeito que gerava um bullying imenso, de caras (que não eram nenhum padrão de beleza) e garotas (que se achavam perfeitas). Certo dia vi uma garota sendo hostilizada por ter postado a foto de uma modelo gordinha, ela começou a ser ofendida sendo chamada de gorda, feia e eu que a defendi também comecei a ouvir. Teve uma moça que disse que era melhor que eu, mais bonita porque era mais alta e mais magra (eu tenho 1,70 e 67 kg) e além disso era loira natural. Poucos foram os interessados em nos defender e ao invés de os bullers serem expulsos da página quem foi expulsa fui eu e todos que defenderam essa menina – dois envolvidos diretamente na confusão e mais dez indiretamente (que então virou minha amiga no facebook). 

Vivemos uma época difícil para os sonhadores, como diria o filme Amélie Poulain. Por um lado minha época nesse grupo foi boa porque abriu algumas portas, inclusive com trabalhos de fotografia e como modelo. Mesmo eu não estando em meu melhor momento tanto esteticamente quanto psicologicamente. Por outro foi traumatizante, porque descobri que mesmo no meio do metal, do rock ainda existem pessoas que se imaginam superiores às outras. E o meu choque foi ver esse índice maior de pretensa superioridade no meio alternativo. É como se você tivesse que seguir todos os padrões estereotipados de beleza para ser aceita, ser bonita, ter o corpo perfeito, ser meiga, ter atitude, ser legal, ter piercings, cabelo colorido, tattoos, um estilo legal… são tantas exigências de como deveríamos ser que isso me cansa, porque anteriormente você era o que era, hoje você deve ser uma boneca plastificada.
Antigamente bastava você gostar de rock e ser você mesmo. Antigamente você fugia dos padrões para ser você e hoje você cai dentro deles querendo ser você. Você tem que ser hiper real, perfeita. Só que alternativa.


Uma mulher alternativa, pronta para o consumo. 

  
Voltando à garota que foi ofendida, é uma menina, ainda estudante, uma adolescente sendo ofendida por adultos. Isso me faz lembrar do caso de uma mãe que me pediu ajuda ano passado na escola porque a filha dela, uma garota linda, inteligente e fã de rock, estava se cortando e ela não sabia se era influência da Demi Lovato, de uma amiga ou se ela realmente era bipolar. Ela falou que as meninas me admiravam muito, porque gostavam de mim e do meu estilo. Que eu poderia ajudar, realmente ajudei no decorrer do ano.  Eu nunca fui um exemplo para ninguém, lembro que toquei no assunto em sala e a menina me perguntou se eu já tinha feito algo de mal para mim mesma, e eu logo soube porquê. Lembrei então de quando eu tive um início de anorexia aos 17 anos, eu fiquei muito magra, 57 kg e simplesmente não sentia fome e parece que quanto mais magra eu ficava mais me elogiavam e me achavam bonita. E até hoje eu tenho um reflexo disso, quando engordo me acho feia e isso mexe com o resto da minha vida, confesso. Hoje faço musculação, corrida, mas sei que nunca serei magra. Naquela época eu ouvia Silverchair e me identificava completamente com o Daniel Johns, porque ele passava pelo mesmo que eu de uma maneira muito pior. O que estou querendo dizer é, que devemos nos responsabilizar pelo que fazemos direta ou indiretamente com adolescentes na internet, que já é uma época bem influenciável e repleta de insegurança. Onde estavam os adultos quando aquela garota precisou de ajuda em tal grupo na net?!
Enfim é muito mais fácil fingir que nada acontece. E ver a multidão de tumblrs criadas por garotas que não se aceitam e buscam soluções como anorexia, bulimia, automutilação… e acabam frustradas, porque não dá para ser tudo que a sociedade exige.

Boa era a época que se você se sentia diferente bastava gostar de rock,
desenhar e ter um estilo fora do comum.


Quando eu me formei em Artes eu não parava de ouvir Distillers e Brody Dalle era meu exemplo, era mulher, bonita, tatuada, sexy, cantava e tocava em uma banda punk. Em uma época que nada disso tinha sido popularizado e nem tem tanto tempo assim. Hoje tem as Suicide Girls que foram popularizadas mas já existem há um bom tempo,  que para o bem fez com que aceitassem mulheres com gostos e aparência diferente, mas também tornou tudo comercial e plástico. Porque há uma imagem vendida da mulher linda, tatuada e sexy. Nesse ponto acho que os anos '90 fizeram mais pelas mulheres, Theo Kogan do Lunachicks já era tatuada nessa época e era realmente uma mulher do universo alternativo. Assim como as meninas do L7.

Todas as mulheres dos anos '80 aos '90 fizeram mais por nós com seu engajamento político, música, bandas e estilo que toda uma geração de modelos alternativas dos anos 2000. 




"Há um monte de mulheres fazendo trabalhos solo sem divulgação. Não encontram representantes e isso entristece. Porque assim é a indústria, assim o sistema: não permite que haja mais que uma ou duas mulheres tocando no rádio.
Eu gostaria que tivesse outro movimento feminista como no começo dos anos '90.
Sinto que ocorre a cada vinte anos. Algo regressa de novo. Assim estamos preparadas para outro (movimento).
"
Brody Dalle




Hoje as moças migram da exibição na internet, sem nenhuma ligação com o rock, fazem várias tattoos, pintam o cabelo de cores diferentes, vão parar no meio supostamente alternativo mas não experienciam aquilo tudo: as bandas, os shows, as artes, a política (presente no discurso punk e metal), o universo alternativo como um todo… 

Na net teve um esforço válido em valorizar as mulheres do universo do rock, através de grupos mas ainda há uma divisão muito clara no rock, ou você é uma mulher consumível esteticamente ou você não é uma mulher respeitada. Ou seja você só é valorizada pela música se for linda e se você for linda e se vestir de maneira um pouco mais liberal você é uma puta. São várias comparações no facebook de mulheres do rock que são comparadas com funkeiras, apelam dizendo que não precisam mostrar o corpo porque tem talento e esquecem que muitas vocalistas, guitarristas, bateristas que praticamente inventaram o rock feminino mostram o corpo, tal como Lita Ford, Doro Pesch e Great Kat para ficar em três. Os mesmos metaleiros que visitam páginas como a que eu fazia parte, que expõem beleza feminina no rock criticam as mulheres por se vestirem de maneira sexy, as desabonam pelo número de likes e comentários masculinos que recebem em fotos, como se isso as transformasse em mulheres “fáceis” e desabonasse o seu caráter. O pior são as mulheres que fazem o mesmo, identificando qual mulher é vulgar ou não e apontando com quantos homens ela já esteve usando como critério apenas a roupa ou um comportamento mais liberal. Os caras adoram as tatuadas do SG mas tratam as garotas alternativas que ficam como prostitutas apenas por terem um estilo diferente.


Então é preciso coerência dentro do universo alternativo, porque as pessoas andam perdidas sociologicamente, filosoficamente e isso se reflete em seu caráter e na maneira que se comportam em sociedade. Já digo que o post é polêmico, sim, parece contraditório mas não é. Quem acompanha meu blog sabe disso.


Texto da colaboradora Helena Machado, originalmente publicado em Aliena Gratia [Blog/ Face/ Tumblr]


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15 Comments

  1. As pessoas estão presas, a ditadura da magreza e perfeição. Nem mesmo o alternativo esta livre, eles que se dizem livres e aceitadores do "fora do padrão", triste isso!

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    1. Verdade Kanandra, a sociedade é extremaente opressora com os padrões de beleza e também de personalidade. A cópia, da cópia, da cópia, é aceita, louvada e incentivada.

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  2. Obrigada pela oportunidade Sana!

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  3. Eu li o texto via email (já que acompanho o Aliena Gratia desta forma), e me identifiquei, pois de uns tempos pra cá ando tendo uma tremenda dificuldade em me encaixar.Vejo a diferença que dez anos fez na cena,antigamente as pessoas ouviam nossas ideias e se interessavam em debate-las, de forma integra e saudável.Hoje a maioria quer ter a última palavra e nem isso,apenas olham pra imagem e pronto,é um competição para ver quem tem o melhor visual.Nos bares as garotas andam todas iguais,e quem foge dessa padronização ''perfeita'', é totalmente hostilizada.

    Já ouvi muitas coisas agressivas,tanto de homens como de mulheres, e a crueldade é igual muitas vezes...mas mesmo com tanto ódio gratuito vindo das pessoas,ainda tenho esperança que a situação mude para melhor.Afinal enquanto houver vozes gritando,não adianta tapar os ouvidos,pois que vai dar para ouvir.

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    1. Conheço você Marcela há tempo e acompanho seu blog justamente porque suas opiniões e estilo fogem dos estereótipos. E é verdade mesmo, a garota que foge dos padrões de perfeiçao é hostilizada e para não ser hostilizada as garotas estão virando uma outra coisa que é tudo, menos elas em sua essência. E as garotas que dizem não à padronização são atacadas por homens e mulheres.Porque já ficaram mal acostumados com padrões de como deve ser alguém alternativo. Nunca vi uma geração mais repressora em termos de visual quanto a nossa. É como se você vestisse tal coisa e deixasse de ser fã de metal só por causa disso. E digo aqui mulheres, nosso caso, mas isso vale para homens, trans, gays, lésbicas, bi e outros. Houve uma semana diferente nesse referido grupo de "Bonitas do Metal", já que o grupo é direcionado às moças. Vários rapazes (brancos e cabeludos) postaram fotos, todos com elogios. Quando um rapaz negro postou a foto ele foi discriminado de uma maneira vergonhosa, em relação ao seu cabelo, cor e foi chamado até mesmo de presidiário. E que não era digno de frequentar um grupo de pessoas bonitas do rock. A única vez que vi agressores sendo banidos nesse grupo. E acontece direto essas agressões, assédio moral...quem é contra está fora, quem defende está fora. É mais fácil ser massa de manobra, que abrir mão de ser uma "bonita do metal".

      E sim a crueldade vem de ambos os lados, homens e mulheres. E acredito que devemos fazer a diferença, mesmo que às vezes o preço a ser pago seja alto aos olhos da sociedade, deturpada em relação ao que é correto e ao que é errado.

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  4. Que post incrível!!! sou da geração dos anos 80 e sei bem o que vc esta dizendo, fui popular na escola na minha adolescência justamente por não ser patricinha, enquanto estavam usando rosa, calça super descolada cheia de glitter eu usava minha calça surrada, com tênis de cano longo e minha camisa da escola por fora da calça rsrs, e ouvia muuuuuuito rock ( ainda ouço) ou seja eu era eu mesma, parabéns pelo post espero que vc continue inspirando jovens a serem eles mesmos onde quer que vão e independente do que pensam. Beijos feliz 2016



    http://www.angelimcosmeticos.com.br/

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    1. Obrigada por gostar Ritinha! E sim, os jovens precisam de bons exemplos, precisam ser não só pessoas alternativas, mas que possuem um pensamento focado na mudança, que não aceitam tudo que é imposto pela sociedade como se fosse a coisa mais normal do mundo. Gente que pensa! E parabéns pela ousadia e transparẽncia de ser quem era nessa época, porque era muito mas difícil assumir um estilo alternativo nos anos 80 e 90. Não havia muitas peças diferentes à disposição, então tinha que inventar tudo! Do it yourself! Em conpensação havia muito mais pureza e sinceridade.

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  5. Olá,

    Adorei o texto. E realmente, concordo com você. A sociedade, como disse uma senhora que entrevistei certa vez, é hipócrita. Ela quer criticar, rotular, mas é incapaz de olhar a si mesmo e ver que também tem defeitos. O meio alternativo tanto masculino, quanto feminino, ao meu ver veio para quebrar esses parâmetros que fazem parte de uma sociedade ignorante e intolerante. Não deveria haver essa desavença toda. Acho que respeito é a base de tudo.

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    1. Women Rocker, concordo com você e essa senhora que entrevistou. Ser alternativo, gostar de rock e tudo que o acompanha é mudança, no meio cultural e desemboca na sociedade. Por isso temos as contraculturas e subculturas...quando uma delas inverte sua função real, de revolucionar, fazer pensar, retirar os estereótipos tanto de estilo quanto de pensamento da sociedade qual vai ser o resultado? Desastroso. Então esse desrespeito vem muito daí, os alternativos incorporaram o que há de pior de uma sociedade que antes não faziam questão de reproduzir os clichês.O meio alternativo (não todo) esvaziou as ideias e estilo de vida reais para ter apenas o visual.

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  6. Já tinha lido o texto lá no Aliena e achei muito, muito bom!
    Infelizmente, hoje em dia estamos em um mundo que vive mais da superficialidade, da aparência do que da essência.
    É muito triste ver que tem gente que se acha superior a outra pessoa só porque tem o corpo mais dentro do padrão ou porque, segundo ela própria, tem o estilo mais legal. Cadê a beleza da diversidade gente? É isso que faz o mundo mais legal! ^^
    bjin

    http://monevenzel.blogspot.com.br/

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